A CULPA  DAS ESTRELAS

John Green



Para Esther Earl

    Enquanto a mar banhava a areia da praia, o Homem das
Tulipas Holands contemplava o oceano:
    -- Juntadora treplicadora envenenadora ocultadora
reveladora. Repare nela, subindo e descendo, levando tudo
consigo.
     -- O que ? -- Anna perguntou.
    -- A gua -- respondeu o holands. -- Bem, e as horas.

    PETER VAN HOUTEN, Uma aflio imperial
                             NOTA DO AUTOR


     Esta  menos uma nota e mais um lembrete do autor sobre o que
apareceu impresso em letras pequenas algumas pginas atrs: Este livro 
uma obra de fico. Eu o inventei. Nem os textos nem os leitores se
beneficiam de tentativas de descobrir se h fatos reais por trs de uma
histria fictcia. Tais esforos so um ataque direto  crena de que
histrias inventadas podem ser relevantes, o que  mais ou menos a crena
fundamental da nossa espcie. Agradeo a sua colaborao neste quesito.
    CAPTULO UM




Faltando pouco para eu completar meu dcimo stimo ano de vida
        minha me resolveu que eu estava deprimida, provavelmente
        porque quase nunca saa de casa, passava horas na cama, lia o
mesmo livro vrias vezes, raramente comia e dedicava grande parte do meu
abundante tempo livre pensando na morte.
     Sempre que voc l um folheto, uma pgina da Internet ou sei l o
que mais sobre cncer, a depresso aparece na lista dos efeitos colaterais.
S que, na verdade, ela no  um efeito colateral do cncer.  um efeito
colateral de se estar morrendo. (O cncer tambm  um efeito colateral de
se estar morrendo. Quase tudo , na verdade.) Mas a mame achava que
eu precisava de tratamento, ento me levou ao meu mdico comum, o Jim,
que concordou que eu, de fato, estava nadando numa depresso
paralisante e totalmente clnica e, portanto, ele ia trocar meus remdios e,
alm disso, eu teria que frequentar um Grupo de Apoio uma vez por
semana.
     O grupo era formado por um elenco rotativo de pessoas com vrias
questes psicolgicas desencadeadas pelos tumores. A razo de o elenco
ser rotativo? Efeito colateral de se estar morrendo.
     O Grupo de Apoio era megadeprimente, bvio. A reunio acontecia
toda quarta-feira no poro de uma igreja episcopal -- uma construo no
formato de cruz com paredes de pedra. Ns nos sentvamos em uma roda
bem no meio da cruz: onde os dois pedaos de madeira um dia se
cruzaram, onde esteve o corao de Jesus.
     Sabia disso porque o Patrick, Lder do Grupo de Apoio e o nico
naquele lugar com mais de dezoito anos, falava sobre o corao de Jesus
todo raio de reunio, sobre como ns, jovens sobreviventes do cncer,
estvamos sentados bem no sagrado corao de Cristo, e tal.
     Bem, era assim que acontecia no corao do Senhor: os seis ou sete
ou dez de ns chegvamos l a p/de cadeira de rodas, comamos um
pouco daqueles biscoitos velhos com limonada, sentvamos na Roda da
Esperana e ouvamos o Patrick contar pela milsima vez a histria
ultradeprimente e superinfeliz da sua vida -- sobre ter tido cncer nas
bolas e acharem que ele ia morrer, mas no morreu, e ali estava, j adulto,
no poro de uma igreja na 137 cidade mais linda dos Estados Unidos,
divorciado, viciado em videogames, quase sem amigos, levando uma vida
sem graa explorando seu fantstico passado com cncer, ralando para
terminar um mestrado que no vai melhorar sua perspectiva de progresso
na carreira e esperando, como todos ns, que a espada de Dmocles traga
para ele o alvio do qual escapou muitos anos atrs, quando o cncer levou
seus testculos e lhe deixou algo que s a alma mais generosa poderia
chamar de vida.
     E VOCS TAMBM PODEM TER ESSA SORTE!
     A ns nos apresentvamos: Nome. Idade. Diagnstico. E como
estvamos no dia. Meu nome  Hazel, dizia na minha vez. Dezesseis.
Tireoide, originalmente, mas com uma respeitvel colnia satlite h
muito tempo instalada nos pulmes. E est tudo bem comigo.
     Depois do ltimo da roda, o Patrick sempre perguntava se algum
queria se abrir. E a comeava a punheta grupal de apoio mtuo: todo
mundo falando de lutar, combater, vencer, remitir e examinar. Para no
ser injusta com o Patrick, ele nos deixava falar da morte. Mas a maioria ali
no estava morrendo. A maioria viveria at a idade adulta. Como o Patrick.
     (Isso significa que havia muita competio, com todo mundo
querendo vencer no s o cncer, mas tambm as outras pessoas da roda.
Tipo, eu sei que no faz o menor sentido, mas quando voc ouve que tem,
por exemplo, vinte por cento de chance de viver cinco anos, e faz as contas
e conclui que isso  uma chance em cinco... voc olha em volta e pensa,
como qualquer pessoa saudvel faria: eu preciso durar mais que quatro
desses desgraados.)
     A nica coisa que salvava no Grupo de Apoio era um menino
chamado Isaac, um magrelo de rosto comprido, com cabelos loiros e lisos
que cobriam um de seus olhos.
     E seu problema eram os olhos. Ele teve um tipo inacreditavelmente
improvvel de cncer ocular. Um olho foi extrado quando ele era
pequeno, e agora o Isaac usava um par de culos fundo de garrafa que
fazia os olhos (tanto o de verdade quanto o de vidro) parecerem
sobrenaturalmente grandes, como se a cabea inteira fosse basicamente o
globo ocular de mentira e o de verdade olhando para voc. Pelo que pude
entender das raras vezes que ele se abriu para o grupo, uma recorrncia
colocou o olho que resta em perigo mortal.
     O Isaac e eu nos comunicvamos quase exclusivamente por meio de
suspiros. Cada vez que algum falava de dietas anticncer, de cheirar
cartilagem de tubaro em p ou sei l, ele me olhava e suspirava de leve.
Eu balanava a cabea em um movimento microscpico e dava um suspiro
em resposta.

                                    ***

Ento o Grupo de Apoio deu o que tinha de dar, e depois de algumas
semanas eu passei a surtar quando tocavam no assunto. Na verdade, na
quarta-feira em que conheci o Augustus Waters, tinha feito de tudo para
me livrar da ida  sesso de grupo enquanto estava sentada no sof com a
mame, no meio da terceira parte da maratona de doze horas da
temporada anterior de America's Next Top Model, que, confesso, j tinha
visto, mas mesmo assim...
     Eu: ,Eu me recuso a ir ao Grupo de Apoio.
     Mame: ,Um dos sintomas da depresso  a falta de interesse em
participar de atividades.
     Eu: ,Por favor, me, deixe eu ficar vendo America's Next Top Model.
Isso  uma atividade.
     Mame: ,Televiso  passividade.
     Eu: ,P, me, por favor...
     Mame: ,Hazel, voc j  adolescente. No  mais criancinha. Precisa
fazer amigos, sair de casa, viver sua vida.
    Eu: ,Se voc quer que eu aja como adolescente, no me mande para o
Grupo de Apoio. Compre uma carteira de identidade falsa para mim e a
eu vou sair  noite, beber vodca e tomar baseado.
    Mame: ,Para incio de conversa, no se toma baseado.
    Eu: ,Viu? Esse  o tipo de coisa que eu saberia se voc comprasse
uma carteira de identidade falsa para mim.
    Mame: ,Voc vai para o Grupo de Apoio.
    Eu: ,SAAAAAAACO.
    Mame: ,Hazel, voc merece uma vida.
    Aquilo me fez calar a boca, mesmo no tendo conseguido entender o
que a ida ao Grupo de Apoio tinha a ver com a definio de vida. De
qualquer jeito, concordei em ir -- depois de negociar o direito de gravar o
episdio e meio do ANTM que eu ia perder. Ia ao Grupo de Apoio pelo
mesmo motivo que uma vez deixei enfermeiras com um ano e meio de
faculdade me envenenarem com substncias qumicas de nomes exticos:
queria fazer meus pais felizes. S tem uma coisa pior nesse mundo que
bater as botas aos dezesseis anos por causa de um cncer: ter um filho que
bate as botas por causa de um cncer.

                                     ***

Mame parou na entrada de carros circular atrs da igreja s 4h56. Fingi
que estava ajeitando o cilindro de oxignio por um segundo s para ganhar
tempo.
    -- Quer que eu o carregue at l dentro?
    -- No, est tudo bem -- respondi.
    O cilindro verde s pesava uns poucos quilos e eu tinha um carrinho
de ao para transport-lo. Aquilo me fornecia dois litros de oxignio por
minuto atravs de uma cnula, um tubo transparente que se dividia bem
embaixo do meu pescoo, passava por trs das orelhas e se juntava de novo
nas narinas. A geringona era necessria porque meus pulmes faziam um
pssimo trabalho como pulmes.
     -- Eu te amo -- ela disse, enquanto eu saltava do carro.
     -- Eu tambm, me. Vejo voc s seis.
     -- Faa amigos! -- ela gritou pela janela abaixada enquanto eu me
distanciava. No quis usar o elevador porque isso  o tipo de coisa que
voc faz nos seus ,ltimos dias no Grupo de Apoio, ento fui de escada.
Peguei um biscoito, coloquei um pouco de limonada num copo descartvel
e me virei.
     Um garoto olhava fixamente para mim.
     Eu tinha quase certeza de nunca ter visto aquele cara na vida. Alto e
magro, mas musculoso, ele fazia a cadeira de plstico, daquelas usadas em
sala de aula, parecer minscula. Cabelo acaju, liso e curto. Parecia ter a
minha idade, talvez um ano mais velho, e estava sentado com o cccix na
beirada da cadeira, uma postura pssima, com uma das mos enfiada at a
metade no bolso da cala jeans escura.
     Desviei o olhar, repentinamente consciente da quantidade infinita de
coisas erradas em mim. Eu estava com uma cala jeans velha, que algum
dia foi justa mas que agora ficava folgada nos lugares mais estranhos, e
uma camiseta de malha amarela com o nome de uma banda da qual eu
nem gostava mais. Tinha tambm meu cabelo: cortado tipo Prncipe
Valente, e eu nem tive a preocupao de, puxa, dar uma escovada nele.
Alm disso, minhas bochechas estavam ridiculamente redondas, como as
de um esquilo, efeito colateral do tratamento. Eu era uma pessoa de
propores normais com um balo no lugar da cabea. Isso sem falar do
inchao nos tornozelos. Mesmo assim, dei uma espiada rpida e os olhos
dele ainda estavam grudados em mim.
     Foi ento que entendi o verdadeiro sentido de aquilo ser chamado de
contato visual.
     Andei at a roda e me sentei ao lado do Isaac, a duas cadeiras do
garoto. Olhei de novo, rapidamente. Ele ainda me observava.
     Na boa, vou logo dizendo: ele era um gato. Se um cara que no  gato
encara voc sem parar, isso , na melhor das hipteses, esquisito, e na
pior, algum tipo de assdio. Mas se  um cara gato... na boa...
     Peguei meu celular e apertei uma tecla para ver as horas. Os lugares
na roda foram ocupados por azarados de doze a dezoito anos e, ento, o
Patrick deu incio aos trabalhos com a prece da serenidade: Senhor, d-me
serenidade para aceitar as coisas que no posso modificar, coragem para
modificar as que posso, e sabedoria para reconhecer a diferena entre elas.
O garoto ainda estava me encarando. Senti meu rosto ficar vermelho.
     Por fim, resolvi que a melhor estratgia seria tambm olhar fixamente
para ele. Afinal de contas, os garotos no detm o monoplio da Atividade
Encaradora. Foquei nele enquanto o Patrick explicava pela milsima vez
sua ausncia debolas etc., e aquilo logo virou um Jogo do Srio. Depois de
um tempo o garoto sorriu e, at que enfim, desviou os olhos azuis. Quando
me olhou de novo, arqueei as sobrancelhas como que dizendo: ganhei.
     Ele deu de ombros. O Patrick prosseguiu e, enfim, a hora das
apresentaes chegou.
     -- Isaac, talvez voc queira ser o primeiro hoje. Sei que est
enfrentando um grande desafio no momento.
     --  -- o Isaac disse. -- Meu nome  Isaac. Tenho dezessete anos.
Parece que vou precisar ser operado em duas semanas, depois vou ficar
cego. No estou reclamando nem nada porque sei que poderia ser pior,
como no caso de alguns aqui, mas, quer dizer, ficar cego , tipo, uma
droga. Ter uma namorada me ajuda. Alm de amigos como o Augustus. --
Ele balanou a cabea na direo do garoto, que agora tinha nome. -- Pois
... -- continuou. Ele estava olhando para as mos, os dedos cruzados
parecendo o topo de uma tenda indgena. -- No h nada que se possa
fazer para mudar isso.
     -- Estamos do seu lado, Isaac -- o Patrick falou. -- Vamos l,
pessoal, digam para o Isaac ouvir.
     E ento todos ns, em unssono, dissemos:
     -- Estamos do seu lado, Isaac.
     O Michael foi o prximo. Ele tinha doze anos. Sofria de leucemia.
Desde que se entendia por gente. E estava bem. (Pelo menos foi o que
disse. Ele desceu de elevador.)
     A Lida tinha dezesseis anos e era bonita o suficiente para ser alvo do
olhar do cara gato. Era frequentadora assdua das reunies -- estava em
um longo perodo de remisso de um cncer de apndice, que eu nem
sabia que existia. Ela disse -- como em todas as outras vezes que eu fui s
sesses do grupo -- que se sentia forte, o que para mim, com aquela
chuvinha de oxignio fazendo cosquinhas no nariz, era o mesmo que tirar
onda. Outros cinco falaram antes do cara gato. Ele deu um sorrisinho
quando chegou sua vez. A voz era baixa, aveludada e supersensual.
     -- Meu nome  Augustus Waters -- disse. -- Tenho dezessete anos.
Tive uma pitada de osteossarcoma um ano e meio atrs, mas s estou aqui
hoje porque o Isaac pediu.
     -- E como est se sentindo? -- o Patrick perguntou.
     -- Ah, maravilha. -- Augustus Waters deu um sorrisinho. -- Estou
numa montanha-russa que s vai para cima, amigo.
     Quando chegou minha vez, eu disse:
     -- Meu nome  Hazel. Tenho dezesseis anos. Tireoide com metstase
nos pulmes. Estou bem. A hora passou rpido. Lutas foram recontadas,
batalhas ganhas em guerras que com certeza seriam perdidas; a esperana
virou tbua de salvao; famlias foram celebradas e recriminadas; foi
consenso que os amigos no entendiam nada; lgrimas foram
compartilhadas, e consolo, oferecido.
     Nem eu nem o Augustus Waters tnhamos soltado uma palavra, at
que o Patrick disse:
     -- Augustus, talvez voc queira falar de seus medos para o grupo.
     -- Meus medos?
     -- .
     -- Eu tenho medo de ser esquecido -- disse ele de bate-pronto. --
Tenho medo disso como um cego tem medo de escuro.
     -- Calma a... -- disse Isaac, abrindo um sorriso.
     -- Estou sendo insensvel? -- perguntou o Augustus. -- Eu posso ser
bem cego quando o assunto so os sentimentos das outras pessoas.
     O Isaac estava rindo, mas o Patrick levantou um dedo, repreendendo-
o.
     -- Por favor, Augustus. Voltemos a voc e s suas questes. Disse que
tem medo de ser esquecido?
      --  -- respondeu o Augustus.
     O Patrick pareceu meio perdido.
     -- Algum, ahn, algum gostaria de fazer algum comentrio?
     Eu no frequentava uma escola de verdade havia trs anos. Meus
melhores amigos eram meus pais. Meu terceiro melhor amigo era um
escritor que nem sabia que eu existia. Eu era relativamente tmida -- de
jeito nenhum o tipo que levanta a mo para falar. E, mesmo assim, s
dessa vez, resolvi abrir o verbo. Levantei a mo, e o Patrick, a satisfao
estampada na cara, disse:
     -- Hazel!
     Eu estava, tenho certeza de que foi isso o que ele pensou, me abrindo.
,Me tornando parte do grupo.
     Olhei na direo do Augustus Waters, que me encarava. Dava quase
para ver atravs dos olhos dele, de to azuis.
     -- Vai chegar um dia -- eu disse -- em que todos vamos estar
mortos. Todos ns. Vai chegar um dia em que no vai sobrar nenhum ser
humano sequer para lembrar que algum j existiu ou que nossa espcie
fez qualquer coisa nesse mundo. No vai sobrar ningum para se lembrar
de Aristteles ou de Clepatra, quanto mais de voc. Tudo o que fizemos,
construmos, escrevemos, pensamos e descobrimos vai ser esquecido e
tudo isso aqui -- fiz um gesto abrangente -- vai ter sido intil. Pode ser
que esse dia chegue logo e pode ser que demore milhes de anos, mas,
mesmo que o mundo sobreviva a uma exploso do Sol, no vamos viver
para sempre. Houve um tempo antes do surgimento da conscincia nos
organismos vivos, e vai haver outro depois. E se a inevitabilidade do
esquecimento humano preocupa voc, sugiro que deixe esse assunto para
l. Deus sabe que  isso o que todo mundo faz.
     Eu tinha aprendido aquilo com meu j citado terceiro melhor amigo,
Peter Van Houten, o autor recluso de Uma aflio imperial -- de todos os
meus livros, o mais prximo de uma Bblia. Peter Van Houten era a nica
pessoa que eu conhecia que parecia: (a) entender o que era estar
morrendo, e (b) no ter morrido.
     Assim que terminei fez-se um longo silncio, e eu pude ver um sorriso
se abrindo de um canto ao outro no rosto do Augustus -- no o tipo de
sorriso cafajeste do garoto tentando parecer sexy ao me encarar, mas um
sorriso sincero, quase maior que a cara dele.
     -- Caramba! -- disse ele baixinho. -- No  que voc  mesmo
demais?
     Ns dois no falamos mais nada at o fim da reunio, quando todos se
deram as mos e o Patrick nos guiou em uma prece.
     -- Senhor Jesus Cristo, estamos aqui reunidos em Seu corao,
literalmente em Seu corao, como sobreviventes do cncer. O Senhor e
somente o Senhor nos conhece como conhecemos a ns mesmos. Nos
guie pela vida e para a Luz em nossos perodos de provao. Oremos pelos
olhos do Isaac, pelo sangue do Michael e do Jamie, pelos ossos do
Augustus, pelos pulmes da Hazel, pela garganta do James. Oremos para
que o Senhor consiga nos curar e para que possamos sentir Seu amor e
Sua paz, que excedem todo o entendimento. E nos lembremos em nossos
coraes daqueles que um dia conhecemos, amamos e que foram para a
Sua casa: Maria, Kade, Joseph, Haley, Abigail, Angelina, Taylor, Gabriel...
     A lista era grande. Tem muita gente morta no mundo. E enquanto o
Patrick continuava a ladainha, lendo a relao em uma folha de papel
porque era muito comprida para ser decorada, fiquei de olhos fechados,
tentando elevar os pensamentos em orao, mas a maior parte do tempo
imaginava o dia em que meu nome ocuparia um lugarzinho ali, bem no fim
da lista, quando ningum mais est prestando ateno.
     Quando o Patrick acabou, entoamos juntos aquele mantra idiota --
VIVENDO O MELHOR DA NOSSA VIDA HOJE -- e foi o fim da
reunio. O Augustus Waters empurrou o corpo para fora da cadeira e
caminhou na minha direo. O andar dele era to cafajeste quanto o
sorriso. Ele parou na minha frente, mas manteve uma certa distncia para
eu poder olh-lo nos olhos sem ter de esticar o pescoo.
     -- Qual  o seu nome? -- ele perguntou.
     -- Hazel.
     -- No, o nome completo.
     -- Ahn, Hazel Grace Lancaster.
    Ele ia dizendo alguma coisa quando o Isaac se aproximou.
    -- S um instante -- falou, levantando um dedo, e virou-se para o
Isaac. -- Isso foi pior do que voc tinha dito, na verdade.
    -- Eu disse que era um tdio.
    -- Por que voc se d o trabalho de vir aqui?
    -- Sei l. Meio que ajuda...?
    O Augustus inclinou o corpo achando que assim eu no conseguiria
ouvi-lo.
    -- Ela vem sempre? -- No deu para escutar o comentrio do Isaac,
mas o Augustus respondeu:
    -- Quer saber? -- Ele pegou o Isaac pelos ombros e deu meio passo
para trs.
    -- Conte  Hazel da ida ao mdico.
    O Isaac apoiou uma das mos na mesa de biscoitos e virou o olho
enorme para mim.
     -- T,  que eu fui ao mdico hoje de manh e estava falando para o
meu cirurgio que preferiria ser surdo a ser cego. E ele disse: ,No  assim
que as coisas funcionam. A eu falei, tipo: ,, eu sei que no  assim; s
estou dizendo que preferiria ser surdo a ser cego se pudesse escolher, mas
sei que no posso. E ele: ,Bem, a boa notcia  que voc no vai ficar
surdo. Eu disse: ,Obrigado por esclarecer que meu cncer no olho no vai
me deixar surdo.  muita sorte minha ter um gnio como voc me
operando.
    -- Ele  mesmo um gnio -- falei. -- Vou tentar arrumar um cncer
qualquer no olho para poder conhecer esse cara.
    -- Boa sorte. Ento, t. J vou indo. A Monica est me esperando.
Preciso olhar bastante para ela enquanto posso.
    -- Counterinsurgence amanh? -- o Augustus perguntou.
    -- Com certeza. -- O Isaac deu meia-volta e subiu as escadas
correndo, pulando os degraus de dois em dois.
    Augustus Waters se virou para mim:
    -- Literalmente.
    -- Literalmente? -- perguntei.
     -- Estamos literalmente no corao de Jesus... Achei que
estivssemos no poro de uma igreja, mas estamos literalmente no corao
de Jesus.
     -- Algum deveria contar isso para Jesus -- falei. -- Quer dizer, deve
ser perigoso ficar guardando crianas com cncer no corao.
     -- Eu mesmo poderia contar -- o Augustus falou --, mas, para minha
infelicidade, estou literalmente enterrado no corao Dele, ento Ele no
vai conseguir me ouvir.
     Eu ri. O Augustus balanou a cabea, me olhando.
     -- O que foi? -- perguntei.
     -- Nada -- ele respondeu.
     -- Por que voc est olhando para mim desse jeito?
     Ele deu um sorrisinho.
     -- Porque voc  bonita. Eu gosto de olhar para pessoas bonitas, e faz
algum tempo que resolvi no me negar os prazeres mais simples da
existncia humana. -- Um silncio constrangedor se seguiu.
     Mas o Augustus quebrou o gelo.
     -- Quer dizer, principalmente porque, como voc deliciosamente
observou, tudo isso vai acabar em total esquecimento, e tal...
     Eu meio que engasguei, ou suspirei, ou soltei o ar de um jeito que
pareceu quase uma tosse, e disse:
     -- Eu no sou boni...
     -- Voc  tipo uma Natalie Portman milenar. Tipo a Natalie Portman
em V de Vingana.
     -- No vi esse filme -- falei.
     -- Srio? -- ele perguntou. -- Garota linda, de cabelo curto, rejeita a
autoridade e no consegue resistir a um cara que ela sabe que vai ser um
problema.  sua autobiografia, pelo menos at aqui, pelo que posso ver.
     Cada slaba que saa da boca dele flertava comigo.
     O.k., ele meio que me deixava excitada. Eu nem sabia que garotos
podiam me deixar excitada -- pelo menos no, tipo, na vida real.
     Uma menina mais nova passou por ns.
     -- E a, Alisa. Tudo bem? -- ele perguntou.
     Ela sorriu e balbuciou:
     -- Oi, Augustus.
     -- Gente do Memorial -- ele explicou.
      Memorial era o grande hospital de pesquisas.
     -- Qual voc frequenta?
     -- O Hospital Peditrico -- respondi, meu tom de voz mais baixo do
que eu pretendia. Ele fez que sim com a cabea. A conversa parecia ter
chegado ao fim. -- Bem -- falei, mexendo a cabea vagamente na direo
dos degraus que levavam para fora do Corao Literal de Jesus. Inclinei o
carrinho do oxignio para apoi-lo nas rodinhas e comecei a andar. O
Augustus foi mancando ao meu lado. -- Ento, a gente se v na prxima,
talvez? -- perguntei.
     -- Voc deveria assistir -- ele falou. -- Ao V de Vingana, quero
dizer.
     -- T. Vou ver se acho para assistir.
     -- No. Comigo. Na minha casa -- ele disse. -- Agora.
     Parei de andar.
     -- Eu mal conheo voc, Augustus Waters. Voc pode muito bem ser
o assassino do machado.
     Ele concordou.
     -- Tem toda razo, Hazel Grace.
     E passou por mim, os ombros dando forma  camisa polo verde, as
costas retas, os passos da direita um pouco mais marcantes enquanto
andava firme e confiante apoiado no que eu determinei ser uma prtese.
s vezes o osteossarcoma leva um dos membros s para dar uma sondada
em voc. Depois, se gostar, leva o restante.
     Eu o segui escada acima, devagar, ficando para trs. Degraus no so
o forte dos meus pulmes.
     A fomos do corao de Jesus at o estacionamento, o frescor da brisa
da primavera na medida certa, a luz do fim de tarde divina em sua
nocividade.
     Mame no tinha chegado ainda, o que era estranho, porque ela quase
sempre estava l esperando por mim. Olhei em volta e vi que uma garota
alta, morena e boazuda imprensava o Isaac na parede de pedra da igreja,
beijando o menino de um jeito quase agressivo. Estvamos to perto que
eu podia escutar os rudos estranhos das duas bocas grudadas, e ouvi o
Isaac dizendo ,sempre, e ela respondendo com ,sempre tambm.
     O Augustus apareceu de repente ao meu lado e sussurrou:
     -- Eles so grandes adeptos de demonstrar afeto em pblico.
      -- Qual  a do ,sempre?
     O rudo da troca de saliva aumentou de intensidade.
      -- ,Sempre  o lema deles. Sempre vo se amar, e tal. Pelos meus
clculos, e sendo bastante conservador, eles devem ter trocado quatro
milhes de mensagens de texto com a palavra sempre no ano passado.
     Mais dois carros chegaram, levando embora o Michael e a Alisa. A
sobramos s o Augustus e eu, observando o Isaac e a Monica, que
continuavam frenticos, como se no estivessem encostados na parede de
um local de orao. Ele ps a mo no peito dela, por cima da blusa, e
apalpou o mamilo, a mo imvel enquanto os dedos se mexiam. Fiquei me
perguntando se aquilo seria gostoso. No parecia, mas resolvi perdoar o
Isaac levando em conta o fato de que ele estava para ficar cego. Os
sentidos devem aproveitar enquanto ainda h apetite, e tal.
     -- Imagine a ltima ida de carro at o hospital -- falei, baixinho. -- A
ltima vez que voc vai dirigir um carro.
     Sem me olhar, o Augustus disse:
     -- Voc est atrapalhando a minha vibe aqui, Hazel Grace. Estou
tentando observar o amor adolescente em sua esplendorosa estranheza. --
Acho que ele est machucando o peito dela -- comentei.
     -- .  difcil saber ao certo se ele est tentando excitar a menina ou
fazer um exame de mama.
     A o Augustus colocou a mo no bolso e tirou de l, por incrvel que
parea, um mao de cigarros. Levantou a tampa da caixinha e colocou um
cigarro na boca.
     -- Isso  srio? -- perguntei. -- Voc acha isso legal? Ai, meu Deus,
voc acabou de estragar a coisa toda.
     -- Que coisa toda? -- ele perguntou, virando para mim.
     O cigarro pendia apagado da boca, do canto que no sorria.
     -- A coisa toda em que um garoto que no  pouco atraente ou pouco
inteligente ou, aparentemente, de forma alguma pouco tolervel me encara
e chama minha ateno para utilizaes incorretas da literalidade e me
compara a atrizes e me convida para ver um filme na casa dele. Mas 
claro que sempre tem uma hamartia e a sua  que, ai, meu Deus, mesmo
voc TENDO TIDO UM RAIO DE UM CNCER ainda d dinheiro
para uma empresa em troca da chance de ter MAIS CNCER. Ai, meu
Deus. Deixe eu s dizer para voc como  no conseguir respirar?  UM
INFERNO. Totalmente decepcionante. Totalmente.
     -- Uma hamartia? -- ele perguntou, o cigarro ainda na boca.
     Aquilo deixava sua mandbula contrada. E a linha da mandbula dele,
infelizmente, era tudo...
     -- Uma falta trgica -- expliquei, dando as costas para ele.
     Dei um passo na direo do meio-fio, deixando o Augustus Waters
para trs, e foi ento que ouvi um carro dando a partida mais adiante na
rua. Era a mame. Ela tinha ficado ali, esperando que eu, tipo, fizesse
amigos ou coisa assim.
     Senti um misto de decepo e raiva crescendo em mim. Nem sei
direito que sentimento era aquele, srio, s que havia muito dele, e eu
queria dar um soco na cara do Augustus Waters e ao mesmo tempo trocar
meus pulmes por outros que no fossem pssimos. Eu estava de p bem
na pontinha do meio-fio com meu All-Star Chuck Taylors, o cilindro de
oxignio no carrinho ao meu lado parecendo aquela bola de ferro que fica
presa com uma corrente no tornozelo de um prisioneiro, e na hora que
minha me ia encostando o carro senti a mo dele pegar a minha.
     Puxei a mo mas me virei para ele.
     -- Eles no matam se voc no acender -- disse ele quando mame
parou junto ao meio-fio. -- E eu nunca acendi nenhum.  uma metfora.
Tipo: voc coloca a coisa que mata entre os dentes, mas no d a ela o
poder de completar o servio.
     --  uma metfora -- falei, hesitante.
     Mame esperava, quieta.
    --  uma metfora -- ele repetiu.
    -- Voc determina seu comportamento com base nas ressonncias
metafricas...
    -- Ah, . -- Ele sorriu. O sorriso largo, meio bobo e sincero. -- Sou
um grande adepto da metfora, Hazel Grace.
    Eu me virei para o carro. Dei uma batidinha na janela. Que se abriu.
    -- Vou ver um filme com o Augustus Waters -- falei. -- Grave, por
favor, os prximos episdios da maratona do ANTM para mim.
    CAPTULO DOIS




A        ugustus Waters dirigia muito mal. Tanto na freada quanto na
         arrancada, dava sempre um TRANCO enorme. Eu voava de
         encontro ao cinto de segurana da caminhonete Toyota toda vez
que ele freava, e meu pescoo chicoteava para trs quando o p ia para o
acelerador. Eu deveria estar nervosa -- sentada no carro de um estranho,
indo para a casa dele, perfeitamente ciente do fato de que meus pulmes
de araque iriam dificultar quaisquer esforos para evitar avanos
indesejados --, mas ele dirigia to mal que eu no conseguia pensar em
outra coisa.
     Tnhamos percorrido quase uns dois quilmetros em silncio, ouvindo
s os barulhos do carro, quando o Augustus disse:
     -- Fui reprovado trs vezes no teste de direo.
     -- No diga.
     Ele riu e balanou a cabea.
     --  que eu no consigo sentir nada com a boa e velha prtese aqui, e
no me acostumo a dirigir com o p esquerdo. Meus mdicos disseram
que a maioria dos amputados consegue dirigir sem problemas, mas... bem.
No  o meu caso. A eu cheguei para o meu quarto teste de direo e ele
rolou mais ou menos como agora. -- Quase um quilmetro  frente o sinal
ficou vermelho. O Augustus pisou fundo no freio, me atirando num abrao
triangular com o cinto de segurana. -- Foi mal. Juro por Deus que estou
tentando fazer tudo devagar. Mas, a, no fim do teste, eu estava certo de
que tinha sido reprovado de novo, e o instrutor disse: ,Seu jeito de dirigir 
incmodo, mas no  arriscado, tecnicamente falando. -- No sei se
concordo com ele -- falei. -- Acho que foi mais um caso de ,privilgio do
cncer.
     Os ,privilgios do cncer so pequenas coisas que as crianas com a
doena recebem e as saudveis, no: bolas de basquete autografadas por
dolos do esporte, perdo pelo atraso na entrega do dever de casa, carteiras
de motorista no merecidas etc.
     --  -- ele disse.
     O sinal ficou verde. Segurei firme no banco. O Augustus meteu o p
no acelerador.
     -- Voc sabe que existem controles manuais para pessoas que no
podem dirigir usando os pedais? -- perguntei.
     -- Sei -- ele respondeu. -- Quem sabe algum dia?
     E suspirou de um jeito que me fez pensar se ele achava que esse
algum dia ia chegar. Eu sabia que o osteossarcoma tinha uma
probabilidade de cura muito grande, mas, mesmo assim...
     Existem vrias maneiras de estabelecer a expectativa de vida
aproximada de algum sem perguntar isso diretamente. Eu fui pela mais
tradicional.
     -- Ento, voc estuda?
     Normalmente seus pais tiram voc da escola quando j esto
esperando que bata as botas.
     -- Estudo -- ele respondeu. -- Na North Central. Mas estou
atrasado um ano, dei uma parada no segundo. E voc?
     Pensei em mentir. Afinal de contas, ningum se interessa por um
cadver ambulante. Mas acabei dizendo a verdade.
     -- No. Meus pais me tiraram da escola h trs anos.
     -- Trs anos? -- ele perguntou, boquiaberto.
     Contei ao Augustus a verso resumida do meu milagre: diagnosticada
com cncer de tireoide em estgio IV aos treze anos. (No contei que o
diagnstico veio trs meses depois da minha primeira menstruao. Tipo:
Parabns! Voc j  uma mulher. Agora morra.) E, foi o que nos disseram,
era incurvel.
     Passei por uma cirurgia chamada dissecao radical do pescoo, to
desagradvel quanto o nome. Depois, radioterapia. A tentaram
quimioterapia para os tumores no pulmo, que diminuram num primeiro
momento, mas cresceram de novo. Nessa poca eu j tinha quatorze anos.
Meus pulmes comearam a se encher de lquido. Basicamente, eu
parecia uma morta-viva -- as mos e os ps inchados como bales, a pele
rachada, os lbios sempre roxos. Existe um remdio que faz voc no ficar
totalmente apavorado pelo fato de no conseguir respirar, e eu tinha uma
grande quantidade dele fluindo dentro de mim por um cateter central
inserido perifericamente-- PICC, para os ntimos -- e mais de uma
dezena de outros medicamentos. Mesmo assim, a sensao de afogamento
 meio desagradvel, principalmente quando dura vrios meses. Por fim,
acabei na UTI com pneumonia, e minha me se ajoelhou ao lado do meu
leito e perguntou: ,Voc est pronta, querida? Eu respondi que estava, e
meu pai ficava repetindo que me amava com aquela voz embargada de
sempre, e eu dizia que o amava tambm, e todo mundo de mos dadas, eu
sem conseguir respirar, meus pulmes funcionando no desespero, sem
flego, me forando a me ajeitar para tentar achar uma posio que
permitisse que ar entrasse, eu constrangida pelo desespero dos meus
pulmes, passada por eles no desistirem, simplesmente, e me lembro da
minha me dizendo que estava tudo bem, que eu estava bem, que eu
ficaria bem, e do meu pai fazendo um esforo to grande para no chorar
que, quando caa no choro, o que acontecia com frequncia, parecia um
terremoto. E me lembro de no querer ficar acordada.
     Todo mundo achou que aquele fosse meu fim, mas minha mdica do
cncer, Maria, conseguiu drenar um pouco do lquido dos pulmes e, logo
depois, os antibiticos que eu tomava para tratar a pneumonia comearam
a fazer efeito.
     Acordei e logo entrei num daqueles testes clnicos com remdios
experimentais que so famosos na Repblica da Cancervnia por no
funcionarem. A droga se chamava Falanxifor, uma tal de molcula
projetada para grudar nas clulas cancerosas e diminuir a velocidade de
multiplicao delas. No funcionava em mais ou menos 70% das pessoas.
Mas funcionou em mim. Os tumores reduziram de tamanho.
     E continuaram reduzidos. Viva o Falanxifor! Nos ltimos dezoito
meses minhas metstases quase no aumentaram, deixando para mim
pulmes que so pssimos, mas que poderiam, a princpio, continuar
funcionando indefinidamente no sacrifcio com o auxlio da chuvinha de
oxignio e de doses dirias de Falanxifor.
     Devo confessar que a histria de milagre do meu cncer s resultou
em um pequeno ganho de tempo. (Eu s no sabia ainda quo pequeno.)
Mas, enquanto contava tudo ao Augustus Waters, pintei o quadro mais
otimista possvel, ressaltando a miraculosidade do milagre.
     -- Ento voc precisa voltar a estudar -- ele disse.
     -- Na verdade, no d -- expliquei --, porque j peguei meu
certificado de concluso do ensino mdio. Por isso tenho assistido s aulas
no MCC. -- Que  a faculdade comunitria da cidade.
      -- Uma universitria -- ele disse, balanando a cabea. -- Isso
explica a aura de sofisticao.
     Ele abriu um sorriso afetado. Dei um empurro no seu brao, de
brincadeira. E pude sentir o msculo logo abaixo da pele, todo contrado e
incrvel.
     Fizemos uma curva cantando pneu e entramos em um loteamento
com muro emboado de dois metros e meio de altura. A casa dele era a
primeira  esquerda. Estilo colonial, dois andares. Paramos, com um
tranco, na entrada de carros.
     Fui atrs dele at dentro da casa. Uma placa de madeira, no hall,
tinha gravadas com letras cursivas as palavras O lar  onde fica o corao,
e acabou que a casa toda era enfeitada com dizeres desse tipo. Amigos de
verdade so difceis de encontrar e impossveis de esquecer, afirmava uma
ilustrao acima do cabideiro. O verdadeiro amor nasce em tempos
difceis, prometia uma almofada bordada na sala de estar cheia de mveis
antigos. O Augustus me pegou lendo.
     -- Meus pais chamam isso de Encorajamentos -- explicou. -- Esto
espalhados por toda parte.

                                     ***

O pai e a me dele o chamavam de Gus. Estavam preparando enchiladas
na cozinha (escrita em letras gordinhas num vidro jateado perto da pia
estava a frase Famlia  para sempre). A me colocava frango nas tortillas,
que o pai enrolava e botava num pirex. Eles no pareceram muito
surpresos com a minha chegada, o que fazia sentido: o fato de o Augustus
me fazer sentir especial no queria necessariamente dizer que eu era
especial. Talvez ele levasse uma garota nova todas as noites para ver um
filme e se aproveitar dela.
     -- Esta  Hazel Grace -- ele disse, me apresentando formalmente.
     -- S Hazel -- falei.
     -- Como vai, Hazel? -- o pai perguntou. Ele era alto, quase to alto
quanto o Gus, e magro de um jeito que pais mais velhos normalmente no
so.
     -- Tudo bem -- respondi.
     -- Como foi l no Grupo de Apoio do Isaac?
     -- Foi inacreditvel -- disse o Gus.
     -- Voc  um tremendo desmancha-prazeres -- a me disse. --
Hazel, voc gosta de l?
     Fiquei em silncio por um segundo, tentando decidir se minha
resposta deveria ser calculada para agradar ao Augustus ou aos pais dele.
     -- A maioria das pessoas  bem legal -- falei, por fim.
     -- Foi exatamente o que achamos das famlias no Memorial quando
estvamos no meio do tratamento do Gus -- o pai dele disse. -- Todo
mundo era muito gentil. Forte, tambm. Nos dias mais sombrios, o Senhor
coloca as melhores pessoas na sua vida.
     -- Rpido, cad a almofada e a linha, porque isso precisa virar um
Encorajamento -- o Augustus disse, e o pai pareceu ficar um pouco
chateado, mas a ele passou o brao comprido em volta do pescoo do
homem e falou:
     -- S estou brincando, pai. Eu gosto desses malditos Encorajamentos.
De verdade. S no posso admitir isso porque sou adolescente. -- O pai
dele revirou os olhos.
     -- Voc vai ficar para o jantar? -- a me me perguntou. Ela era baixa,
morena e tinha as feies de uma ratinha.
     -- Acho que sim -- respondi. -- Tenho de estar em casa s dez. Ah,
s tem uma coisa... Eu no como carne...
     -- No tem problema. Vamos vegetarianizar algumas delas -- ela
disse.
     -- Os animais so fofos demais? -- o Gus perguntou.
     -- Quero diminuir a quantidade de mortes pelas quais sou
responsvel -- falei.
     O Gus abriu a boca para fazer um comentrio mas pensou duas vezes
e continuou calado.
     A me dele preencheu o silncio.
     -- Pois eu acho isso uma coisa maravilhosa.
     Eles conversaram um pouco comigo, me contando que as enchiladas
eram as Famosas e Impossveis de No Experimentar Enchiladas Waters,
e que o toque de recolher do Gus tambm era s dez, e que eles
desconfiavam totalmente de qualquer um que estabelecesse um toque de
recolher diferente de dez, comentando o fato de eu estar estudando -- ,ela
 universitria, o Augustus exclamou --, de o clima estar absolutamente
magnfico para maro, e de como na primavera tudo era renovado, e em
nenhum momento fizeram qualquer pergunta sobre o oxignio ou sobre
meu diagnstico, o que era ao mesmo tempo estranho e maravilhoso, e a o
Augustus disse:
     -- A Hazel e eu vamos assistir ao V de Vingana para que ela possa
ver a doppelgnger cinematogrfica dela, a Natalie Portman do sculo
vinte e um.
     -- A sala de estar  toda de vocs -- o pai dele disse, todo alegrinho.
     -- Na verdade, acho que vamos ver o filme l no poro.
     O pai dele riu.
     -- Boa tentativa. Sala de estar.
     -- Mas eu quero mostrar o poro para a Hazel Grace -- o Augustus
disse.
     -- S Hazel -- falei.
     -- Ento mostre o poro para a S Hazel -- o pai dele disse. -- E
depois volte aqui para cima e assista ao seu filme na sala de estar.
     O Augustus bufou, se equilibrou na perna e girou o quadril, jogando a
prtese para a frente.
     -- T bem -- resmungou.
     Desci as escadas acarpetadas atrs dele at chegarmos a um enorme
quarto-poro. No nvel dos meus olhos, uma prateleira lotada de
memorabilia de basquete se estendia pelas paredes de todo o cmodo:
dezenas de trofus com homenzinhos de plstico dourado no meio de
saltos com arremesso, driblando ou voando em enterradas em cestas
invisveis. Tambm havia vrias bolas e tnis autografados.
     -- Eu jogava basquete -- ele explicou.
     -- Voc devia ser muito bom.
     -- No era de todo ruim, mas esses tnis e essas bolas so Privilgios
do Cncer. -- Ele andou at a TV, onde uma pilha enorme de DVDs e
videogames estava arrumada num formato que lembrava uma pirmide.
Dobrou o corpo na linha da cintura e puxou de l o V de Vingana. -- Eu
era, tipo, o prottipo do jogador de basquete estudantil de Indiana -- ele
disse. -- Estava todo empenhado em ressuscitar a arte esquecida do
arremesso de meia distncia. Mas, um dia, enquanto praticava arremessos
livres da cabea do garrafo na quadra do ginsio da North Central,
pegando as bolas de um carrinho, de repente me perguntei por que estava
jogando um objeto esfrico atravs de outro, toroidal. Parecia ser, de todas,
a coisa mais idiota do mundo. A comecei a pensar nas crianas pequenas
que tentam encaixar blocos cilndricos em crculos vazados e em como
tentam isso vrias vezes durante meses at descobrirem como se faz, e em
como o basquete era basicamente uma verso s um pouquinho mais
aerbica desse mesmo exerccio. Bem, de qualquer forma, por um tempo
segui encestando os lances livres. Acertei oito bolas seguidas, meu recorde
absoluto, mas, enquanto continuava, me sentia cada vez mais como uma
criana de dois anos. E a, por algum motivo que no sei qual, comecei a
pensar em atletas que praticam corridas com obstculos. Est tudo bem?
     Eu tinha me sentado na beira da cama desarrumada dele. No queria
me insinuar, nem nada;  que me canso um pouco toda vez que fico muito
tempo de p. J tinha ficado em p na sala de estar, depois desci a escada,
e a fiquei de p de novo, o que era demais para mim, e no queria
desmaiar. Eu era tipo uma donzela vitoriana, no quesito ,desmaios  toa.
     -- Tudo bem -- falei. -- S estou prestando ateno em voc. Atletas
que praticam corridas de obstculos?
     -- Pois . No sei por qu. Comecei a pensar neles correndo naquelas
pistas de atletismo, saltando aqueles objetos totalmente arbitrrios
colocados no meio do caminho. E a me perguntei se esses corredores j
teriam pensado em algo como: Essa corrida seria mais rpida se ns
simplesmente nos livrssemos dos obstculos.
     -- E isso foi antes do diagnstico? -- perguntei.
     -- , bem, tem isso tambm. -- Ele deu um sorrisinho. -- Por
coincidncia, o dia dos lances livres carregados de existencialismo foi meu
ltimo como bpede. S tive um fim de semana entre o agendamento da
amputao e o ,dia D. Meu vislumbre particular do momento pelo qual o
Isaac est passando agora.
     Balancei a cabea, concordando. Eu gostava do Augustus Waters.
Gostava muito mesmo dele. Gostava de como a histria dele terminava
falando de outra pessoa. Gostava da voz dele. Gostava do fato de ele ter
feito lances livres carregados de existencialismo. Gostava de ele ser
professor titular no Departamento de Sorrisos Ligeiramente Tortos com
duas ctedras no Departamento da Voz Que Me Deixa  Flor da Pele. E
gostava de ele ter um apelido. Sempre gostei de pessoas com apelidos
porque voc pode escolher como cham-las: Gus ou Augustus? Eu era
sempre s Hazel, uma Hazel univalente.
     -- Voc tem irmos? -- perguntei.
     -- Hein? -- ele murmurou, parecendo um pouco distrado.
     -- Aquilo que voc disse sobre ver crianas brincando.
     -- Ah, no. Eu tenho sobrinhos, das minhas meias-irms. Mas elas
so mais velhas. Elas tm... PAI, QUANTOS ANOS A MARTHA E A
JULIE TM?
     -- Vinte e oito!
     -- Elas tm vinte e oito anos. Moram em Chicago. As duas so
casadas com advogados muito importantes. Ou banqueiros. No lembro
direito. E voc, tem irmos? Fiz que no com a cabea.
     -- E a? Qual  a sua histria? -- ele perguntou, sentando do meu
lado, a uma distncia segura.
     -- J contei minha histria para voc. Fui diagnosticada quando...
     -- No, no a histria do seu cncer. A sua histria. Seus interesses,
passatempos, paixes, fetiches etc.
     -- Humm -- murmurei.
     -- No v me dizer que voc  uma daquelas pessoas que encarnam a
doena. Conheo tanta gente assim... D at pena. Tipo, o cncer  um
negcio em franco crescimento, certo? O negcio de tomar-as-pessoas-de-
assalto. Mas  claro que voc no deixou que ele sasse vencedor assim to
cedo.
     Passou pela minha cabea a ideia de que talvez eu tivesse deixado,
sim. Demorei a decidir como me vender para o Augustus Waters, que
interesses selecionar, mas no silncio que se seguiu s consegui pensar
que eu no era muito interessante.
     -- No tenho nada de extraordinrio.
     -- Eu me recuso a acreditar nisso. Pense em alguma coisa de que
voc goste. A primeira coisa que vier  cabea.
     -- Humm. Ler?
     -- O que voc gosta de ler?
     -- Tudo. De, tipo, romances hediondos a fico pretensiosa, poesia.
De tudo um pouco.
     -- Voc tambm escreve poesia?
     -- No. Eu no escrevo.
     -- Ta! -- O Augustus falou quase gritando. -- Hazel Grace, voc  a
nica adolescente nos Estados Unidos que prefere ler poesia a escrever
poesia. S isso j diz muito sobre a sua pessoa. Voc l um monte de livros
maneiros com M maisculo, no l?
     -- Acho que sim.
     -- Qual  o seu livro favorito?
     -- Humm -- murmurei.
     Meu livro favorito era, de longe, Uma aflio imperial, mas eu no
gostava de falar dele. s vezes, um livro enche voc de um estranho fervor
religioso, e voc se convence de que esse mundo despedaado s vai se
tornar inteiro de novo a menos que, e at que, todos os seres humanos o
leiam. E a tem livros como Uma aflio imperial, do qual voc no
consegue falar -- livros to especiais e raros e seus que fazer propaganda
da sua adorao por eles parece traio.
     No era nem pelo fato de o livro ser bom nem nada; era s porque o
autor, Peter Van Houten, parecia me entender dos modos mais estranhos
e improvveis. Uma aflio imperial era o meu livro, do mesmo jeito que
meu corpo era meu corpo e meus pensamentos eram meus pensamentos.
     Mesmo assim, falei dele para o Augustus.
     -- Meu livro favorito , provavelmente, Uma aflio imperial -- eu
disse.
     -- Tem zumbis? -- ele perguntou.
     -- No -- respondi.
     -- Stormtroopers?
     Balancei a cabea negativamente.
     -- No  esse tipo de livro.
     Ele sorriu.
     -- Vou ler esse livro horrvel com um ttulo sem graa que no contm
stormtroopers -- ele prometeu, e imediatamente senti que no deveria ter
lhe contado. O Augustus se virou para uma pilha de livros na parte de
baixo da mesa de cabeceira. Pegou um deles e uma caneta. Enquanto
escrevia algo na primeira pgina, falou: -- Tudo o que peo em troca  que
voc leia esta adaptao brilhante e memorvel do meu videogame
favorito. -- Ele me estendeu o exemplar, cujo ttulo era O preo do
alvorecer. Ri e peguei-o. Nossos dedos meio que se embaralharam no
processo e no fim ele acabou segurando minha mo. -- Fria -- ele disse, o
dedo apertando meu pulso plido.
     -- Mais desoxigenada que fria -- falei.
     -- Adoro quando voc usa termos mdicos comigo -- ele disse, se
levantando e me puxando junto. E no soltou minha mo at chegarmos 
escada.
                                      ***

Vimos o filme com vrios centmetros de sof entre ns. Dei uma de pr-
adolescente colocando a mo no sof na metade do caminho para deixar
claro que ele podia me dar a mo se quisesse, mas ele no fez nada.
Depois de uma hora de filme, seus pais entraram e nos serviram as
enchiladas, que comemos no sof, e estavam uma delcia.
     O filme era sobre um tipo heroico e mascarado que morria
heroicamente por Natalie Portman, uma garota durona e muito sexy que
no tem nada a ver com a minha cara estufada de esteroides.
     Enquanto rolavam os crditos, ele disse:
     -- Muito maneiro, n?
     -- Muito maneiro -- concordei, mesmo no sendo.
     Srio. Era um filme do tipo que s agrada garotos. No sei por que os
meninos esperam que gostemos desses filmes. Ns, meninas, no temos
expectativa nenhuma de que eles gostem dos nossos tipos de filme.
     -- Preciso ir para casa. Tenho aula de manh -- falei.
     Fiquei sentada no sof por um tempo enquanto o Augustus procurava
as chaves. A me dele se sentou ao meu lado e disse:
     -- Adoro esse a. E voc?
     Acho que eu estava olhando fixamente para o Encorajamento acima
da TV, a ilustrao de um anjo com a legenda: Sem dor, como poderamos
reconhecer o prazer?
     (Essa  uma discusso antiga no campo das Reflexes Sobre o
Sofrimento, e a ignorncia e a ausncia de sofisticao da frase poderiam
ser analisadas por vrios sculos, mas  suficiente dizer que a existncia do
brcolis no afeta de forma alguma o gosto do chocolate.)
     --  -- falei. -- Um pensamento agradvel.
     Fui dirigindo o carro do Augustus at a minha casa, ele no banco do
carona. Ele tocou para mim algumas msicas de que gostava, de um grupo
chamado The Hectic Glow, e eram boas, mas como eu no conhecia, no
causaram em mim o mesmo efeito que nele. De vez em quando eu dava
uma olhada na perna do Augustus, ou no lugar onde ela costumava ficar,
tentando imaginar como seria a aparncia da perna falsa. No queria dar
muita bola para aquilo, mas dava um pouco. E ele devia sentir a mesma
coisa em relao ao meu oxignio. A doena gera repulsa. Aprendi isso h
muito tempo, e achava que o Augustus tambm tinha aprendido.
     Quando encostei o carro em frente  minha casa, o Augustus desligou
o rdio. O clima ficou tenso. Ele devia estar pensando em me beijar, e eu
com certeza estava considerando essa possibilidade. Fiquei me
perguntando se era o que eu queria. J tinha beijado alguns garotos, mas
fazia algum tempo. Na era pr-milagre.
     Coloquei a marcha do carro em ponto morto e olhei para ele. Como
era belo. Sei que este no  o adjetivo mais usado para elogiar a beleza de
um garoto, mas ele era.
     -- Hazel Grace. -- Meu nome soando indito e muito mais bonito na
voz dele. -- Foi um prazer inenarrvel conhec-la.
     -- Igualmente, Sr. Waters -- falei.
     E fiquei envergonhada ao olhar para ele. No era preo para a
intensidade daqueles olhos azul-piscina.
     -- Podemos nos ver de novo? -- perguntou, e havia um nervosismo
fofo na voz dele.
     Sorri.
     -- Claro.
     -- Amanh?
     -- Pacincia, Gafanhoto -- aconselhei. -- Assim vai parecer que voc
est ansioso demais.
     -- Exatamente. Foi por isso que falei ,amanh. Quero ver voc de
novo hoje  noite. Mas estou disposto a esperar a noite toda e boa parte do
dia de amanh.
    Revirei os olhos.
    -- Estou falando srio -- ele disse.
    -- Voc nem me conhece direito. -- Peguei o livro de dentro do
console. -- Que tal se eu ligar para voc assim que acabar de ler isto?
    -- Mas voc no sabe qual  o nmero do meu telefone -- ele disse.
    -- Tenho motivos para acreditar que voc anotou o nmero no livro.
Ele abriu aquele sorriso meio bobo.
-- E voc ainda diz que a gente no se conhece direito.
    CAPTULO TRS




F       iquei acordada at bem tarde lendo O preo do alvorecer. (Para
        acabar com o suspense: o preo do alvorecer  o sangue.) No era
        nenhum Uma aflio imperial, mas o protagonista, o Sargento Max
Mayhem, era ligeiramente simptico, apesar de ter matado, pelas minhas
contas, nada menos que cento e dezoito indivduos em duzentas e oitenta
quatro pginas.
     Por isso acordei tarde na manh seguinte, uma quinta-feira. Minha
me seguia a seguinte poltica: nunca me acordar, pois um dos pr-
requisitos do Doente Profissional  dormir muito. O que me deixou meio
confusa, num primeiro momento, quando fui despertada pelas mos dela
em meus ombros.
     -- So quase dez horas da manh -- ela disse.
     -- O sono combate o cncer. Fiquei acordada at tarde lendo.
     -- Deve ser um livro e tanto -- ela disse ao se ajoelhar ao lado da
cama e me desconectar do enorme concentrador de oxignio retangular,
que eu chamava de Felipe, porque simplesmente tinha cara de Felipe.
Mame me conectou a um cilindro porttil e me lembrou que eu tinha
aula. -- Foi aquele menino que deu isso para voc? -- ela perguntou.
     -- Com isso voc quer dizer herpes?
     -- Voc  impossvel -- mame comentou. -- O livro, Hazel. Estou
falando do livro.
     -- Sim, ele me deu o livro.
     -- Est na cara que voc gosta dele -- ela falou, as sobrancelhas
arqueadas, como se uma observao dessas dependesse exclusivamente de
um instinto maternal.
     Dei de ombros.
     -- Eu disse que o Grupo de Apoio acabaria valendo a pena --
continuou ela.
     -- Voc ficou esperando l fora o tempo todo?
     -- Fiquei. Levei coisas para ler. Mas isso no vem ao caso. Hora de
sair para aproveitar o dia, minha jovem.
     -- Me. Dormir. Combate. Cncer.
     -- Eu sei, querida, mas voc tem aula agora. Alm disso, hoje ... --
A alegria na voz da mame era evidente.
     -- Quinta-feira?
     -- Voc esqueceu, de verdade?
     -- Talvez?
     -- Hoje  quinta-feira, vinte e nove de maro -- ela disse aquilo
quase gritando, o sorriso estampado no rosto.
     -- Voc parece estar muito feliz s de saber que dia  hoje -- gritei
tambm.
     -- HAZEL! HOJE  SEU TRIGSIMO TERCEIRO MEIO
ANIVERSRIO!
     -- Ahhhhh! -- falei. Minha me era totalmente adepta da prtica de
maximizar as celebraes de datas comemorativas. HOJE  O DIA DA
RVORE! VAMOS ABRAAR RVORES E COMER BOLO!
COLOMBO TROUXE VAROLA PARA OS NATIVOS DA AMRICA;
PRECISAMOS FESTEJAR A DATA COM UM PIQUENIQUE! etc. --
J que  assim, feliz trigsimo terceiro meio aniversrio para mim --
completei.
     -- O que voc quer fazer neste dia to especial?
     -- Voltar para casa depois da aula e assistir ao maior nmero possvel
de episdios de Top Chef de uma vez s para bater o recorde mundial
nessa categoria?
     Mame esticou o brao e pegou, da prateleira acima da minha cama, o
Azulzinho, o urso de pelcia azul que eu tinha desde, tipo, um ano de
idade -- quando ainda era socialmente aceitvel dar para os bichos de
pelcia nomes inspirados na cor deles.
     -- Voc no quer ir ao cinema com a Kaitlyn ou com o Matt? --
Esses eram meus amigos.
     Era uma ideia.
     -- Pode ser -- respondi. -- Vou mandar uma mensagem de texto para
a Kaitlyn e ver se ela quer ir ao shopping ou fazer alguma coisa depois da
aula.
     Mame sorriu, abraada ao urso.
     -- Ir ao shopping ainda  considerado um programa legal? -- ela
perguntou.
     -- Eu me orgulho muito de no saber o que  ou no  um programa
legal -- respondi.

                                    ***

Mandei um torpedo para a Kaitlyn, tomei banho, vesti uma roupa e
mame me deu uma carona at a escola. A matria do dia era Literatura
Norte-americana, uma aula sobre Frederick Douglass dada numa sala tipo
anfiteatro praticamente vazia. Foi muito difcil manter os olhos abertos.
Quarenta minutos depois de iniciada a aula de noventa minutos, a Kaitlyn
respondeu.

    Legal. Feliz Meio Aniversrio. Castleton s 3h32?

   A Kaitlyn possua uma vida social concorrida, organizada visando o
melhor aproveitamento do tempo dela. Respondi:

    Boa ideia. Te vejo na praa de alimentao.

     Mame me levou de carro direto da escola para a livraria ao lado do
shopping, onde comprei tanto o Alvoradas  meia-noite quanto o Rquiem
para Mayhem, os volumes seguintes da srie ,O preo do alvorecer.
Depois fui andando at a ampla praa de alimentao e comprei uma
Coca Zero. Eram 3h21.
     Enquanto lia, dei uma espiada nas crianas que brincavam num navio
pirata na rea de recreao do shopping. Duas atravessavam um tnel
repetidas vezes, engatinhando, e no se cansavam daquilo, o que me fez
lembrar do Augustus Waters e de seus lances livres carregados de
existencialismo.
     Mame tambm estava na praa de alimentao, sozinha, sentada em
um canto, achando que eu no conseguia v-la, comendo um sanduche
de fil com queijo e lendo alguns papis. Artigos mdicos, provavelmente.
Aquelas leituras pareciam no ter fim.
     s 3h32 em ponto, avistei Kaitlyn passando, confiante e decidida, em
frente ao restaurante Wok House. Ela me viu quando levantei o brao,
abriu um sorriso de dentes branquinhos e recm-alinhados, e veio andando
na minha direo.
     Ela estava com um casaco cinza-escuro que ia at o joelho,
perfeitamente ajustado ao corpo, e culos escuros que cobriam boa parte
do rosto. Ela empurrou os culos para o alto da cabea quando se abaixou
para me abraar.
     -- Amada -- disse de um jeito levemente afetado. -- Como vai?
     Ningum achava aquele modo de falar estranho nem se incomodava.
Acontece que a Kaitlyn era uma socialite britnica de vinte e cinco anos
presa no corpo de uma adolescente de dezesseis e morando em
Indianpolis. Todo mundo aceitava aquilo.
     -- Estou bem. E voc?
     -- Nem sei mais. Isso  Coca Zero? -- Fiz que sim com a cabea e
entreguei o copo para ela, que tomou um gole pelo canudo. -- Eu adoraria
que voc estivesse indo  escola nos ltimos tempos. Alguns dos meninos
ficaram totalmente apetitosos.
     --  mesmo? Tipo quem? -- perguntei. Ela listou cinco garotos que
foram da nossa turma na educao infantil e no ensino fundamental, mas
no consegui me lembrar de nenhum deles.
     -- Estou saindo com o Derek Wellington j faz algum tempo -- ela
disse --, mas no acho que v durar. Ele  to infantil... Mas chega de
falar de mim. Quais so as novidades no universo Hazel?
     -- Nenhuma, na verdade -- respondi.
     -- A sade est boa?
     -- Na mesma, acho.
     -- Falanxifor! -- ela disse, entusiasmada, sorrindo. -- Ento voc
pode acabar vivendo para sempre?
     -- Talvez no para sempre -- ponderei.
     -- Mas, praticamente -- ela falou. -- Nenhuma outra novidade?
     Pensei em contar para ela que estava saindo com um garoto tambm,
ou pelo menos que tinha assistido a um filme com ele, s porque sabia que
o fato de algum como eu, to descuidada da aparncia, dos bons modos e
baixinha, poder, mesmo que por um breve momento, despertar o interesse
de um garoto causaria surpresa e espanto na Kaitlyn. Mas no tinha muito
do que me gabar, na verdade, ento s dei de ombros.
     -- Cus, o que  isso? -- ela perguntou, apontando para o livro.
     -- Ah,  fico cientfica. Estou meio que curtindo sci-fi agora.  uma
srie.
     -- Estou chocada. Vamos fazer compras?

                                     ***

Fomos  sapataria. Enquanto escolhamos os modelos, a Kaitlyn ia me
mostrando sapatilhas abertas na frente e dizendo: ,Essas ficariam lindas
em voc, o que me fez lembrar do fato de que ela nunca usava sandlias
porque odiava os prprios ps. Achava que os dedos ao lado dos dedes
eram compridos demais, como se fossem uma janela para a alma, ou coisa
assim. Ento, quando apontei para um par de sandlias que combinavam
com seu tom de pele, a Kaitlyn reagiu com:
    -- , mas... -- O mas querendo dizer mas eles vo deixar meus dedos
medonhos  mostra.
    -- Kaitlyn, voc  a nica pessoa que eu conheo que tem
dismorfofobia do dedo do p -- falei, e ela perguntou:
    -- O que  isso?
    -- Sabe quando voc olha no espelho e o que v no  exatamente o
que  de verdade?
    -- Ah. Ah -- ela disse. -- O que acha desses aqui? -- Segurou um
par de sapatos estilo boneca bonitinhos, mas nada de mais, eu fiz que sim
com a cabea, ela achou um par do tamanho dela, calou e andou de um
lado para outro pelo corredor da loja, olhando os ps refletidos num
espelho que ia at a altura do joelho. Depois pegou um par de sapatos
altssimos, com vrias tiras,  la prostituta, e perguntou: -- Ser
humanamente possvel andar com isso aqui? Quer dizer, eu simplesmente
morreria... -- E ento parou no meio da frase e olhou para mim como que
pedindo desculpas, como se mencionar a morte para quem est morrendo
fosse algum tipo de crime. -- Voc deveria experiment-los -- continuou,
tentando abafar o caso.
     -- Eu morreria mais rpido -- garanti.
     Acabei escolhendo um par de chinelos s para ter o que comprar,
sentei num dos bancos em frente a uma prateleira cheia de sapatos e
fiquei observando a Kaitlyn serpenteando pelos corredores da loja,
escolhendo calados com a intensidade e a concentrao normalmente
associadas ao xadrez profissional. Eu meio que queria tirar o Alvoradas 
meia-noite da bolsa e ler um pouco, mas sabia que isso no seria muito
educado de minha parte, ento fiquei s olhando a Kaitlyn. De vez em
quando ela ia at onde eu estava, carregando algum sapato fechado, e
perguntava: ,Esse?, e eu tentava fazer algum comentrio inteligente sobre
ele, at que, por fim, ela comprou trs pares e eu, meus chinelos.
     Enquanto saamos da loja, ela perguntou:
     -- Vamos  Anthropologie agora?
     -- Est na hora de ir para casa, na verdade -- falei. -- Estou meio
cansada.
     -- Claro, sem problemas -- ela disse. -- Preciso v-la mais vezes,
amada. -- Colocou as mos nos meus ombros, beijou minhas bochechas e
bateu em retirada, rebolando os quadris.
     S que no fui para casa. Pedi para a mame me buscar s seis, e
mesmo sabendo que ela deveria estar ou dentro do shopping ou no
estacionamento, ainda queria as duas horas seguintes s para mim.
     Eu gostava da minha me, mas a proximidade perptua dela s vezes
me deixava estranhamente nervosa. Tambm gostava da Kaitlyn. De
verdade. Mas, depois de trs anos afastada da convivncia em tempo
integral com meus colegas de turma, era como se uma distncia
intransponvel tivesse se estabelecido entre ns. Acho que meus amigos da
escola queriam me ajudar a superar essa fase do cncer, mas acabaram
percebendo que no era possvel. Pelo simples fato de no ser uma fase.
     Ento me safei usando a velha desculpa da dor e do cansao, como fiz
vrias vezes nos ltimos anos quando saa com a Kaitlyn ou com algum dos
outros. Na verdade, sempre doa. Sempre doa no respirar como uma
pessoa normal, tendo a toda hora de lembrar a seus pulmes que eles
devem agir como pulmes, fazendo fora para aceitar como insolvel a dor
lancinante que vem l de dentro por causa da falta de oxigenao. Eu no
estava mentindo de todo. Estava s escolhendo uma das verdades.
     Achei um banco entre uma loja de suvenires irlandeses, chamada
Fountain Pen Emporium, e uma loja de bons de beisebol -- um canto do
shopping que nem mesmo a Kaitlyn frequentaria, e comecei a ler o
Alvoradas  meia-noite.
     O livro tinha uma taxa de condenao-a-cadver de quase 1:1, e eu o
devorei sem tirar os olhos da pgina uma vez sequer. Gostava do Sargento
Max Mayhem, mesmo a conduta dele no sendo muito ,tcnica, mas o
que eu gostava, principalmente, era das suas aventuras, que no paravam
de acontecer. Sempre havia mais caras do mal para matar e mais caras do
bem para salvar. Novas guerras comeavam antes mesmo de as antigas
serem ganhas. Eu no lia uma srie de verdade assim desde pequena, e
estava animada por viver de novo numa fico infinita.
     A vinte pginas do fim do Alvoradas  meia-noite as coisas comearam
a ficar um tanto ruins para o lado do Mayhem, quando ele foi atingido
dezessete vezes na tentativa de resgatar uma refm (loira, norte-americana)
que estava nas mos do inimigo. Mas, no papel de leitora, no me
desesperei. O esforo de guerra continuaria sem ele. Poderiam ser -- e
seriam -- feitas continuaes da histria estrelando seus companheiros de
grupo: o recruta Manny Loco, o soldado Jasper Jacks e os outros.
     Eu estava para terminar o livro quando uma menininha de tranas
surgiu na minha frente e perguntou:
    -- O que  isso no seu nariz?
    -- Humm. O nome disso  cnula. Esses tubos me do oxignio e me
ajudam a respirar -- respondi.
    A me dela tomou a frente e disse:
    -- Jackie -- demonstrando total desaprovao.
    Mas eu falei:
    -- No, no, est tudo bem. -- Porque estava tudo bem mesmo.
    E quando a Jackie perguntou:
    -- Eles me ajudariam a respirar tambm?
    Respondi:
    -- No sei. Vamos tentar.
     Tirei a cnula e deixei a Jackie enfi-la no nariz e respirar.
    -- Faz cosquinha -- ela disse.
    -- Faz, no faz?
    -- Acho que estou respirando melhor -- ela comentou.
    -- Mesmo?
    -- Mesmo.
    -- Bom -- falei. -- Eu gostaria de poder dar minha cnula para voc,
mas eu meio que preciso muito mesmo da ajuda dela.
    J comeava a sentir falta de ar. Concentrei toda a ateno na minha
respirao enquanto Jackie me devolvia os tubos. Dei uma limpadinha
bsica neles com a minha camiseta, encaixei-os atrs das orelhas e enfiei o
cateter nas narinas.
    -- Obrigada por me deixar experimentar -- ela disse.
    -- De nada.
    -- Jackie -- a me falou de novo, e dessa vez eu a deixei ir.
    Voltei para o livro, onde o Sargento Max Mayhem se lamentava por ter
apenas uma vida para dar por seu pas, mas continuei pensando na
menininha e no quanto tinha gostado dela.
    A outra coisa estranha em relao  Kaitlyn, acho, era que conversar
com ela no parecia mais uma coisa natural. Quaisquer tentativas de
simular interaes sociais normais eram deprimentes porque ficava bvio
que todo mundo com quem eu falava em qualquer momento da minha
vida se sentia constrangido e desconfortvel comigo, exceto talvez crianas
como a Jackie, que simplesmente no sabem nada da vida como ela .
     De qualquer forma, eu gostava mesmo de ficar sozinha. Gostei de
ficar sozinha com o pobre Sargento Max Mayhem, que -- ai, pera, ele no
vai sobreviver a dezessete ferimentos a bala, vai?
     (Para acabar com o suspense: ele sobrevive.)
    CAPTULO QUATRO




Deitei cedo aquela noite, depois de trocar de roupa, colocar um
          short, uma camiseta e me enfiar debaixo das cobertas na minha
          cama de casal enorme, cheia de travesseiros -- de todos os
lugares no mundo, o meu preferido. Ento comecei a ler Uma aflio
imperial pela milionsima vez.
     UAI  sobre uma menina chamada Anna e sua me de um olho s --
uma paisagista obcecada por tulipas. As duas levam uma vida tpica de
classe mdia baixa numa cidadezinha da Califrnia, at que um dia a Anna
 diagnosticada com um tipo raro de leucemia.
     Mas esta no  uma histria de cncer, porque livros assim so um
horror. Tipo, em livros com histrias de cncer, a pessoa que tem o cncer
abre uma instituio de caridade para arrecadar dinheiro e ajudar na
pesquisa da cura da doena, certo? E o comprometimento com a caridade
faz com que essa pessoa seja relembrada da bondade inerente ao ser
humano, e se sinta amada e encorajada porque deixar um legado para a
erradicao do cncer. Mas, no UAI, a Anna resolve que ser uma pessoa
com cncer que abre uma instituio de caridade para ajudar nas
pesquisas da prpria doena  um tanto narcisista, ento monta uma
instituio chamada Fundao Anna para Pessoas com Cncer que
Querem Curar o Clera.
     Alm disso, a Anna  honesta em todos os aspectos, de um jeito que
ningum mais  de verdade: durante todo o livro ela se refere a si mesma
como um efeito colateral, o que est absolutamente certo. Crianas com
cncer so, no fundo, efeitos colaterais da mutao incessante que tornou
a diversidade da vida na face da Terra possvel. A, no decorrer da histria,
ela adoece ainda mais, a doena e os tratamentos competindo para ver
quem a mata primeiro, e a me se apaixona por um vendedor de tulipas
holands que a Anna chama de o Homem das Tulipas Holands. O
Homem das Tulipas Holands tem muito dinheiro e ideias bastante
excntricas a respeito de como tratar o cncer, mas a Anna acha que esse
cara pode ser um vigarista e que talvez no seja nem mesmo holands, e a,
no momento em que o provvel holands e a me dela esto prestes a se
casar, e Anna est  beira de iniciar um novo tratamento doido envolvendo
grama de trigo e pequenas doses de arsnico, o livro termina bem no meio
de uma.
     Sei que essa  uma deciso bastante literria, e tal, e muito
provavelmente parte do motivo pelo qual eu amo tanto esse livro, mas h
um certo atrativo nas histrias que terminam. E se no d para terem um
fim, ento pelo menos deveriam continuar indefinidamente, como as
aventuras do peloto do Sargento Max Mayhem.
     Entendi que a histria acabou porque a Anna morreu ou ficou to mal
que no conseguiu mais escrever, e que essa coisa de interromper a frase
no meio pretendia refletir o modo como a vida acaba de verdade, e sei l o
qu, mas havia outros personagens alm da Anna, e parecia injusto eu no
poder saber o que aconteceu com eles. Escrevi, por intermdio do editor
dele, vrias cartas para o Peter Van Houten, cada uma pedindo respostas
para perguntas relativas ao que acontece aps o trmino do livro: se o
Homem das Tulipas Holands  um vigarista, se a me da Anna acaba se
casando com ele, o que acontece com o hamster da Anna (que a me
odeia), se os amigos da Anna concluem o ensino mdio... essas coisas.
Mas ele nunca respondeu a nenhuma das minhas cartas.
     UAI foi o nico livro escrito por Peter Van Houten, e tudo o que as
pessoas pareciam saber a respeito do autor era que depois do lanamento
do livro ele se mudou dos Estados Unidos para a Holanda e passou a viver
recluso. Imaginei que ele estaria trabalhando numa continuao da
histria, ambientada na Holanda -- talvez a me da Anna e o Homem das
Tulipas Holands tivessem se mudado para l e estivessem tentando
comear uma vida nova. Mas j fazia dez anos que Uma aflio imperial
tinha sido lanado, e depois disso o Van Houten no publicou nenhum
post num blog sequer. Eu no poderia esperar para sempre.
     Enquanto lia o livro aquela noite, de vez em quando me distraa ao
imaginar o Augustus Waters lendo as mesmas palavras que eu. Ser que
estava gostando, ou tinha parado no meio por achar o livro pretensioso? A
me lembrei da promessa que fiz de ligar para ele assim que terminasse O
preo do alvorecer, ento peguei o nmero do telefone na primeira pgina
do livro e mandei um torpedo para ele.

    Opinio sobre O preo do alvorecer: muitos corpos.        Quantidade
insuficiente de adjetivos. Como vai o UAI?

    Ele respondeu um minuto depois:

     Se lembro bem, voc prometeu me LIGAR quando terminasse de ler
o livro, e no me mandar um SMS.

     A eu liguei.
     -- Hazel Grace -- ele disse ao atender.
     -- Voc leu tudo?
     -- No acabei ainda. O livro tem seiscentas e cinquenta e uma
pginas e eu s tive vinte e quatro horas.
     -- At onde chegou?
     -- Pgina quatrocentos e cinquenta e trs.
     -- E?
     -- Nada de opinies antes do fim. Mas tenho de admitir que estou
meio envergonhado de ter dado O preo do alvorecer para voc ler.
     -- No fique. J estou no Rquiem para Mayhem.
     -- Um acrscimo brilhante  srie. Ento t, me diga, o cara das
tulipas  um vigarista ou no ? Estou tendo um mau pressentimento com
relao a ele. -- Nada de estragar o suspense -- eu disse.
     -- Se ele for qualquer coisa diferente de um completo cavalheiro, vou
arrancar os olhos dele fora.
     -- Ento voc est gostando do livro.
     -- Nada de opinies antes do fim! Quando posso ver voc?
    -- Com certeza, no at terminar Uma aflio imperial. -- Eu
adorava fazer jogo duro.
    -- Ento  melhor eu desligar e comear a ler.
    -- Melhor mesmo -- falei, e o telefonema acabou ali.
    Paquerar era uma coisa nova para mim, mas eu estava gostando.

                                    ***

Na manh seguinte eu tinha aula de Poesia Norte-americana do Sculo XX
no MCC. Uma professora bem mais velha conseguiu falar noventa
minutos da Sylvia Plath sem citar uma palavra da Sylvia Plath.
     Quando sa da aula, mame estava parada no meio-fio na frente do
prdio.
     -- Voc ficou esperando aqui o tempo todo? -- perguntei quando ela
se apressou em me ajudar a puxar o carrinho e o cilindro para dentro do
carro.
     -- No. Peguei algumas roupas na lavanderia e fui  agncia dos
correios.
     -- E depois?
     -- Trouxe um livro para ler -- ela disse.
     -- E sou eu quem precisa viver a minha vida. -- Sorri, e ela tentou
sorrir tambm, mas havia algo estranho em seu sorriso. Depois de alguns
segundos, falei: -- Que tal um cineminha?
     -- Boa ideia. Tem alguma coisa que voc queira ver?
     -- Vamos fazer o de sempre: ir at l e assistir ao filme que estiver
para comear.
     Ela fechou a porta do carro para mim e andou at o lado do motorista.
Fomos ao cinema Castleton e assistimos a um filme 3-D sobre roedores
falantes. No fim das contas, o filme at que era engraado.

                                    ***

Quando samos do cinema, vi que tinha recebido quatro torpedos do
Augustus.

     Diga que meu exemplar veio com as ltimas vinte pginas faltando ou
algo assim.

    Hazel Grace, diga que eu no cheguei ao fim deste livro.

  AI MEU DEUS ELES SE CASAM OU NO AI MEU DEUS O
QUE  ISSO

    A Anna morreu e a histria acabou,  isso? CRUEL.

    Ligue para mim quando puder. Espero que esteja tudo bem.

     Ento, quando cheguei  minha casa, fui direto para o quintal, me
sentei numa cadeira de vime tranado meio velhinha que havia na varanda,
e liguei para ele. O dia estava nublado, como sempre est em Indiana: o
tipo de clima que deixa qualquer um deprimido. Ocupando quase toda a
rea do quintal ficava o balano que eu usava na infncia, e que agora
tinha uma aparncia toda alagada e pattica.
     O Augustus atendeu no terceiro toque.
     -- Hazel Grace -- falou.
     -- Seja bem-vindo  doce tortura que  ler Uma aflio... -- Parei ao
ouvir um choro convulsivo do outro lado da linha. -- Voc est bem? --
perguntei.
     -- Ah, maravilha -- o Augustus respondeu. -- Mas estou aqui com o
Isaac, que est meio descompensado. -- Mais choro. Como o grito de
morte de algum animal ferido. O Gus deu ateno para o Isaac. -- Cara.
Cara. A Hazel do Grupo de Apoio ajuda ou atrapalha? Isaac. Preste.
Ateno. Em. Mim. -- Um minuto depois o Gus me perguntou: -- Voc
pode vir at a minha casa em mais ou menos vinte minutos?
     -- Claro -- respondi, e desliguei.
                                     ***

Se desse para ir em linha reta, eu levaria s uns cinco minutos da minha
casa at a do Augustus de carro, mas no d porque o Holliday Park est
entre ns.
     Mesmo sendo uma inconvenincia geogrfica, eu gostava muito do
Holliday Park. Quando era pequena, costumava brincar no rio White com
o papai, e sempre havia um momento fantstico em que ele me lanava no
alto, me jogando para longe, eu esticava os braos durante o voo e papai,
os dele, e ento ambos vamos que nossos braos no iriam se tocar e que
ningum iria me pegar, o que nos assustava da melhor maneira possvel, e
a eu, as pernas agitadas no ar, mergulhava na gua e depois subia para
respirar, ilesa, a corrente me levando de volta para ele enquanto eu dizia
de novo, papai, de novo.
     Estacionei na entrada de carros ao lado de um Toyota preto meio
antigo modelo sed. Imaginei que fosse o carro do Isaac. Levando o
cilindro no carrinho atrs de mim, andei at a porta de entrada. Bati. O pai
do Gus atendeu.
     -- S Hazel -- exclamou. -- Que bom ver voc.
     -- O Augustus disse que eu poderia vir aqui.
     -- . Ele e o Isaac esto no poro. -- Naquele momento ouvi um
choro vindo l de baixo.
     -- E esse  o Isaac -- disse o pai do Gus, balanando a cabea
devagar. -- Cindy precisou sair para dar uma volta de carro. O barulho...
-- ele falou, divagando. -- Bem, de qualquer maneira, acho que voc est
sendo requisitada l embaixo. Posso carregar seu cilindro? -- ele
perguntou.
     -- No precisa, estou bem. Obrigada mesmo assim, Sr. Waters.
     -- Mark -- ele disse.
     Eu estava meio com medo de descer. Ouvir gente chorando
convulsivamente no  um dos meus passatempos favoritos. Mas fui
mesmo assim.
     -- Hazel Grace -- disse o Augustus ao ouvir o rudo dos meus passos.
-- Isaac, a Hazel do Grupo de Apoio est descendo. Hazel, s para
lembrar: o Isaac est no meio de um surto psictico.
     O Augustus e o Isaac estavam sentados em poltronas em formato de
L, daquelas prprias para se jogar videogame, olhando para cima, para uma
televiso gigantesca. A tela estava dividida entre o ponto de vista do Isaac,
 esquerda, e o do Augustus,  direita. Eles eram soldados em guerra numa
cidade contempornea toda bombardeada. Reconheci o cenrio como
sendo o de O preo do alvorecer. Ao me aproximar, o que vi no tinha
nada de anormal: s dois caras sentados, banhados pela luz de uma
televiso enorme, fingindo matar pessoas.
     S quando fiquei bem ao lado deles pude ver o rosto do Isaac.
Lgrimas corriam num fluxo contnuo por suas bochechas vermelhas, a
cara dele uma mscara de dor. Ele olhava vidrado para a tela, sem virar
nem um instantinho na minha direo, aos prantos, o tempo todo
apertando os botes do controle.
     -- Est tudo bem, Hazel? -- perguntou o Augustus.
     -- Estou bem -- respondi. -- Isaac?
     Nenhuma resposta. Nem mesmo uma pista que determinasse se ele
estava ou no consciente da minha presena ali. S lgrimas descendo
pelo rosto e encharcando a camiseta preta.
     O Augustus tirou os olhos da tela s por um instante.
     -- Voc est bonita -- ele disse. Eu usava um vestido que ia at um
pouquinho abaixo dos joelhos e que eu tinha h sculos. -- As garotas
pensam que s podem usar vestidos em ocasies formais, mas eu gosto da
mulher que diz, tipo: Estou indo ver um cara em meio a um colapso
nervoso, um cara cuja ligao com o sentido da viso  tnue, e, que se
dane, vou usar esse vestido para ele.
    -- E mesmo assim -- falei -- o Isaac no  nem capaz de dar uma
olhada rpida em mim. Apaixonado demais pela Monica, s pode ser. --
Comentrio esse que resultou num choro catastrfico.
    -- Este  um assunto delicado -- o Augustus explicou. -- Isaac, no
sei por voc, mas tenho a vaga impresso de que estamos sendo
flanqueados. -- E voltou a falar comigo: -- O Isaac e a Monica no so
mais um casal, mas ele no quer falar sobre isso. S quer chorar e jogar
Counterinsurgence 2: O preo do alvorecer.
     --  justo -- falei.
     -- Isaac, estou comeando a ficar preocupado com a nossa
localizao. Caso concorde com isso, v at aquela usina termoeltrica, e
eu cubro voc.
     O Isaac correu para uma construo indistinta enquanto o Augustus
atirava enlouquecidamente com uma metralhadora, numa srie de rajadas
rpidas, e corria atrs dele.
     -- De qualquer forma -- o Augustus se dirigiu a mim --, no vai fazer
nenhum mal falar com ele. Se tiver alguma palavra sbia, algum conselho
feminino.
     -- Para falar a verdade, acho que a reao dele , provavelmente, a
mais apropriada -- comentei, enquanto uma rajada da metralhadora do
Isaac matou um inimigo que havia colocado a cabea para fora da carcaa
incendiada de um caminho.
     O Augustus fez que sim com a cabea, ainda olhando para a tela.
     -- A dor precisa ser sentida -- ele disse, e esta era uma frase do Uma
aflio imperial. -- Voc tem certeza de que no h ningum atrs de ns?
-- ele perguntou ao Isaac. Momentos depois, balas traantes comearam a
zumbir acima da cabea deles. -- Ai, que droga, Isaac -- o Augustus
disse. -- No quero criticar voc num momento to sensvel como esse,
mas deixou que fssemos flanqueados, e agora no h nada entre os
terroristas e a escola.
     O personagem do Isaac partiu correndo na direo do fogo cruzado,
ziguezagueando por uma passagem estreita.
     -- Vocs poderiam atravessar a ponte e dar a volta por trs -- palpitei,
uma ttica que conhecia graas  minha leitura de O preo do alvorecer.
     O Augustus suspirou.
     -- Infelizmente, a ponte j est sob o controle dos rebeldes devido 
estratgia questionvel do meu parceiro desconsolado aqui.
     -- Eu? -- o Isaac disse, ofegante. -- Eu?! Foi voc quem sugeriu que
nos metssemos no raio da usina termoeltrica.
     Gus desviou o olhar da tela por um segundo e deu seu sorriso torto
para o Isaac.
     -- Eu sabia que voc conseguia falar, meu chapa -- ele disse. --
Agora vamos salvar alguns estudantes mirins ficcionais.
     Juntos, eles correram pela passagem estreita, atirando e se
escondendo nos momentos certos, at chegarem a uma escola de um
andar s e com apenas uma sala. Eles se agacharam atrs de uma parede
do outro lado da rua e acertaram os inimigos, um a um.
     -- Por que eles querem entrar na escola? -- perguntei.
     -- Pretendem fazer as crianas de refns -- o Augustus respondeu.
     Os ombros dele estavam curvados e ele apertava os botes do
controle, os antebraos rijos, as veias visveis. O Isaac se inclinou para a
frente, para a tela, o controle danando na mo fina de dedos finos.
     -- Vai vai vai -- o Augustus disse.
     Ondas de terroristas continuaram surgindo, e eles dizimaram todos, os
tiros surpreendentemente precisos, como tinham de ser, para que no
acabassem atirando na escola.
     -- Granada! Granada! -- o Augustus gritou quando alguma coisa
passou desenhando um arco pela tela, quicou no caminho que levava 
entrada da escola e ento rolou, parando encostada na porta.
     O Isaac largou o controle, de to frustrado.
     -- Se esses desgraados no conseguirem fazer refns, vo matar
todos eles e colocar a culpa em ns.
     -- Isaac, me cubra! -- o Augustus falou ao pular de trs da parede e
correr na direo da escola.
     O Isaac pegou de volta o controle, sem jeito, e comeou a atirar
enquanto choviam balas em cima do Augustus, que foi atingido uma vez e
depois duas, mas continuou a correr, gritando: ,VOCS NO PODEM
MATAR MAX MAYHEM!, e com uma combinao final e afobada de
apertos nos botes ele mergulhou em cima da granada, que detonou. Seu
corpo desmembrado explodiu como um giser e a tela ficou toda vermelha.
Uma voz gutural disse: ,MISSO FRACASSADA, mas o Augustus no
parecia concordar com isso enquanto sorria, vendo seus restos mortais na
tela. Ele enfiou a mo no bolso, pegou um cigarro e colocou-o entre os
dentes.
     -- Salvamos as crianas -- ele disse.
     -- Por enquanto -- observei.
     -- Todo salvamento  temporrio -- o Augustus retrucou. -- Eu
proporcionei a elas mais um minuto. Talvez esse seja o minuto que vai
proporcionar a elas mais uma hora, que  a hora que vai proporcionar a
elas mais um ano. Ningum vai dar a elas uma quantidade infinita de
tempo, Hazel Grace, mas a minha vida deu a elas mais um minuto. E isso
no  pouco.
     -- Opa, pera -- eu disse. -- Estamos falando de pixels aqui.
     Ele deu de ombros, como se acreditasse que o jogo pudesse ser
realmente de verdade. O Isaac estava chorando de novo. O Augustus se
virou para ele:
     -- Vamos tentar completar a misso mais uma vez, cabo?
     O Isaac fez que no. Ele se inclinou pela frente do Augustus para
olhar para mim e disse, as cordas vocais exigidas ao extremo:
     -- Ela no quis deixar para depois.
     -- Ela no quis terminar o namoro com um cara cego -- falei.
     Ele concordou, as lgrimas caindo na cadncia de um metrnomo
silencioso: constante, interminvel.
     -- Ela disse que no conseguiria lidar com isso -- o Isaac falou. --
Estou prestes a perder a viso e ela no consegue lidar com isso.
     Eu fiquei pensando no verbo lidar, e em todas as coisas no lidveis
com que se tem de lidar.
     -- Sinto muito -- falei.
     Ele enxugou o rosto todo molhado na manga da camisa. Por trs dos
culos, os olhos do Isaac pareciam to grandes que tudo mais no rosto dele
meio que desaparecia, e ficavam s aqueles dois olhos flutuantes e
incorpreos olhando para mim: um de verdade, um de vidro.
      -- Isso  inaceitvel -- ele me disse. -- Isso  totalmente inaceitvel.
     -- Bem, para ser honesta -- falei --, quer dizer, ela no deve mesmo
conseguir lidar com isso. Voc tambm no, mas ela no precisa. E voc,
sim.
      -- Eu ficava dizendo ,sempre para ela hoje, ,sempre, sempre,
sempre, e ela s continuava falando ao mesmo tempo que eu, sem me
escutar, e no disse ,sempre para mim. Era como se eu no estivesse mais
ali, sabe? ,Sempre era uma promessa! Como  que voc pode no cumprir
uma promessa desse jeito?
      -- s vezes as pessoas no tm noo das promessas que esto
fazendo no momento em que as fazem -- falei.
      O Isaac me lanou um olhar ferino.
      -- T, tem razo. Mas voc cumpre a promessa mesmo assim. Amar 
isso. Amar  cumprir a promessa mesmo assim. Voc no acredita em
amor verdadeiro?
      No respondi. No tinha uma resposta para aquela pergunta. Mas tive
a sensao de que se o amor verdadeiro existisse, aquela seria uma
definio bastante boa para ele.
      -- Eu acredito em amor verdadeiro -- o Isaac disse. -- Eu amo a
Monica. E ela fez uma promessa. Ela me prometeu para sempre.
      Ele ficou de p e deu um passo na minha direo. Eu me levantei,
achando que ele queria um abrao ou coisa assim, mas a ele
simplesmente deu meia-volta, como se no conseguisse se lembrar de por
que tinha ficado em p, e ento o Augustus e eu vimos uma expresso de
dio tomar conta do rosto dele.
      -- Isaac -- o Gus disse.
      -- O qu?
      -- Voc parece um pouco... No leve a mal o duplo sentido, amigo,
mas h algo preocupante no seu olhar.
      De repente, o Isaac comeou a chutar enlouquecidamente a poltrona
do videogame, que deu uma cambalhota para trs e foi parar perto da
cama do Gus.
      -- E l vamos ns -- disse o Augustus. O Isaac seguiu a poltrona e
chutou a coitada mais uma vez. -- Isso a -- falou o Augustus. -- Atrs
dela. Chute a poltrona at no poder mais!
      O Isaac chutou a poltrona de novo, at que ela bateu na cama do Gus,
e a ele pegou um dos travesseiros e comeou a bater com ele na parede
entre a cama e a prateleira de trofus. O Augustus olhou para mim, o
cigarro ainda na boca, e deu aquele sorrisinho tpico dele.
     -- Eu no consigo parar de pensar naquele livro.
     -- Nem me fale!
      -- Ele nunca disse o que acontece com os outros personagens?
     -- No -- respondi. O Isaac ainda estava batendo na parede com o
travesseiro. -- Ele se mudou para Amsterd, o que me fez imaginar que
talvez estivesse escrevendo a continuao da histria, com o Homem das
Tulipas Holands como personagem principal, mas ele no publicou nada.
Ele nunca  entrevistado. E no parece estar on-line. J escrevi vrias
cartas perguntando o que acontece com todo mundo, mas ele nunca
responde. Ento...  isso.
     Parei de falar porque o Augustus no parecia mais estar prestando
ateno. Em vez disso, olhava para o Isaac com os olhos semicerrados.
     -- Espere um instante -- ele murmurou para mim, andou at onde o
Isaac estava e o agarrou pelos ombros. -- Cara, travesseiros no quebram.
Tente alguma coisa que quebre.
     O Isaac pegou um trofu de basquete da prateleira acima da cama e o
segurou no alto da cabea, como se esperasse uma permisso. -- Isso --
o Augustus disse.
     -- Isso! -- O trofu se espatifou no cho, o brao de plstico do
jogador de basquete separado do corpo, ainda segurando a bola. O Isaac
comeou a pisotear o trofu. -- Isso! -- disse o Augustus. -- Acabe com
ele! -- E, se virando para mim: -- J faz algum tempo que venho
procurando uma forma de dizer ao meu pai que, na verdade, eu meio que
odeio basquete, e acho que encontrei.
     Os trofus vieram todos abaixo, um a um, e o Isaac pulava neles e
gritava enquanto o Augustus e eu mantnhamos uma certa distncia, as
testemunhas daquela insanidade. Corpos mutilados de jogadores de
basquete de plstico lotaram o cho acarpetado: num canto, uma bola
sendo espalmada por uma mo sem corpo; no outro, duas pernas sem
tronco no meio de um salto. O Isaac continuou atacando os trofus,
pulando neles com os dois ps, gritando, ofegante, suado, at que, por fim,
cansou e caiu em cima dos destroos.
    O Augustus deu um passo na direo dele e olhou para baixo.
    -- Est se sentindo melhor? -- perguntou.
    -- No -- murmurou o Isaac, o peito inflando por causa da respirao
ofegante.
    -- Esse  o problema da dor -- o Augustus disse, e a olhou para
mim.
    -- Ela precisa ser sentida.
    CAPTULO CINCO



Depois disso, fiquei sem falar com o Augustus mais ou menos uma
          semana. Liguei para ele na Noite dos Trofus Destroados e,
          como manda a tradio, agora era a vez dele de me ligar. Mas no
ligou. No que eu estivesse com o celular na mo suada o dia inteiro,
olhando para o aparelho, usando meu Vestido Amarelo Especial,
esperando pacientemente que meu cavalheiro fizesse jus  sua alcunha.
Segui a vida normalmente: encontrei com a Kaitlyn e com seu (bonitinho
mas francamente nada augustiniano) namorado para tomar um caf numa
tarde dessas; tomei a dose diria recomendada de Falanxifor; assisti s
aulas em trs manhs no MCC, e todas as noites sentei  mesa para jantar
com minha me e meu pai.
     Domingo  noite, comemos pizza com pimento verde e brcolis.
Estvamos sentados em volta da nossa pequena mesa redonda na cozinha
quando meu celular comeou a tocar, mas eu no podia nem colocar a
mo nele pois ns seguimos uma regra rgida de nada-de-telefone-na-hora-
do-jantar.
     Ento comi um pouco enquanto mame e papai conversavam sobre
um terremoto que tinha acabado de acontecer em Papua-Nova Guin.
Eles se conheceram no Corpo da Paz em Papua-Nova Guin, por isso,
sempre que alguma coisa acontecia por l, mesmo sendo algo terrvel, era
como se, de repente, eles no fossem mais duas criaturas gordas e
sedentrias, mas sim os jovens, idealistas, independentes e radicais que
foram um dia. O xtase deles era to grande que nem sequer olharam para
mim enquanto eu comia mais rpido que nunca, passando a comida do
prato para a boca com uma velocidade e uma ferocidade que me fizeram
at ficar um pouco sem flego, o que obviamente me deixou com medo de
meus pulmes estarem de novo nadando numa piscina cheia de lquido.
Tentei ao mximo afastar esse pensamento. Eu tinha uma tomografia
agendada para dali a duas semanas. Se algo estivesse errado, eu saberia
logo. No adiantava nada comear a me preocupar naquela hora.
     Mas, mesmo assim, eu me preocupava. Gostava de ser uma pessoa. E
queria continuar sendo. A preocupao tambm  outro efeito colateral de
se estar morrendo.
     Por fim, acabei de comer e disse:
      ,Vocs me do licena?
     Mas eles no fizeram sequer uma pausa na conversa que estavam
tendo sobre o que funcionava e o que no funcionava na infraestrutura
guineana. Peguei o celular na bolsa, que estava na bancada da cozinha, e
conferi as chamadas recentes. Augustus Waters.
     Sa pela porta dos fundos, em meio ao crepsculo. Avistei o balano, e
pensei em andar at l e me balanar enquanto falava com ele, mas a
distncia parecia muito grande levando em conta o fato de que comer j
tinha me deixado cansada.
     Em vez disso, deitei na grama junto  varanda, olhei para rion, a
nica constelao que eu conseguia reconhecer, e liguei para ele.
     -- Hazel Grace -- ele disse.
     -- Oi -- falei. -- Tudo bem?
     -- Maravilha -- respondeu. -- Tenho sentido vontade de ligar para
voc quase de minuto em minuto, mas estava esperando conseguir
elaborar um pensamento coerente em ref. a Uma aflio imperial. (Ele
disse ,em ref.. Sem brincadeira. Aquele cara.)
     -- E? -- perguntei.
     -- Acho que ele , tipo. Ao ler esse livro, eu fico sentindo como se,
se...
     -- Como se? -- questionei, de provocao.
     -- Como se fosse um presente? -- ele completou, num tom
interrogativo. -- Como se voc tivesse me dado uma coisa importante.
     -- Ah -- falei baixinho.
     -- Isso  brega -- ele disse. -- Foi mal.
     -- No -- falei. -- No. No precisa se desculpar. -- Mas o livro
no termina.
      --  -- concordei.
     -- Tortura. Eu entendi totalmente, tipo, entendi que ela morre ou sei
l o qu.
     -- Isso mesmo, foi o que eu deduzi -- falei.
     -- E, tudo bem,  justo, mas existe um contrato silencioso entre autor
e leitor, e acho que o fato de ele no terminar a histria do livro meio que
viola esse contrato.
     -- No sei -- ponderei, me colocando na defensiva por Peter Van
Houten. -- De certa forma, esse  um dos motivos pelos quais eu gosto do
livro. Ele registra a morte com fidelidade. Voc morre no meio da vida, no
meio de uma frase. Mas eu quero, ai, como eu quero saber o que acontece
com os outros. Foi isso o que perguntei a ele nas minhas cartas. Mas, sabe
como , ele nunca respondeu...
     -- T. Voc disse que ele vive recluso?
     -- Exatamente.
     -- Que  impossvel de ser localizado?
     -- Exatamente.
     -- Totalmente inalcanvel -- o Augustus disse.
     -- Infelizmente, sim -- falei.
     -- ,Prezado Sr. Waters -- ele continuou. -- ,Escrevo para agradecer
sua correspondncia eletrnica, recebida por intermdio da Srta.
Vliegenthart neste dia seis de abril, enviada dos Estados Unidos da
Amrica, conquanto se possa dizer que a geografia ainda exista na nossa
contemporaneidade triunfantemente digitalizada.
     -- Augustus, que diabos  isso?
     -- Ele tem uma assistente -- o Augustus disse. -- Lidewij
Vliegenthart. Achei o contato dela. Mandei um e-mail para ela. Ela
repassou a mensagem para ele. Ele respondeu usando a conta dela.
     -- T, t. Continue lendo.
     -- ,Minha resposta est sendo escrita com tinta e papel na tradio
gloriosa de nossos ancestrais e, em seguida, transcrita pela Srta.
Vliegenthart numa srie de 1s e 0s que viajam atravs da rede enfadonha
que vem iludindo nossa espcie nos ltimos tempos, por isso peo perdo
por quaisquer erros ou omisses que disso possam resultar.
     ,Dada a orgia de entretenimento  disposio dos jovens de sua
gerao, fico grato por qualquer um, em qualquer lugar, que destine a
quantidade de horas necessrias para ler meu humilde livro. Mas me sinto
especialmente em dvida com sua pessoa, senhor, tanto por suas gentis
palavras a respeito de Uma aflio imperial quanto por se dar o trabalho de
me dizer que o livro, e aqui o cito ipsis litteris, `significou muito mesmo'
para o senhor.
     ,Esse comentrio, no entanto, leva-me a elucubrar: o que quer dizer
com significou? Dada a frivolidade derradeira de nossa luta pela vida, ter
algum valor a efmera carga de significado que a arte nos empresta? Ou o
nico valor estar em passarmos o tempo o mais confortavelmente
possvel? O que uma histria ficcional deveria pretender emular,
Augustus? O soar de um alarme? Um grito de guerra? Uma injeo de
morfina? Obviamente, como todas as interrogaes do universo, esta linha
de investigao inevitavelmente reduz-nos a perguntar o que significa ser
humano e -- pegando emprestada uma frase dos jovens angustiados de
dezesseis anos que o senhor sem dvida repudia -- se h algum sentido
nisso tudo.
     ,Temo que no haja, caro amigo, e que voc rec eberia alentos
insuficientes em encontros ulteriores com minha composio literria.
Porm, respondendo a sua pergunta: no, no escrevi nada mais, nem
escreverei. No creio que continuar a compartilhar meus pensamentos
com os leitores ir benefici-los, ou a mim. Obrigado, novamente, por seu
generoso e-mail.
     ,Atenciosamente, Peter Van Houten, por intermdio de Lidewij
Vliegenthart.
     -- Uau -- falei. -- Voc est inventando isso?
     -- Hazel Grace, eu seria capaz, com minha capacidade intelectual
limitada, de escrever uma carta fingindo ser o Peter Van Houten, com
frases como ,nossa contemporaneidade triunfantemente digitalizada?
     -- No, no seria -- admiti. -- Voc pode... voc pode me passar o
endereo de e-mail?
    -- Claro -- o Augustus respondeu, como se no fosse o melhor
presente do mundo.

                                     ***

Passei as duas horas que se seguiram escrevendo um e-mail para o Peter
Van Houten. Parecia piorar a cada vez que eu reescrevia, mas eu no
conseguia parar.

    Prezado Sr. Peter Van Houten
    (a/c Lidewij Vliegenthart),

    Meu nome  Hazel Grace Lancaster. Meu amigo, Augustus Waters,
que leu Uma aflio imperial seguindo minha recomendao, acabou de
receber um e-mail do senhor desse endereo. Espero que no se importe
pelo fato de o Augustus ter compartilhado o e-mail comigo.
    Sr. Van Houten, eu entendo, pelo contedo da sua mensagem para o
Augustus, que o senhor no planeja publicar outros livros. De certa forma,
estou desapontada, mas tambm aliviada: no vou precisar mais temer que
seu prximo livro no fique  altura da magnfica perfeio do primeiro.
Como sobrevivente, h trs anos, de um cncer em estgio IV, posso dizer
que o senhor acertou todas as medidas no Uma aflio imperial. Ou pelo
menos o senhor acertou todas as minhas medidas. Seu livro tem um jeito
de me dizer o que estou sentindo antes mesmo de eu sentir, e j o li vrias
vezes.
    No entanto, gostaria de saber se o senhor se importaria em responder
a algumas perguntas sobre o que acontece aps o trmino do livro.
Entendo que acaba porque a Anna morre ou fica to doente que no
consegue mais escrever, s que eu gostaria muito mesmo de saber o que
acontece com a me da Anna -- se ela se casa com o Homem das Tulipas
Holands, se chega a ter outro filho, se continua no endereo 917 W.
Temple etc. Alm disso, o Homem das Tulipas Holands  um vigarista ou
ele as ama de verdade? O que acontece com os amigos da Anna -- em
especial a Claire e o Jake? Eles ficam juntos? E, para concluir -- imagino
que este seja o tipo de pergunta profunda e significativa que o senhor
sempre esperou que seus leitores fizessem --, o que acontece com Ssifo,
o hamster? Essas questes vm me atormentando h anos -- e no sei
quanto tempo vou poder esperar pelas respostas.
     Sei que no so perguntas literariamente importantes e que o livro 
cheio de perguntas literariamente importantes, mas gostaria muito mesmo
de saber.
     E,  claro, se o senhor algum dia resolver escrever qualquer outra
coisa, mesmo que no queira publicar, eu adoraria ler. Para ser sincera, eu
leria at a sua lista de compras de supermercado.

    Atenciosamente e com grande admirao,
    Hazel Grace Lancaster (16 anos)

     Assim que enviei a mensagem, liguei para o Augustus e ns ficamos
acordados at tarde falando do Uma aflio imperial, e li para ele o poema
da Emily Dickinson de onde o Van Houten tirou um dos versos que usou
como ttulo, e ele disse que eu era tima recitando poemas e que no fazia
pausas muito longas nas quebras dos versos, e a ele me disse que o sexto
livro da srie ,O preo do alvorecer -- O sangue aprova --, comea com a
citao de uma parte de um poema. Ele demorou um pouco para achar o
livro, mas por fim leu o trecho para mim: ,Dizer que sua vida acabou. O
ltimo beijo bem dado / Voc deu e est distante no passado.
     -- Nada mal -- falei. -- Mas pretensioso. Acho que o Max Mayhem
chamaria isso de ,coisa de maricas.
     -- , e sem dvida diria isso com os dentes cerrados. Caramba, como
o Mayhem cerra os dentes nesses livros. Com certeza vai acabar tendo
distrbio de ATM se sobreviver a todos os combates. -- E, ento, depois
de alguns segundos, o Gus perguntou: -- Quando foi seu ltimo beijo bem
dado?
     Parei para pensar. Meus beijos -- todos pr-diagnstico -- tinham
sido meio sem jeito e muito babados, e, em algum nvel, sempre tive a
sensao de que ramos crianas brincando de ser adultos. Mas,
obviamente, isso foi h muito tempo.
    -- H muitos anos -- respondi, por fim. -- E voc?
    -- Eu dei alguns beijos bem dados na minha ex-namorada, Caroline
Mathers.
    -- H muitos anos?
    -- O ltimo foi h menos de um ano.
    -- O que aconteceu?
    -- Durante o beijo?
     -- No, com voc e a Caroline.
    -- Ah -- ele disse. E ento, depois de alguns segundos: -- A Caroline
no sofre mais de ,pessoalidade.
    -- Ah -- falei.
    --  -- ele disse.
     -- Sinto muito -- completei.
    Eu conheci vrias pessoas que morreram, lgico. Mas nunca namorei
uma. No conseguia nem imaginar isso, srio.
    -- No  culpa sua, Hazel Grace. Somos todos apenas efeitos
colaterais, certo?
    -- Cracas no navio cargueiro da conscincia -- falei, citando o UAI.
    -- O.k. -- ele disse. -- Preciso ir dormir. J  quase uma hora.
    -- O.k. -- falei.
    -- O.k. -- ele disse.
    Eu ri e repeti:
    -- O.k.
    A a linha ficou silenciosa, mas no completamente muda. Era quase
como se ele estivesse ali no meu quarto comigo, mas de um jeito ainda
melhor -- como se eu no estivesse no meu quarto e ele, no no dele,
mas, em vez disso, estivssemos juntos numa invisvel e tnue terceira
dimenso at onde s podamos ir pelo telefone.
    -- O.k. -- ele disse, depois do que pareceu ser uma eternidade. --
Talvez o.k. venha a ser o nosso sempre.
    -- O.k. -- falei.
    E foi o Augustus quem desligou.

                                      ***

Peter Van Houten respondeu ao e-mail do Augustus quatro horas depois,
mas j se tinham passado dois dias e ele ainda no havia respondido ao
meu. O Augustus me garantiu que era porque minha mensagem era
melhor e exigia uma resposta mais elaborada, que o Van Houten estava
ocupado redigindo as respostas s minhas perguntas e que uma prosa
genial demorava para ser escrita. Mas, ainda sim, fiquei tensa.
    Na quarta-feira, durante a aula de Poesia Norte-americana para
Leigos 101, recebi uma mensagem de texto do Augustus:

   O Isaac saiu da cirurgia. Correu tudo bem. Ele est oficialmente
SEC.

    SEC queria dizer ,sem evidncia de cncer.

    Uma segunda mensagem de texto chegou alguns segundos depois.

    Quer dizer, ele est cego. Ento  ruim.

    Naquela tarde, mame concordou em me emprestar o carro para que
eu pudesse ir at o Memorial visitar o Isaac.
    Fui at o quarto dele no quinto andar, bati  porta mesmo estando
aberta e uma voz de mulher disse:
    -- Entre.
    Era uma enfermeira que estava fazendo alguma coisa com as ataduras
nos olhos dele.
    -- Oi, Isaac -- falei.
    -- Monica? -- ele perguntou.
    -- Ah, no. Foi mal. No.  a Hazel. A Hazel do Grupo de Apoio? A
Hazel da noite-dos-trofus-destroados?
     -- Ah -- ele disse. -- Pois . As pessoas ficam me dizendo que os
outros sentidos vo ficar mais aguados para compensar, mas ISSO
OBVIAMENTE AINDA NO ACONTECEU. Oi, Hazel do Grupo de
Apoio. Chegue mais perto para que eu possa examinar seu rosto com as
mos e enxergar sua alma com mais profundidade do que qualquer outro
ser que tenha o dom da viso.
     -- Ele est brincando -- disse a enfermeira.
     --  -- falei. -- Deu para perceber.
     Dei alguns passos na direo do leito. Puxei uma cadeira e me sentei,
pegando na mo dele.
     -- E a? -- falei.
     -- E a? -- ele disse.
     E a ficamos em silncio um tempo.
     -- Como voc est se sentindo? -- perguntei.
     -- Bem -- ele disse. -- No sei.
     -- O que voc no sabe?
     Olhei para a mo dele porque no queria encarar o rosto vendado
pelas ataduras. O Isaac roa as unhas, e pude ver que havia sangue nos
cantos de alguns dedos.
     -- Ela nem me visitou -- ele comentou. -- Tipo, ns ficamos juntos
um ano e dois meses. Um ano e dois meses  muito tempo. Cara, isso di.
     O Isaac soltou minha mo para tatear  procura da bombinha que
voc pressiona para receber uma dose de analgsicos.
     A enfermeira, ao terminar de trocar a atadura, deu um passo atrs.
     -- S faz um dia, Isaac -- ela disse, o tom de voz meio
condescendente. -- Voc precisa de um tempo para se recuperar. E um
ano e dois meses no  tanto tempo assim, no num contexto maior. Voc
est s comeando a vida, rapaz. Voc vai ver.
     A enfermeira foi embora.
     -- Ela j saiu?
     Eu fiz que sim com a cabea, mas me dei conta de que ele no pde
ver meu gesto.
     -- Saiu -- falei.
      -- Eu vou ver? Srio? Ela disse isso de verdade?
     -- Qualidades de uma Boa Enfermeira: Liste -- pedi.
     -- Primeira: no fazer trocadilhos com a deficincia alheia -- o Isaac
comeou.
      -- Segunda: tirar o sangue na primeira tentativa -- continuei.
     -- Na moral, essa  megaimportante. Tipo, esse  meu brao ou o alvo
de um jogo de dardos? Terceira: no falar de um jeito condescendente.
     -- Como est passando, querido? -- perguntei, fazendo cara de nojo.
-- Vou enfiar uma agulha em voc agora. Pode ser que doa um
pouquinho.
      -- O queridinho da titia est dodoizinho? -- ele continuou. E, ento,
aps alguns segundos:
     -- A maioria delas  legal, na verdade. Mas s o que eu quero  sumir
daqui.
      -- Daqui, tipo, do hospital?
     -- Daqui tambm -- ele disse. E comprimiu os lbios. A dor era
visvel. -- Posso ser honesto? Eu penso muito mais na Monica que no
meu olho. Isso  loucura?  loucura.
     --  um pouquinho -- concordei.
     -- Mas eu acredito em amor verdadeiro, sabe? No acho que todo
mundo possa continuar tendo dois olhos nem que possa evitar ficar
doente, e tal, mas todo mundo deveria ter um amor verdadeiro, que
deveria durar pelo menos at o fim da vida da pessoa.
     --  -- falei. -- s vezes eu queria que nada disso tivesse
acontecido. Nada de cncer. A fala dele foi ficando mais lenta. O
analgsico estava fazendo efeito.
     -- Sinto muito -- falei.
     -- O Gus veio aqui mais cedo. Ele estava aqui quando eu acordei.
Matou aula. Ele... -- A cabea tombou um tiquinho para o lado. --
Melhorou -- falou baixinho.
     -- A dor? -- perguntei.
     Ele fez que sim com a cabea, bem de leve.
     -- Que bom -- falei. E a, como a egosta que sou: -- Voc estava
dizendo alguma coisa sobre o Gus?
     Mas o Isaac j estava fora do ar.
     Desci at a lojinha sem janelas do hospital e perguntei  voluntria
idosa sentada num banco atrs da caixa registradora qual flor tinha o
aroma mais marcante.
     -- Todas tm o mesmo cheiro. Elas recebem um jato de essncia
aromatizante -- ela respondeu.
     -- Srio?
     -- . Eles borrifam isso nas flores.
     Abri a porta de vidro do refrigerador de flores  esquerda dela, cheirei
algumas rosas e depois me inclinei sobre alguns cravos. Mesmo cheiro. E
megaforte. Os cravos eram mais baratos, ento peguei uma dzia dos
amarelos. Custaram quatorze dlares. Voltei para o quarto; a me do Isaac
estava l, segurando a mo dele. Ela era jovem e muito bonita.
     -- Voc  amiga do Isaac? -- perguntou, o que soou para mim como
uma daquelas perguntas involuntariamente genricas e irrespondveis.
     -- Humm... ... Sou do Grupo de Apoio. As flores so para ele.
     Ela as apanhou e ps no colo.
     -- Voc conhece a Monica? -- perguntou.
     Fiz que no com a cabea.
     -- Bem, ele est dormindo -- ela disse.
     -- . Eu falei com ele alguns minutos atrs, quando estavam trocando
as ataduras, e tal.
     -- Fiquei chateada por ter de deix-lo nesse momento, mas precisei
buscar o Graham na escola -- ela disse.
     -- Correu tudo bem -- falei. Ela balanou a cabea afirmativamente.
     -- Eu deveria deix-lo dormir em paz.
     Ela balanou de novo a cabea. Eu sa.

                                      ***

Na manh seguinte, acordei cedo e fui logo verificar meus e-mails.
   lidewij.vliegenthart@gmail.com tinha finalmente respondido.
    Cara Srta. Lancaster,

     Temo que sua f tenha sido depositada no lugar errado -- mas, para
falar a verdade,  isso o que geralmente acontece com a f. No posso
responder s suas perguntas, pelo menos no por escrito, porque redigir
tais respostas constituiria uma continuao de Uma aflio imperial, que a
senhorita poderia acabar publicando ou compartilhando na rede global que
substituiu os crebros de sua gerao. Poderamos utilizar o telefone, mas,
nesse caso, a senhorita poderia acabar gravando a conversa. No que eu
no confie em voc,  claro, mas no confio em voc. Ai de mim, cara
Hazel, eu jamais poderia responder a tais perguntas exceto pessoalmente,
e voc est a, ao passo que eu estou aqui.
     Dito isso, devo confessar que o recebimento inesperado de sua
correspondncia por intermdio da Srta. Vliegenthart me alegrou: que
maravilha saber que criei algo que lhe foi til -- embora esse livro parea
estar to distante de mim que sinto como se tivesse sido escrito por um
homem totalmente diferente.
     (O autor daquele livro era, comparativamente falando, to sensvel,
to frgil, to otimista!)
     Entretanto, se algum dia por acaso se encontrar em Amsterd, faa-
me uma visita em seu tempo livre. Em geral, estou em casa. Eu at
permitiria que voc espiasse minha lista de compras.

    Atenciosamente,
    Peter Van Houten a/c Lidewij Vliegenthart

     -- O QU?! -- gritei bem alto. -- QUE RAIO DE VIDA  ESSA?
     Mame veio correndo.
     -- O que aconteceu?
     -- Nada -- garanti a ela.
     Ainda nervosa, mame se ajoelhou para verificar o Felipe e se
certificar de que estava condensando o oxignio direito. Eu me imaginei
sentada num caf ao ar livre num dia de sol com Peter Van Houten, ele
com os cotovelos apoiados na mesa, falando baixinho para que ningum
mais ouvisse o depoimento do que aconteceu com os outros personagens.
Passei vrios anos pensando naquilo. Ele disse que no poderia me contar
exceto pessoalmente, e a me convidou para ir a Amsterd. Expliquei tudo
para minha me e conclu com:
     -- Preciso ir.
     -- Hazel, eu te amo, e voc sabe que eu realizaria todos os seus
desejos, mas ns no temos... no temos dinheiro para uma viagem
internacional, e a despesa que teramos com o aluguel de equipamentos
por l... meu amor, isso no ...
     --  -- falei, interrompendo a frase dela. Percebi o quo absurdo
tinha sido eu sequer considerar aquela possibilidade. -- No se preocupe.
-- Mas ela parecia preocupada. --  to importante assim para voc? --
mame perguntou e se sentou, a mo na minha batata da perna.
     -- Seria simplesmente fantstico se eu fosse a nica pessoa, alm
dele, a saber o que acontece -- admiti. -- Seria fantstico mesmo -- ela
comentou. -- Vou falar com seu pai.
     -- No. No fale -- eu disse. -- Srio, por favor, no gaste dinheiro
com isso. Vou pensar em alguma coisa.
     Passou pela minha cabea o fato de eu ser o motivo pelo qual meus
pais estavam sempre sem dinheiro. Eu havia esgotado as economias da
famlia com as doses de Falanxifor, e mame no podia trabalhar porque
tinha assumido o cargo de Pairar Sobre Mim em expediente integral. Eu
no queria deixar os dois mais endividados ainda.
     Disse  mame que eu queria ligar para o Augustus s para que ela
sasse do quarto, porque eu no conseguia suportar aquela cara triste do
tipo no-consigo-realizar-os-sonhos-da-minha-filha.
     -- Ai, meu Deus! -- o Augustus disse. -- No acredito que eu esteja
a fim de uma garota com desejos to clichs.
     -- Eu tinha treze anos -- repeti, embora,  claro, s conseguisse
pensar no a fim, a fim, a fim, a fim, a fim. Eu estava lisonjeada mas mudei
imediatamente de assunto. -- Voc no deveria estar na escola ou coisa
assim?
     -- Matei aula para fazer companhia ao Isaac, mas ele est dormindo,
por isso fiquei aqui no saguo estudando geometria.
      -- E como andam as coisas por a? -- perguntei.
     -- No d para saber ao certo se o Isaac simplesmente no est
pronto para enfrentar a gravidade da deficincia dele ou se est mesmo se
importando mais com o fato de ter levado um fora da Monica, mas ele no
fala de outra coisa.
      --  -- eu disse. -- Ele vai ficar no hospital por quanto tempo?
     -- Alguns dias. Depois disso vai para uma clnica de reabilitao ou
coisa do gnero por um tempo, mas tem permisso para dormir em casa.
     -- Que droga isso -- eu disse.
     -- A me dele est vindo. Tenho que ir.
     -- O.k.
     -- O.k. -- ele respondeu, e pude ouvir o sorriso torto em sua voz.

                                     ***

No sbado, meus pais e eu fomos  feira em Broad Ripple. O dia estava
ensolarado, o que  raro em Indiana no ms de abril, e todo mundo l na
feira estava de manga curta, ainda que a temperatura no justificasse isso.
Ns, habitantes de Indiana -- os famosos hoosiers --, somos
excessivamente otimistas com relao ao vero. Mame e eu nos sentamos
num banco de frente para um fabricante de sabonete de leite de cabra --
um homem de macaco que tinha de explicar a cada uma das pessoas que
passava por ali que, sim, as cabras eram dele e, no, sabonete de leite de
cabra no cheira a cabra.
     Meu celular tocou.
     -- Quem ? -- Mame perguntou antes mesmo que eu olhasse para o
aparelho.
     -- No sei -- respondi, mas era o Gus.
     -- Voc est em casa? -- ele perguntou.
     -- Ah, no -- eu disse.
     -- Essa era uma pergunta retrica. Eu j sabia a resposta porque estou
na sua casa.
    -- Ah. Humm. Bem, ns estamos a caminho, acho.
    -- Beleza. Vejo voc daqui a pouco.

                                     ***

Vimos o Augustus Waters sentado na escada quando embicamos na
entrada de carros. Ele segurava um buqu de tulipas cor de laranja prestes
a desabrochar e estava usando uma camiseta do Indiana Pacers por baixo
do casaco, uma escolha de indumentria que parecia totalmente
despropositada, mas at que caa bem nele. Ele fez fora para se levantar,
me entregou as tulipas e perguntou:
     -- Vamos sair para um piquenique?
     Eu fiz que sim com a cabea, pegando as flores. Meu pai veio por trs
de mim e cumprimentou o Gus com um aperto de mo.
     -- Essa  a camiseta do Rik Smits? -- perguntou.
     -- Essa mesma.
     -- Nossa, eu adorava esse cara -- papai disse, e os dois engrenaram
imediatamente uma conversa sobre basquete da qual eu no tinha
condies de (e nem queria) participar, ento levei minhas tulipas para
dentro de casa.
     -- Voc quer que eu as coloque num vaso? -- mame perguntou
assim que entrei, sorrindo de orelha a orelha.
     -- No, obrigada -- respondi.
     Se colocssemos as tulipas num vaso na sala de estar, elas seriam de
todos. E eu queria que fossem s minhas.
     Fui para o meu quarto mas no troquei de roupa. Penteei o cabelo,
escovei os dentes, coloquei brilho labial e a menor quantidade de perfume
possvel, o tempo todo espiando as flores. Elas eram excessivamente
laranja, corriam at o risco de serem consideradas feias de to laranja que
eram. Eu no tinha um vaso nem nada parecido, ento tirei a escova de
dente de dentro do porta-escova de dente e o enchi at a metade com
gua, deixando as flores l no banheiro.
    Quando voltei para o quarto ouvi vozes, ento me sentei na beira da
cama por alguns instantes e fiquei escutando a conversa pela porta
entreaberta.
    Papai: ,Ento voc conheceu a Hazel no Grupo de Apoio.
    Augustus: ,Foi, sim, senhor. Sua casa  adorvel. Gostei muito das
pinturas nas paredes.
    Mame: ,Obrigada, Augustus.
    Papai: ,Ento, voc tambm  um sobrevivente?
    Augustus: ,Sou. No cortei fora essa camarada aqui pelo simples
prazer de fazer isso, embora seja uma estratgia de perda de peso
excelente. Pernas pesam!
    Papai: ,E como anda a sade?
    Augustus: ,SEC. H um ano e dois meses.
    Mame: ,Isso  maravilhoso. As opes de tratamento disponveis
hoje...  realmente impressionante.
    Augustus: ,Eu sei. Tenho sorte.
    Papai: ,Voc precisa entender que a Hazel ainda est doente,
Augustus, e que ficar assim para o resto da vida. Ela vai querer
acompanhar seu ritmo, mas os pulmes...
    Foi quando apareci, e ele parou de falar.
     -- Ento, aonde  que vocs vo? -- mame perguntou.
    O Augustus ficou em p e aproximou a boca do ouvido dela,
sussurrando a resposta, e depois encostou o indicador nos lbios.
    -- Shh... -- ele disse. --  segredo.
    Mame sorriu.
    -- Voc est levando o celular? -- ela me perguntou.
    Mostrei o aparelho para provar que estava, apoiei o carrinho do
oxignio nas rodinhas da frente e comecei a andar. O Augustus se
apressou para me alcanar e me ofereceu o brao, que aceitei. Segurei no
bceps dele. Infelizmente ele insistiu em dirigir, para que a surpresa
pudesse continuar sendo surpresa. Enquanto pulvamos aos trancos em
direo ao nosso destino, falei:
     -- Minha me ficou totalmente encantada com voc.
     -- , e seu pai  f do Smits, o que ajuda muito. Voc acha que eles
gostaram de mim?
     -- Com toda certeza. Mas, quem se importa? Eles so s pais.
     -- Eles so seus pais -- o Augustus falou, olhando de relance para
mim. -- Alm disso, eu gosto de ser gostado. Isso  loucura?
     -- Bem, voc no precisa sair correndo para abrir a porta para mim ou
me encher de elogios para que eu goste de voc.
     Ele pisou bruscamente no freio e eu voei para a frente com tanta
violncia que meu flego ficou esquisito, quase o perdi. Pensei na
tomografia. No se preocupe. No adianta se preocupar. Mas me
preocupei mesmo assim. Fritamos o pneu dando uma arrancada quando o
sinal abriu e viramos  esquerda na erroneamente designada Avenida Bela
Vista (ela d vista para um campo de golfe, mas no  nada bela). O nico
lugar que vinha  minha cabea naquela direo era o cemitrio. O
Augustus enfiou a mo no console, abriu um mao cheio de cigarros e
tirou um.
     -- Voc nunca joga os cigarros fora? -- perguntei.
     -- Um dos benefcios de no fumar  que os maos duram para
sempre -- ele respondeu. -- J tenho esse aqui h quase um ano. Alguns
cigarros esto rachados perto do filtro, mas acho que esse mao consegue
chegar at meu aniversrio de dezoito anos. -- Ele segurou o filtro entre os
dedos e o colocou na boca.
     -- Ento t -- falou.
     -- T. Liste as coisas que voc nunca v em Indianpolis.
     -- Humm. Adultos magros -- falei.
     Ele riu.
     -- Boa. Continue.
     -- Humm. Praias. Restaurantes que passam de pai para filho. Relevo.
     -- Todos excelentes exemplos de coisas que faltam por aqui. E,
tambm, programas culturais.
     -- Ah, . Ns ficamos um pouco a desejar no quesito programas
culturais -- falei, deduzindo, enfim, aonde ele estaria me levando. --
Estamos indo ao museu?
    -- De certa forma.
    -- Ah, ns vamos quele parque, e tal?
    O Gus pareceu esvaziar.
    -- . Ns vamos quele parque, e tal -- falou. -- Voc j descobriu,
no descobriu?
    -- Humm. Descobri o qu?
    -- Nada.

                                    ***

Havia um parque atrs do museu onde vrios artistas fizeram grandes
esculturas. J tinha ouvido falar dessa instalao, mas nunca a visitara.
Passamos de carro pela porta do museu e estacionamos perto de uma
quadra de basquete repleta de arcos de ao enormes, azuis e vermelhos,
que simulavam a trajetria de uma bola quicando. Andamos por um
caminho que, para os padres de Indianpolis,  considerado uma ladeira,
at chegar a uma clareira onde crianas escalavam a escultura de um
esqueleto de propores gigantescas. Os ossos iam mais ou menos at a
altura da cintura e o fmur era mais comprido que eu. Parecia o desenho,
feito por uma criana, de um esqueleto brotando do cho.
     Meu ombro doa. Fiquei com medo de o cncer ter se espalhado para
alm dos pulmes. Imaginei meu tumor metastatizando para os ossos,
abrindo buracos no meu esqueleto, uma enguia rastejante com intenes
perversas.
     -- ,Ossos Maneiros -- o Augustus disse. -- Criado por Joep Van
Lieshout.
     -- Parece holands.
     -- E  -- o Gus falou. -- Assim como o Rik Smits. E as tulipas.
     O Gus parou no meio da clareira com os ossos bem na nossa frente e
tirou a ala da mochila de um dos ombros, e depois do outro. Abriu o
fecho e tirou de l uma toalha cor de laranja, uma garrafa de suco de
laranja e alguns sanduches de po de forma sem casca embalados em
plstico filme.
    -- Qual  a desse laranja todo? -- perguntei, ainda no querendo me
permitir imaginar que tudo aquilo levaria a Amsterd.
    --  a cor nacional da Holanda, obviamente. Voc se lembra de
Guilherme I, o Prncipe de Orange, e tal?
    -- Ele no caiu no teste que fiz para conseguir o diploma do ensino
mdio. -- Sorri, tentando conter minha empolgao.
    -- Vai um sanduche? -- ele perguntou.
    -- Deixe eu adivinhar... -- falei.
    -- Queijo holands. E tomate. Os tomates vieram do Mxico. Foi mal.
    -- Voc  sempre to decepcionante, Augustus. No podia pelo
menos ter comprado tomates cor de laranja?
     Ele riu, e ns comemos os sanduches em silncio, vendo as crianas
brincando na escultura. Eu no podia simplesmente perguntar nada a
respeito daquilo, por isso s continuei sentada ali, rodeada de
holandesidades, meio constrangida, meio esperanosa.
    A distncia, banhado pela luz solar imaculada, to rara e preciosa em
nossa cidade natal, um bando de crianas barulhentas fazia um esqueleto
de playground, pulando para a frente e para trs entre os ossos protticos.
    -- Tem duas coisas que eu adoro nessa escultura -- o Augustus disse.
Ele segurava o cigarro apagado entre os dedos, dando batidinhas nele
como se descartasse as cinzas. E o colocou de novo na boca. -- Em
primeiro lugar, a distncia entre os ossos  tal que, se voc  criana, no
consegue resistir  tentao de pular entre eles. Tipo, voc simplesmente
tem que pular da caixa torcica at o crnio. O que significa que, em
segundo lugar, essa escultura essencialmente fora as crianas a brincar
nos ossos. As ressonncias simblicas so infinitas, Hazel Grace.
    -- Voc gosta mesmo de smbolos -- falei, na esperana de conduzir a
conversa de volta na direo dos muitos smbolos da Holanda presentes
em nosso piquenique.
    -- Certo. Por falar nisso, voc deve estar se perguntando por que est
comendo um sanduche de queijo ruim e bebendo suco de laranja, e por
que eu estou usando a camiseta de um holands que praticava um esporte
que eu aprendi a odiar.
      -- , isso passou pela minha cabea -- falei.
      -- Hazel Grace, como vrias crianas j fizeram, e digo isso com todo
respeito, voc gastou seu Desejo precipitadamente, sem se preocupar
muito com as consequncias. O ceifador a encarava e o medo de morrer
ainda carregando o Desejo no concedido em seu bolso proverbial fez com
que corresse atrs do primeiro Desejo em que conseguiu pensar, e voc,
como tantos outros, escolheu os prazeres inexpressivos e artificiais do
parque temtico.
      -- Na verdade, eu me diverti muito naquela viagem. Eu conheci o
Pateta e a Minn...
      -- Estou no meio de um monlogo! Eu escrevi isso e decorei, e se
voc me interromper vou errar tudo -- o Augustus me cortou. -- Por
favor, continue comendo o sanduche e prestando ateno. -- (O
sanduche estava to seco que no dava nem para morder, mas eu sorri e
tirei um pedao mesmo assim.) -- Certo. Onde eu estava?
      -- Nos prazeres artificiais.
      Ele guardou o cigarro no mao.
      -- Certo. Os prazeres inexpressivos e artificiais do parque temtico.
Mas deixe-me ressaltar que os verdadeiros heris da Fbrica de Desejos
so os jovens homens e mulheres que esperam, como Vladimir e Estragon
esperam Godot, e como boas moas crists esperam o casamento. Esses
jovens heris esperam estoicamente, e sem reclamar, at que seu nico e
verdadeiro Desejo venha at eles.  certo que talvez o Desejo nunca
chegue, mas pelo menos esses jovens podem descansar em paz em seu
tmulo sabendo que fizeram sua parte na preservao da integridade do
Desejo como um ideal. Porm, pensando bem, talvez seu Desejo v se
revelar, no fim das contas: talvez voc perceba que seu nico e verdadeiro
Desejo  visitar o genial Peter Van Houten em seu exlio amsterdams, e
voc ficar feliz, de fato, por ter poupado seu Desejo.
      O Augustus fez uma pausa longa no discurso, o suficiente para que eu
percebesse que o monlogo tinha chegado ao fim.
      -- Mas eu no poupei o meu Desejo -- falei.
      -- Ah -- ele disse. E, ento, aps o que pareceu ser uma pausa
calculada, acrescentou: -- Mas eu poupei o meu.
     -- Srio?
     Fiquei surpresa com o fato de o Augustus ser elegvel para um Desejo,
afinal de contas ele ainda estava estudando e a remisso do cncer dele j
durava mais de um ano. Era preciso estar muito doente para que os Gnios
lhe concedessem algo.
     -- Ganhei o meu em troca da perna -- ele explicou. Um facho de luz
batia no rosto do Gus, de uma forma que o fazia apertar os olhos para me
olhar, o nariz enrugando de um jeito adorvel. -- Bem, eu no vou dar
meu Desejo para voc nem nada. Mas tambm tenho interesse em
conhecer o Peter Van Houten, e no faria sentido conhecer o homem sem
a menina que me apresentou ao livro dele.
     -- Definitivamente no faria sentido -- falei.
     -- Por isso conversei com os Gnios e eles concordaram em gnero,
nmero e grau. Disseram que Amsterd fica linda no incio de maio. E
sugeriram que viajssemos no dia trs e voltssemos no dia sete.
     -- Augustus, isso  srio?
     Ele estendeu o brao, tocou minha bochecha e, por um instante,
pensei que iria me beijar. Meu corpo todo ficou tenso, e acho que ele
percebeu, porque afastou a mo.
     -- Augustus -- falei. -- Srio. Voc no precisa fazer isso.
     -- Claro que preciso -- ele disse. -- Eu encontrei o meu Desejo.
     -- Cara, voc  demais -- falei para ele.
     -- Aposto que diz isso para todos os garotos que bancam viagens
internacionais para voc -- ele retrucou.
CAPTULO SEIS




Q        uando cheguei  minha casa, mame estava dobrando minhas
         roupas lavadas enquanto assistia a um programa de TV chamado
         The View. Contei para ela que as tulipas, o artista holands e
todo o resto eram porque o Augustus estava usando o Desejo dele para me
levar a Amsterd.
     -- Isso  um exagero -- ela disse, balanando a cabea
negativamente. -- No podemos aceitar algo assim de um garoto
praticamente desconhecido.
     -- Ele no  desconhecido. Ele , tranquilamente, meu segundo
melhor amigo.
     -- Depois da Kaitlyn?
     -- Depois de voc -- eu disse.
     Era verdade, mas falei aquilo mais porque queria ir a Amsterd.
     -- Vou consultar a mdica -- ela disse, depois de alguns instantes.

                                   ***

A Dra. Maria disse que eu no poderia ir a Amsterd sem a companhia de
um adulto que estivesse familiarizado com o meu caso, o que mais ou
menos queria dizer ou a minha mame ou a prpria mdica. (Meu pai
entendia o funcionamento do meu cncer da mesma forma que eu: do
jeito vago e superficial que as pessoas entendem como funcionam os
circuitos eltricos e as mars. Mas minha me sabia mais a respeito do
carcinoma diferenciado de tireoide em adolescentes que muitos
oncologistas.)
     -- Ento voc vai comigo -- falei. -- Os Gnios vo bancar tudo. Os
Gnios so cheios da grana.
     -- Mas seu pai... -- ela disse. -- Ele sentiria nossa falta. No seria
justo com ele. Seu pai no pode se ausentar do trabalho.
     -- T brincando? Voc no acha que o papai iria adorar passar alguns
dias vendo programas de TV que no envolvessem aspirantes a modelos,
pedindo pizza todas as noites e usando toalhas de papel como prato para
no precisar lavar a loua?
     Mame riu. At que enfim ela comeou a se animar, e digitou tarefas
no celular: precisaria ligar para os pais do Gus e falar com os Gnios sobre
minhas necessidades mdicas, e eles j reservaram o hotel?, e quais so os
melhores guias tursticos sobre Amsterd?, e ns deveramos fazer uma
pesquisa se s vamos passar trs dias l, e da por diante. Eu estava com
um pouco de dor de cabea, ento engoli duas cpsulas de Advil e resolvi
tirar um cochilo.
     Mas acabei ficando s deitada na cama, repassando na mente o filme
completo do piquenique com o Augustus. No conseguia parar de pensar
naquele breve momento em que fiquei completamente tensa, quando ele
me tocou. Por algum motivo, aquele gesto suave e ntimo me pareceu
errado. Achei que talvez tivesse sido pelo jeito orquestrado como as coisas
aconteceram: o Augustus foi incrvel, mas tinha exagerado em tudo no
piquenique, culminando nos sanduches metaforicamente ressonantes,
mas horrorosos, e no monlogo memorizado que impedia um dilogo. O
clima era todo Romntico, mas no romntico.
     Mas a verdade  que eu nunca quis que ele me beijasse, no do jeito
que se espera que uma pessoa deseje essas coisas. Quer dizer, ele era
lindo. Eu me sentia atrada por ele. Pensava nele daquele jeito, pegando
emprestada uma expresso do vocabulrio pr-adolescente. Mas o toque
de verdade, o toque realizado... parecia que estava tudo errado.
     A comecei a ter medo de ter que ficar com ele para ir a Amsterd, o
que no  o tipo de coisa que voc quer ficar pensando, porque: (a) o fato
de eu querer beijar o Gus no deveria estar nem em questo, e (b) beijar
algum para conseguir uma viagem de graa  algo perigosamente prximo
da prostituio total e irrestrita, e devo confessar que, embora eu no me
considerasse uma pessoa particularmente angelical, nunca pensei que meu
primeiro ato sexual seria prostitucional.
     Mas, no fim das contas, ele no tinha tentado me beijar; ele s
encostou no meu rosto, o que no  nem nada sexual. No foi um gesto
programado para provocar excitao, mas com certeza foi um movimento
calculado, porque o Augustus Waters no era de improvisar. Ento qual
era exatamente a inteno dele? E por que eu resisti? Em algum
momento, percebi que estava Kaitlynizando o encontro, ento resolvi
mandar uma mensagem de texto para a Kaitlyn e pedir um conselho. Ela
me ligou imediatamente.
     -- Estou com um problema com um garoto -- falei.
     -- DELCIA -- Kaitlyn exclamou.
     Contei tudo a ela, incluindo os detalhes do momento constrangedor
no qual ele tocou meu rosto, deixando de fora apenas Amsterd e o nome
do Augustus.
     -- Tem certeza de que ele  um gato? -- ela perguntou quando
terminei.
     -- Absoluta -- respondi.
     -- Do tipo atltico?
     -- . Ele jogava basquete na North Central.
     -- Uau. Como voc conheceu ele?
     -- Naquele Grupo de Apoio medonho.
     -- Ahn -- Kaitlyn falou. -- S por curiosidade, quantas pernas esse
cara tem?
     -- Tipo, uma inteira e um pedacinho da outra -- respondi, sorrindo.
     Os jogadores de basquete eram famosos em Indiana, e ainda que a
Kaitlyn no frequentasse a North Central, sua capacidade de estabelecer
conexes sociais era infinita.
     -- Augustus Waters -- ela disse.
     -- Talvez?
     -- Ai, meu Deus. J vi o Augustus em festas. As coisas que eu faria
com aquele cara. Quer dizer, no agora que sei que est interessada nele.
Mas, meu Deus do cu, eu montaria naquele pnei perneta e daria uma
volta inteira no curral.
     -- Kaitlyn -- falei.
     -- Foi mal. Voc acha que precisaria ficar por cima?
     -- Kaitlyn -- repeti.
     -- Sobre o que estvamos falando mesmo? Certo, voc e o Augustus
Waters. Quem sabe... voc  gay?
     -- Acho que no. Quer dizer, eu gosto dele.
     -- Ele tem mos feias? s vezes, pessoas bonitas tm mos feias.
     -- No. As mos dele so, tipo, incrveis.
     -- Humm -- ela disse.
     -- Humm -- falei.
     Depois de um segundo, Kaitlyn prosseguiu:
     -- Voc se lembra do Derek? Ele terminou comigo na semana passada
porque resolveu que no fundo havia algo fundamentalmente incompatvel
entre ns e que acabaramos nos magoando se continussemos com o
relacionamento. Ele chamou aquilo de trmino preventivo do namoro.
Ento, pode ser que voc tenha algum pressentimento de que haja algo
fundamentalmente incompatvel entre vocs e esteja prevenindo a
preveno.
     -- Humm -- falei.
     -- S estou pensando alto aqui.
     -- Sinto muito pelo Derek.
     -- Ah, eu j superei, amada. Foram necessrios uma caixa de cookies
de chocolate com menta e quarenta minutos para esquecer aquele garoto.
     Eu ri.
     -- Bem, obrigada, Kaitlyn.
     -- Na eventualidade de voc ficar com ele, quero todos os detalhes
picantes.
     -- Mas  claro -- eu disse, e a a Kaitlyn me mandou um beijo
estalado e eu completei: -- Tchau.
     E ela desligou.

                                   ***
Enquanto escutava a Kaitlyn falando, me dei conta de que eu no tinha
um pressentimento de que iria mago-lo. Eu tinha um ,ps-sentimento.
     Peguei o laptop e dei uma busca em Caroline Mathers. As
semelhanas fsicas eram impressionantes: o mesmo rosto esteroidalmente
redondo, o mesmo nariz, aproximadamente a mesma compleio fsica.
Mas os olhos dela eram castanho-escuros (os meus so verdes) e a cor da
pele dela era mais morena, e tal.
     Milhares de pessoas -- literalmente milhares -- tinham deixado
mensagens de condolncias para ela. Era uma lista infinita de pessoas que
sentiam sua falta, tantas que levei uma hora clicando na barra lateral para
passar dos posts que diziam:  uma pena que voc tenha morrido, at
chegar aos que confessavam: Estou rezando por voc. Caroline tinha
morrido havia um ano de cncer cerebral. Consegui acessar algumas fotos
dela. O Augustus estava em vrias das mais antigas: apontando para a
cicatriz chanfrada que atravessava a cabea raspada dela e fazendo um
sinal de positivo com o polegar da outra mo; de braos dados com ela no
playground do Hospital Memorial, de costas para a cmera; beijando a
Caroline enquanto ela segurava a cmera  frente deles, s deixando 
mostra seus narizes e os olhos fechados.
     As fotos que tinham sido postadas mais recentemente eram todas da
Caroline de antes, quando ainda era saudvel, carregadas para sua pgina
pelos amigos depois de sua morte: uma menina linda, os quadris largos e
curvilneos, o cabelo liso e preto caindo no rosto. Minha verso saudvel se
parecia muito pouco com a verso saudvel dela. Mas nossas verses
cancerosas poderiam muito bem ter sido irms. No me admira que ele
tenha ficado me olhando, vidrado, na primeira vez que me viu.
     Cliquei vrias vezes em um dos posts, escrito dois meses atrs, nove
depois de sua morte, por um dos amigos dela. Todos sentimos muito sua
falta.  uma dor que no passa. Parece que fomos todos feridos durante a
sua batalha, Caroline. Saudades. Te amo.
    Depois de um tempo, mame e papai me chamaram para jantar.
Fechei o computador e me levantei, mas no consegui tirar aquele post da
cabea, e por algum motivo ele me deixou nervosa e sem fome.
     Fiquei pensando no ombro que doa e, alm disso, a dor de cabea
ainda no havia passado, mas talvez fosse s porque eu tinha ficado
pensando numa garota que morreu de cncer no crebro. Comecei a
tentar me convencer a compartimentalizar, para me concentrar ali na mesa
redonda (sem dvida de um dimetro muito grande para trs pessoas e
definitivamente grande demais para duas) com aquele brcolis empapado
e um hambrguer de feijo-preto que nem todo o ketchup do mundo
conseguiria tornar suculento. Falei para mim mesma que imaginar uma
metstase no crebro ou no ombro no afetaria a realidade invisvel que
estava rolando dentro mim, e que, portanto, tais pensamentos eram
instantes desperdiados numa vida composta de um conjunto, por
definio, finito de tais instantes. At cheguei a repetir mentalmente que
eu deveria viver o melhor da minha vida hoje.
     Fiquei tentando entender durante horas e horas por que uma coisa
escrita por um total desconhecido na Internet para uma outra (e falecida)
desconhecida estava me incomodando tanto e me deixando com medo de
que houvesse algo no meu crebro -- que de fato doa, embora eu
soubesse por anos de experincia que a dor  um instrumento de
diagnstico obtuso e inespecfico.
     E porque nenhum terremoto havia ocorrido em Papua-Nova Guin
naquele dia, meus pais estavam hiperconcentrados em mim, com isso, no
consegui disfarar a torrente de ansiedade.
     -- Est tudo bem? -- mame me perguntou enquanto eu comia.
     -- A-h -- respondi. Dei uma mordida no hambrguer. Engoli. Tentei
dizer algo que uma pessoa normal cujo crebro no estivesse mergulhado
em pnico diria. -- Tem brcolis nesses hambrgueres?
     -- Um pouquinho -- papai disse. -- Legal isso de voc talvez ir a
Amsterd.
     --  -- falei.
     Tentei tirar a palavra feridos da cabea, o que, obviamente, era uma
forma de pensar nela.
     -- Hazel -- mame disse. -- Onde voc est com a cabea?
     -- S estou pensando -- falei.
     -- Est vendo coelhinhos na lua -- meu pai disse, sorrindo.
     -- Eu no estou vendo coelhinho nenhum, no estou apaixonada pelo
Gus Waters nem por ningum -- respondi, defensivamente demais.
     Feridos. Tipo, Caroline Mathers era uma bomba, e quando ela
explodiu todo mundo em volta foi atingido pelos estilhaos.
     Papai me perguntou se eu estava fazendo algum trabalho para a
escola.
     -- Tenho um dever de casa de lgebra bastante complexo -- respondi.
     -- To complexo que eu no conseguiria de jeito nenhum explicar
para um leigo.
     -- E como est o seu amigo Isaac?
     -- Cego -- respondi.
     -- Voc est agindo como uma aborrecente hoje -- mame disse, e
parecia incomodada com aquilo.
     -- No  isso o que voc queria, me? Que eu assumisse minha
adolescncia?
     -- Bem, no era necessariamente desse tipo de adolescncia que eu
estava falando, mas  claro que seu pai e eu estamos felizes em ver voc se
tornando uma jovem mulher, fazendo amigos, namorando.
     -- Eu no estou namorando -- falei. -- Eu no quero namorar
ningum.  uma pssima ideia e uma grande perda de tempo...
     -- Querida -- minha me disse. -- Qual  o problema?
     -- Eu sou tipo. Tipo. Sou tipo uma granada, me. Eu sou uma
granada e, em algum momento, vou explodir, e gostaria de diminuir a
quantidade de vtimas, t? Meu pai inclinou a cabea um pouquinho para
o lado, como se fosse um cachorrinho que acabou de ser repreendido. --
Eu sou uma granada -- repeti. -- S quero ficar longe das pessoas, ler
livros, pensar e ficar com vocs dois, porque no h nada que eu possa
fazer para no ferir vocs; vocs esto envolvidos demais, por isso me
deixem fazer isso, t? No estou deprimida. No preciso sair mais. E no
posso ser uma adolescente normal porque sou uma granada.
     -- Hazel -- papai disse, e ento ficou com um n na garganta.
      Ele chorava muito, meu pai.
      -- Vou para meu quarto ler um pouco, t? Estou bem. Estou bem, de
verdade; s quero ir ler um pouco.
     Comecei folheando o livro que me mandaram ler na escola, mas ns
morvamos numa casa de paredes extremamente finas e, por isso, pude
ouvir a maior parte da conversa sussurrada que se seguiu. Meu pai
dizendo: ,Isso acaba comigo, e minha me falando: ,Isso  tudo o que ela
no precisa ouvir, e meu pai continuando: ,Sinto muito, mas..., e minha
me retrucando: ,Voc no  grato?, e ele respondendo: ,Meu Deus, claro
que sou grato. Fiquei tentando me concentrar na histria, mas no
conseguia parar de prestar ateno nos dois.
     A liguei o computador para ouvir um pouco de msica, e com o grupo
preferido do Augustus, o The Hectic Glow, como trilha sonora, voltei para
as pginas de homenagens a Caroline Mathers, lendo sobre como sua luta
foi heroica, e como ela fazia falta, e como estava num lugar melhor, e
como viveria para sempre na memria deles, e como todos os que a
conheceram -- todos -- estavam arrasados por perd-la.
     Talvez o normal fosse eu odiar a Caroline Mathers, ou sei l o qu,
por ter sido namorada do Augustus, mas eu no a odiava. No dava para
distinguir claramente como ela era atravs daquelas homenagens, mas no
parecia haver muito o que odiar -- ela parecia ter sido, acima de tudo,
uma doente profissional, como eu, o que me deixou com medo de que,
quando eu morresse, eles no tivessem mais nada a dizer sobre mim exceto
que lutei heroicamente, como se a nica coisa que eu tivesse feito na vida
fosse Ter Cncer.
     De qualquer forma, depois de um tempo, comecei a ler as pequenas
atualizaes sobre o estado da Caroline Mathers, que na maior parte foram
escritas por seus pais, na verdade, porque acho que o tumor cerebral dela
era do tipo que transforma voc em outra pessoa antes de fazer voc deixar
de ser uma pessoa.
    Eram todos mais ou menos assim: Caroline continua a ter problemas
de comportamento. Ela est sentindo muita raiva e frustrao por no
conseguir falar (ns tambm ficamos frustrados com isso, claro, mas temos
formas mais socialmente aceitveis de lidar com a raiva). O Gus passou a
chamar a Caroline de HULK ESMAGA, o que repercutiu entre os
mdicos. Nada  fcil nisso tudo para nenhum de ns, mas  preciso levar
a vida com algum humor, da melhor forma possvel. Esperamos voltar para
casa na quinta-feira. Manteremos vocs informados...
    Seria desnecessrio dizer, mas ela no voltou para casa na quinta-feira.

                                     ***

Ento  claro que fiquei toda tensa quando ele me tocou. Estar com o
Augustus era feri-lo -- inevitavelmente. E foi isso o que senti quando ele
estendeu o brao: senti como se estivesse cometendo um ato de violncia
contra ele, porque era isso o que eu estava fazendo.
     Resolvi mandar uma mensagem de texto. Quis evitar uma conversa
inteira a respeito.

    Oi, ento t, eu no sei se voc vai entender isso, mas no posso beijar
voc nem nada. No que voc tenha necessariamente tido vontade de
fazer isso, mas no posso.
    Quando tento olhar para voc desse jeito, tudo o que vejo so as coisas
pelas quais vou fazer voc passar. Isso talvez no faa sentido para voc.
    De qualquer forma, sinto muito.

    Ele respondeu alguns minutos depois.

    O.k.

    Mandei minha resposta.

    O.k.


    Ele respondeu:
    Ai, meu Deus, pare de flertar comigo!

    Eu s disse:

    O.k.

    Meu celular vibrou alguns instantes depois.

    Eu estava brincando, Hazel Grace. Eu entendo. (Mas ns dois
sabemos que o.k.  uma expresso bastante ,paquerativa. Ela est
CARREGADA de sensualidade.)

    Fiquei bastante tentada a responder O.k. de novo, mas imaginei a
cena dele no meu enterro, e aquilo me ajudou a mandar a mensagem
certa.

    Foi mal.

                                    ***

Tentei dormir com os fones ainda no ouvido, mas a, depois de um tempo,
minha me e meu pai entraram no quarto, e mame pegou o Azulzinho da
prateleira e o abraou, e papai se sentou na cadeira da minha escrivaninha
e, sem chorar, disse:
     -- Voc no  uma granada. No para ns. Pensar na sua morte nos
deixa tristes, Hazel, mas voc no  uma granada. Voc  incrvel. Voc
no tem como saber, querida, porque nunca teve um beb que cresceu e
se tornou uma jovem leitora genial com um interesse incidental em
programas de televiso detestveis, mas a alegria que voc nos d  muito
maior que a tristeza que sentimos com a sua doena.
     -- T -- falei.
     -- Srio -- meu pai disse. -- Eu no mentiria para voc sobre esse
assunto. Se voc nos desse mais trabalho do que merece, simplesmente
jogaramos voc na rua.
    -- No somos sentimentais -- mame acrescentou, com uma
expresso impassvel no rosto. -- Teramos deixado voc num orfanato
com um bilhete preso em seu pijama.
    Eu ri.
     -- Voc no precisa ir ao Grupo de Apoio -- ela continuou. -- No
precisa fazer nada. S ir  escola. -- E me entregou o urso.
    -- Acho que o Azulzinho pode dormir na prateleira hoje -- falei. --
Voc precisa lembrar que eu tenho mais de trinta e trs meios anos.
    -- Fique com ele hoje.
    -- Me -- falei.
    -- Ele est se sentindo solitrio.
    -- Ai, meu Deus, me! -- exclamei.
    Mas peguei o raio do Azulzinho e meio que me aconcheguei a ele
enquanto adormecia.
    Na verdade, eu ainda estava com um dos braos entrelaados com o
urso quando acordei pouco depois das quatro da manh com uma dor
apocalptica latejando no centro inalcanvel da minha cabea.
    CAPTULO SETE




G        ritei para acordar meus pais e eles entraram no quarto como dois
         furaces, mas no havia nada que pudessem fazer para diminuir a
         intensidade da supernova que explodia na minha cabea, uma
cadeia interminvel de fogos de artifcio intracranianos que me fizeram
pensar que minha hora tinha chegado de vez, e tentei me convencer --
como j tinha feito antes -- de que o corpo desliga quando a dor fica
insuportvel demais, que a conscincia  temporria e que tudo vai passar.
Mas, como sempre, no desmaiei. Fui deixada na areia com as ondas
batendo em mim, sem poder me afogar.
     Papai foi dirigindo enquanto falava com o hospital ao celular, eu
deitada no banco de trs com a cabea apoiada no colo da minha me.
No havia nada a fazer: gritar s piorava. Para falar a verdade, qualquer
estmulo s piorava.
     A nica soluo seria tentar desmanchar o mundo, torn-lo negro e
silencioso e inabitado de novo, voltar ao momento anterior ao Big Bang, no
comeo, quando havia o Verbo, e viver naquele espao no criado e vazio
sozinha com o Verbo. As pessoas falam da coragem dos pacientes de
cncer, e eu no a nego. Por vrios anos fui cutucada, cortada e
envenenada, e segui em frente. Mas no se enganem: naquele momento,
eu teria ficado muito, muito feliz em morrer.

                                    ***

Acordei na UTI. Pude perceber que era a UTI porque no estava num
quarto particular, e porque havia vrios aparelhos bipando, e porque eu
estava sozinha: eles no deixam a famlia ficar na UTI do Hospital
Peditrico vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana porque isso
representaria risco de infeco. Ouvi um choro vindo do fim do corredor.
O filho de algum tinha morrido. Eu estava sozinha. Apertei o boto
vermelho para chamar algum.
    Uma enfermeira apareceu alguns segundos depois.
    -- Oi -- falei.
    -- Oi, Hazel. Sou Alison, sua enfermeira -- ela disse.
    -- Oi, Alison Minha Enfermeira -- falei.
    Depois disso comecei a me sentir muito cansada de novo. Mas fiquei
acordada por um tempo quando meus pais entraram, chorando, e me
deram vrios beijos. Tentei erguer o tronco para abraar os dois, e tudo em
mim doeu quando os abracei, e mame e papai me contaram que no
havia nenhum tumor no meu crebro, e que minha dor de cabea tinha
sido causada por m oxigenao, o que por sua vez foi provocado pelo fato
de meus pulmes estarem nadando em lquido, um litro e meio (!!!!) que
tinha sido drenado com sucesso do meu peito, e era por isso que eu talvez
fosse sentir um leve desconforto ao deitar de lado, onde havia, ei, veja isso,
um tubo que ia do meu peito at um recipiente de plstico com lquido at
a metade, que, juro, parecia a cerveja preferida do meu pai. Mame me
disse que eu iria para casa, de verdade, que s teria de fazer essa drenagem
de vez em quando e que precisaria voltar a usar o BiPAP, o equipamento
noturno que fora a entrada e a sada de ar dos meus pulmes de araque.
Mas eu tinha feito uma tomografia computadorizada de corpo inteiro na
primeira noite no hospital, segundo eles, e a notcia era boa: nenhum
crescimento de tumor. Nada de novos tumores. A dor no meu ombro tinha
sido falta de oxigenao. Dores de um corao trabalhando mais que o
normal.
    -- Hoje de manh a Dra. Maria nos disse que continua otimista --
papai falou.
    Eu gostava da Dra. Maria, e ela no era de mentir, por isso adorei
ouvir aquilo.
    -- Isso  s um detalhe, Hazel -- minha me disse. --  um detalhe
com o qual conseguiremos conviver.
    Assenti com a cabea, e ento a Minha Enfermeira Alison meio que
fez com que eles sassem, educadamente. Ela me perguntou se eu queria
umas pedrinhas de gelo e eu disse que sim, e a ela se sentou na cama
comigo e me deu as pedrinhas na boca, de colher.
     -- Ento voc ficou fora do ar alguns dias -- a Alison disse.
     -- Humm... O que voc perdeu?... Uma celebridade se drogou.
Polticos brigaram. Uma outra celebridade usou um biquni que revelou
uma imperfeio corporal. Um time venceu um campeonato, mas outro
time perdeu. -- Eu sorri.
     -- Voc no pode continuar se isolando do mundo assim, Hazel. Voc
perde muita coisa.
     -- Mais? -- interroguei, fazendo um gesto com a cabea na direo
do copo branco de isopor que estava na mo dela.
     -- Eu no deveria -- ela respondeu --, mas sou rebelde. -- E me deu
outra colherada do gelo triturado.
     Murmurei um ,obrigada. Graas a Deus pelas boas enfermeiras.
     -- Est ficando cansada? -- ela perguntou.
     Fiz que sim.
     -- Durma um pouco -- ela completou. -- Vou tentar mexer uns
pauzinhos e lhe dar algumas horas antes que entre algum para verificar
seus sinais vitais e coisas do gnero.
     Agradeci mais uma vez. Em hospitais, voc agradece o tempo todo.
Tentei me ajeitar no leito.
     -- Voc no vai perguntar nada sobre seu namorado? -- ela me
questionou.
     -- Eu no tenho namorado -- falei.
     -- Bem, um garoto mal saiu da sala de espera desde que voc chegou
aqui -- ela disse.
     -- Ele no me viu assim, viu?
     -- No. S a famlia.
     Assenti com a cabea e mergulhei num sono aquoso.

                                   ***
Ainda faltariam seis dias para eu voltar para casa, seis dias perdidos
olhando para o isolamento acstico no teto, vendo televiso, dormindo,
sentindo dor e querendo que o tempo passasse logo. No vi o Augustus
nem ningum alm dos meus pais. Meu cabelo parecia um ninho de
passarinho; meu passo de cgado, o de um paciente com demncia. Mas a
cada dia me sentia ligeiramente melhor: cada sono acabava revelando uma
criatura que se parecia um pouco mais comigo. O sono combate o cncer,
disse meu mdico, Jim, pela milsima vez quando pairou sobre mim certa
manh, rodeado por um grupo de estudantes de medicina.
     -- Ento eu sou uma mquina de combate ao cncer -- disse para
ele.
     -- Isso voc  mesmo, Hazel. Continue descansando e, com sorte,
poderemos mand-la para casa logo.

                                    ***

Na tera-feira, eles me disseram que eu iria para casa na quarta. Na
quarta, dois residentes minimamente supervisionados removeram o dreno
do meu trax. A sensao foi de estar levando uma facada de dentro para
fora, o que, no fim das contas, no saiu como deveria, por isso eles
decidiram que eu teria de ficar at quinta. J estava comeando a pensar
que eu era objeto de algum experimento existencialista de gratificao
postergada em modo contnuo quando, na sexta-feira de manh, a Dra.
Maria apareceu, me farejou por um minuto e me disse que eu poderia ir
embora.
     A a mame abriu sua enorme bolsa e mostrou que l dentro estavam,
desde sempre, minhas Roupas de Ir Para Casa. Uma enfermeira veio e
retirou os aparatos da terapia intravenosa. Eu me senti livre, mesmo ainda
tendo de carregar o cilindro de oxignio para todo lado. Entrei no
banheiro, tomei meu primeiro banho em uma semana e me vesti. Quando
sa, estava to cansada que tive de deitar para recuperar o flego.
     -- Voc quer ver o Augustus? -- minha me perguntou.
     -- Pode ser -- respondi, aps alguns instantes.
     Eu me levantei e me transferi para uma das cadeiras de plstico
encostadas na parede, enfiando o cilindro debaixo dela. Aquilo acabou
comigo.
     Papai voltou com o Augustus minutos depois. O cabelo dele estava
bagunado, caindo na testa. Seu rosto se iluminou com um legtimo
Sorriso Bobo  la Augustus Waters quando me viu, e tambm no
consegui evitar um sorriso. Gus se sentou na poltrona reclinvel azul de
couro falso que estava perto da minha cadeira. Ele se inclinou para a
frente, se aproximando de mim, aparentemente incapaz de conter o
sorriso.
     Mame e papai nos deixaram sozinhos, o que foi meio constrangedor.
Eu me esforcei para olhar nos olhos dele, embora fossem to lindos que
eram quase impossveis de encarar.
     -- Estava com saudade de voc -- o Augustus disse.
     Minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria.
     -- Obrigada por no tentar me ver quando eu parecia ter sado do
inferno.
     -- Para falar a verdade, sua aparncia ainda no est l essas coisas.
     Eu ri.
     -- Senti saudade de voc tambm. S no quero que voc veja... tudo
isso. S quero, tipo... No tem importncia. No  sempre que a gente
pode ter o que quer.
     -- Srio? -- ele perguntou. -- Sempre pensei que o mundo fosse uma
fbrica de realizao de desejos.
     -- Acontece que no  esse o caso -- falei. Ele era to belo...
Levantou a mo para pegar a minha mas eu balancei a cabea
negativamente. -- No -- falei baixinho. -- Se vamos ficar juntos, tem de
ser, tipo, no assim.
     -- T -- ele disse.
     -- Bem, eu tenho boas e ms notcias no campo da realizao de
desejos.
     -- Ento? -- falei.
     -- A m notcia  que, obviamente, no vamos poder ir a Amsterd
at voc melhorar. Mas os Gnios vo executar a famosa magia deles
quando estiver se sentindo bem o suficiente.
    -- Essa  a boa notcia?
    -- No. A boa notcia  que, enquanto voc dormia, Peter Van
Houten compartilhou um pouco mais de sua mente genial conosco. Ele
aproximou a mo da minha de novo, dessa vez para colocar nela uma folha
bem dobrada, um papel timbrado sob o nome de Peter Van Houten,
Romancista Emrito.

                                    ***

No li a carta at entrar em casa e deitar na minha enorme cama vazia,
sem qualquer chance de interrupo mdica. Levei horas tentando
decifrar a escrita inclinada e garranchosa de Van Houten.

    Caro Sr. Waters,

     Acabei de receber sua correspondncia eletrnica com data de 14 de
abril e estou devidamente impressionado com a complexidade
shakespeariana de seu drama. Todos nessa histria tm uma harmatia
slida como uma rocha: a dela, estar to doente; a sua, estar to bem. Se
ela estivesse melhor ou o senhor, mais doente, ento as estrelas no
estariam to terrivelmente cruzadas, mas  da natureza das estrelas se
cruzar, e nunca Shakespeare esteve to equivocado como quando fez
Cssio declarar: ,A culpa, meu caro Bruto, no  de nossas estrelas / Mas
de ns mesmos. Fcil falar quando se  um nobre romano (ou
Shakespeare!), mas no h qualquer escassez de culpa em meio s nossas
estrelas.
     Permanecendo no assunto das falhas do bom e velho William, seu
texto acerca da jovem Hazel me fez recordar o soneto cinquenta e cinco do
bardo, que, como o senhor deve saber, comea assim: ,Nem o mrmore,
nem os ureos mausolus / De reis ho de durar mais que meu verso
ardente; / Mas nele brilhareis mais refulgentemente / Do que a pedra
largada aos ultrajes do tempo. (Fugindo um pouco do assunto, mas: que
meretriz  o tempo. Nos fode a todos.)  um lindo poema, porm,
enganoso: com certeza, nos lembramos dos versos ardentes de
Shakespeare, mas o que temos em mente sobre a pessoa que ele
homenageia? Nada. Temos quase certeza de que se trata de um homem;
tudo mais  suposio. Shakespeare nos revelou muito pouco sobre o
homem que sepultou em seu sarcfago lingustico. (Perceba tambm que,
quando falamos de literatura, o fazemos no tempo presente. Quando
falamos dos mortos, no somos to generosos.) No se imortaliza a perda
escrevendo sobre eles. A escrita enterra, mas no ressuscita. (Declarao
total e irrestrita: no sou o primeiro a fazer esta observao. Cf. o poema
de MacLeish ,Nem o mrmore, nem os ureos mausolus,, que contm o
verso heroico: ,Direi que morrers e no se lembraro de teu passado.)
     Estou a divagar, mas eis a falha: os mortos so visveis apenas atravs
do terrvel olho vigilante da memria. Os vivos, graas aos cus, mantm a
capacidade de surpreender e de decepcionar. Sua Hazel est viva, Waters,
e o senhor no deve impor sua vontade sobre a deciso de outrem, em
particular uma deciso que foi tomada aps muita ponderao. Ela deseja
salvaguard-lo da dor, e o senhor deve deixar que ela assim o faa. 
possvel que no ache a lgica da jovem Hazel persuasiva, mas tenho
atravessado esse vale de lgrimas h mais tempo que o senhor e, do meu
ponto de vista, no  ela a luntica.

    Atenciosamente,
    Peter Van Houten

     Tinha sido mesmo escrita por ele. Lambi o dedo, umedeci o papel e a
tinta borrou um pouco, e foi assim que soube que era verdadeiramente
verdadeira.
     -- Me -- disse.
     No falei muito alto, mas no precisava mesmo. Ela estava sempre 
espera. Sua cabea apareceu por trs da porta.
     -- Est tudo bem, querida?
     -- Podemos ligar para a Dra. Maria e perguntar se uma viagem
internacional me mataria?
    CAPTULO OITO




N         s tivemos uma grande Reunio da Equipe do Cncer alguns dias
          depois. De vez em quando, mdicos, assistentes sociais,
          fisioterapeutas e vrias outras pessoas se reuniam em volta de
uma mesa enorme numa sala de reunio e debatiam a minha situao.
(No a situao do Augustus Waters, nem a situao de Amsterd. A
situao do cncer.)
     A Dra. Maria liderava a reunio. Ela me abraou quando cheguei l.
Ela adorava abraar.
     Eu me sentia um pouco melhor, acho. Dormir com o BiPAP a noite
toda fazia meus pulmes parecerem quase normais, embora, pensando
bem, eu no me lembrasse direito de como era a normalidade pulmonar.
     Todos chegaram l e fizeram uma grande demonstrao de como
aquela reunio seria totalmente focada em mim ao desligarem seus pagers
e tudo mais, e ento a Dra. Maria disse:
     -- Bem, a boa notcia  que o Falanxifor continua a controlar a
evoluo do tumor, mas obviamente ainda estamos vendo srios problemas
com a acumulao de lquido. Ento, a questo : como devemos
proceder?
     E a ela simplesmente olhou para mim, como se esperasse uma
resposta.
     -- Humm -- falei. -- Acho que no sou a pessoa mais qualificada
nesta sala para responder a essa pergunta.
     Ela sorriu.
     -- Certo. Eu estava esperando a resposta do Dr. Simons. Dr. Simons?
     Ele era outro mdico de cncer de algum tipo.
     -- Bem, ns sabemos, pela experincia com outros pacientes, que a
maioria dos tumores acaba achando um jeito de evoluir apesar do
Falanxifor, mas se fosse esse o caso, veramos o crescimento do tumor nos
exames de imagem, e no foi o que vimos. Portanto, ainda no se trata
disso.
     Ainda, pensei.
     O Dr. Simons batia na mesa com o indicador.
     -- O consenso aqui  que  possvel que o Falanxifor esteja piorando
o edema, mas ns depararamos com problemas muito mais srios se
descontinussemos seu uso.
      A Dra. Maria acrescentou:
      -- No conhecemos os efeitos reais do Falanxifor aps muitos anos
de uso. Pouqussimas pessoas vm se tratando com ele a mesma
quantidade de tempo que voc.
     -- Ento no vamos fazer nada?
     -- Vamos continuar com esse procedimento -- a Dra. Maria disse --,
mas precisaremos nos esforar mais para evitar a piora do edema.
     Fiquei meio enjoada por algum motivo que no sei qual, como se fosse
vomitar. Eu odiava as Reunies da Equipe do Cncer, em geral, mas odiei
essa especialmente.
     -- Seu cncer no vai sumir da, Hazel. Mas j vimos pessoas viverem
com o mesmo nvel de penetrao tumoral por muito tempo.
     (Eu no perguntei o que constitua o ,muito tempo. J havia
cometido este erro antes.)
     -- Sei que, por ter acabado de sair da UTI, a sensao  outra, mas
esse lquido , pelo menos por enquanto, administrvel -- ela concluiu.
     -- No d para simplesmente eu fazer tipo um transplante ou algo
assim? -- perguntei.
     Os lbios da Dra. Maria sumiram para dentro da boca.
     -- Infelizmente, voc no seria considerada uma forte candidata para
um transplante -- ela disse.
     E eu entendi: no fazia sentido desperdiar pulmes bons em um caso
perdido. Assenti com a cabea, tentando no deixar transparecer que
aquele comentrio havia me magoado. Meu pai comeou a chorar
baixinho. No olhei para ele, mas ningum disse nada por um bom tempo,
e ento o choro dele era o nico rudo sendo emitido naquela sala. Eu
odiava faz-lo sofrer. A maior parte do tempo, conseguia no me lembrar
disso, mas a verdade inexorvel era: eles podiam estar felizes por me ter
por perto, mas eu era o alfa e o mega no sofrimento dos meus pais.

                                    ***

Logo antes do Milagre, quando eu estava na UTI e parecia que ia morrer,
e a mame ficava me dizendo que estava tudo bem, que eu poderia
descansar em paz -- e eu bem que tentava descansar em paz, mas meus
pulmes continuavam procurando pelo ar --, a mame soluou algo no
peito do papai que eu preferiria no ter ouvido, e esperava que ela nunca
descobrisse que eu ouvi. Ela falou: ,Eu vou deixar de ser me. Isso
arrasou comigo.
     No consegui parar de pensar nesse episdio durante toda a Reunio
da Equipe do Cncer. No conseguia tir-lo da cabea, o som da voz dela
quando disse a frase, como se nunca mais fosse ficar bem de novo, o que
provavelmente aconteceria.

                                    ***

Enfim, acabamos resolvendo manter as coisas do jeito que estavam, a
nica diferena sendo as drenagens mais frequentes do lquido. Ao
trmino da reunio, perguntei se poderia viajar para Amsterd, e o Dr.
Simons riu, literalmente, mas a Dra. Maria perguntou:
    -- Por que no?
    O Simons questionou, meio hesitante:
    -- Por que no?!
    E a Dra. Maria completou:
    -- . Eu no vejo por que no. Eles tm oxignio nos avies, no fim
das contas.
    O Dr. Simons disse:
     -- Quer dizer que eles vo despachar um BiPAP?
     E a Maria respondeu:
     -- Sim. Ou vo ter um l esperando por ela.
     -- Colocar uma paciente, nada menos que um dos sobreviventes mais
promissores do Falanxifor, a oito horas de voo da nica mdica
intimamente familiarizada com o caso dela?  a receita para um desastre.
     A Dra. Maria deu de ombros:
     -- Aumentaria alguns riscos -- ela reconheceu, e depois virou para
mim e completou:
     -- Mas  a vida dela.

                                   ***

S que, nem tanto. No carro, na volta para casa, meus pais decidiram: eu
no iria a Amsterd a menos, e at, que houvesse um consenso entre os
mdicos de que seria seguro para mim.

                                   ***

O Augustus me ligou naquela noite depois do jantar. Eu j estava na cama
-- meu toque de recolher havia mudado provisoriamente para logo depois
do jantar --, apoiada num zilho de travesseiros, o Azulzinho do lado,
computador no colo. Atendi falando logo:
    -- M notcia.
    E ele disse:
    -- Merda. O que aconteceu?
    -- No posso ir a Amsterd. Um dos meus mdicos no acha que seja
uma boa ideia.
    Ele ficou calado por um instante.
     -- Cara -- disse, por fim. -- Eu deveria ter pago a viagem com o
meu dinheiro. Deveria ter levado voc direto dos Ossos Maneiros para
Amsterd.
    -- Mas a eu provavelmente teria tido um episdio fatal de
desoxigenao em Amsterd, e meu corpo teria sido despachado de volta
no compartimento de carga do avio -- falei.
     -- , pode ser -- ele disse. -- Mas, antes disso, meu gesto
extremamente romntico com certeza teria levado voc direto para a
minha cama.
     Eu ri muito, tanto que at senti dor no ponto em que o dreno torcico
tinha estado.
     -- Voc ri porque sabe que  verdade -- ele disse e eu ri de novo. --
 verdade, no ?!
     -- Provavelmente no -- falei e, depois de alguns instantes,
acrescentei: -- Mas, nunca se sabe.
     Ele gemeu, em nsias:
     -- Eu vou morrer virgem -- falou.
     -- Voc  virgem? -- perguntei, surpresa.
     -- Hazel Grace -- ele disse --, voc tem uma caneta e uma folha de
papel? -- Respondi que tinha. -- Ento t. Desenhe um crculo, por favor.
-- Desenhei. -- Agora faa um crculo menor dentro dele. -- Obedeci. --
O crculo maior representa os virgens. O crculo menor  composto por
jovens de dezessete anos com uma perna s.
     Ri mais uma vez e argumentei que o fato de a maior parte das
atividades sociais dele ocorrerem num hospital peditrico tambm no
ajudava muito no quesito promiscuidade. A falamos sobre o comentrio
extremamente genial de Peter Van Houten quanto  meretricidade do
tempo e, mesmo eu estando na minha cama e o Augustus, no poro dele,
realmente deu a impresso de que estvamos de volta quela terceira
dimenso invisvel, lugar que gostei muito de visitar na companhia dele.
     Depois que desliguei o telefone, minha me e meu pai entraram no
meu quarto e, mesmo a minha cama no sendo grande o suficiente para
ns trs, eles se deitaram comigo, cada um de um lado, e todos assistimos
ao ANTM na minha televisozinha. A garota de quem eu no gostava,
Selena, tinha sido eliminada do programa, o que por algum motivo me
deixou bastante satisfeita. Ento mame me conectou ao BiPAP e ajeitou
as cobertas em cima de mim, papai beijou minha testa, um beijo
arranhado, de barba malfeita, e, por fim, fechei os olhos. Basicamente, o
que o BiPAP fazia era assumir o controle da minha respirao, o que era
muito incmodo, mas o grande barato era o barulho que fazia, ressoando a
cada inspirao e chiando quando eu expirava.
    Eu ficava pensando que aquele som parecia o de um drago
respirando ao mesmo tempo que eu, como se eu tivesse um drago como
bicho de estimao, aninhado junto a mim, e que se importava tanto
comigo que at sincronizava sua respirao com a minha. Estava pensando
nisso quando mergulhei num sono profundo.

                                    ***

Acordei tarde na manh seguinte. Vi televiso ainda na cama, li meus e-
mails e, depois de um tempo, comecei a rascunhar uma mensagem para o
Peter Van Houten contando por que no conseguiria ir a Amsterd, mas
dizendo que jurava pela vida da minha me que nunca compartilharia
qualquer informao sobre os personagens com ningum, que eu nem
queria dividir isso com ningum, porque eu era uma pessoa incrivelmente
egosta, e que, por favor, ser que ele poderia me dizer se o Homem das
Tulipas Holands  ou no um vigarista e se a me da Anna se casa com
ele e, tambm, o que aconteceu com Ssifo, o hamster?
     Mas no enviei. Era pattico demais, at para mim.
     L pelas trs da tarde, imaginando que o Augustus j teria chegado em
casa da escola, fui at o quintal e liguei para ele. Enquanto o telefone
tocava me sentei na grama, que j estava bem alta e apinhada de dentes-
de-leo. O balano ainda estava l, ervas daninhas brotando da pequena
vala que eu havia criado com os ps ao me impulsionar cada vez mais alto
quando era bem novinha. Lembrei do dia em que papai trouxe para casa o
kit de balano da Toys ,R Us e montou aquele aparato no quintal com a
ajuda de um vizinho. Ele insistiu em se balanar primeiro para testar a
resistncia do brinquedo, e o troo quase quebrou todo.
     O cu estava cinzento e nublado, mas no chovia ainda. Desliguei
quando ouvi a voz do Augustus na saudao da caixa postal e coloquei o
telefone no cho ao meu lado. Continuei olhando para o balano,
pensando que eu abriria mo de todos os dias doentes que me restavam
em troca de uns poucos saudveis. Tentei me convencer de que poderia
ser pior, que o mundo no era uma fbrica de realizao de desejos, que eu
estava vivendo com cncer e no morrendo por causa dele, que eu no
deveria deixar que ele me matasse antes da hora, e a comecei a murmurar
idiota idiota idiota idiota idiota idiota sem parar at que o som da palavra
se desassociou do seu significado. Ainda estava repetindo quando ele
retornou a minha ligao.
     -- Oi -- falei.
     -- Hazel Grace -- ele disse.
     -- Oi -- falei de novo.
     -- Voc est chorando, Hazel Grace?
     -- Mais ou menos.
     -- Por qu? -- ele perguntou.
     -- Porque eu... eu quero ir a Amsterd, quero que ele me diga o que
acontece depois que o livro acaba, e simplesmente no quero mais essa
vida, e, alm disso, o cu est me deixando deprimida, e tem esse velho
balano aqui que meu pai montou para mim quando eu era criana.
     -- Preciso ver esse velho balano de lgrimas imediatamente -- ele
disse. -- Chego a em vinte minutos.

                                     ***

Continuei no quintal porque minha me sempre ficava muito angustiada e
preocupada quando eu chorava, j que eu no chorava com frequncia, e
sabia que ela ia querer conversar e debater se eu no deveria considerar
fazer alteraes nos meus remdios, e s de pensar na possibilidade dessa
conversa toda fiquei com vontade de vomitar.
    No que eu tivesse uma lembrana clara e comovente de um pai
saudvel empurrando uma criana saudvel no balano e a criana dizendo
mais alto mais alto mais alto, ou de algum outro momento
metaforicamente ressonante. O balano s estava l, abandonado, as duas
cadeirinhas, imveis e tristes, penduradas de uma tbua acinzentada de
madeira, o formato dos assentos parecendo o trao de um sorriso feito por
uma criana.
     Atrs de mim, ouvi o rudo da porta de correr de vidro se abrindo.
Virei o corpo. Era o Augustus, com uma cala cqui e uma camisa xadrez
de manga curta. Enxuguei o rosto na manga da blusa e sorri.
     -- Oi -- falei. Ele demorou um pouquinho para se sentar no cho ao
meu lado, e fez uma careta ao aterrissar um tanto desajeitadamente de
bunda.
     -- Oi -- falou, por fim. Olhei para ele e vi que observava o quintal
atrs de mim.
     -- Entendo o que voc quer dizer -- ele disse e passou o brao por
cima dos meus ombros.
     -- Aquele  um pedao de balano triste e maldito. Aninhei a cabea
no ombro dele.
     -- Obrigada por se oferecer para vir aqui.
     -- Voc sabe que tentar me manter a distncia no vai diminuir o
que eu sinto por voc -- ele disse.
     -- Talvez? -- falei.
     -- Todos os esforos para me proteger de voc sero inteis -- ele
disse.
     -- Por qu? Por que  que voc deveria sequer gostar de mim? J no
se colocou em situaes difceis assim o suficiente? -- perguntei,
pensando em Caroline Mathers.
     O Gus no respondeu. Ele s ficou ali, me abraando, os dedos firmes
no meu brao esquerdo.
     -- Precisamos fazer algo a respeito desse raio de balano -- ele falou.
-- Vou dizer uma coisa para voc: ele  o responsvel por noventa por
cento do problema.

                                     ***

Assim que me refiz, entramos e sentamos no sof, lado a lado, o laptop
metade apoiado no joelho (de mentira) dele e a outra metade, no meu.
     -- Quente -- comentei sobre o fundo do laptop.
     -- Est mesmo? -- Ele sorriu.
     Gus acessou um site de doaes chamado Grtis Sem Pegadinha e
juntos redigimos um anncio.
     -- Ttulo? -- ele perguntou.
     -- Balano Precisa de um Lar -- falei.
     -- Balano Extremamente Solitrio Necessita de um Lar Amoroso --
ele disse.
     -- Balano Solitrio e Ligeiramente Pedoflico Procura Bumbuns de
Crianas -- falei.
     Ele riu.
     --  por isso.
     -- O qu?
     --  por isso que gosto de voc. Voc tem ideia de como  raro
encontrar uma gata que use essa verso adjetivada do substantivo pedfilo?
Voc est to ocupada sendo voc mesma que no faz ideia de quo
absolutamente sem igual voc . Respirei fundo pelo nariz. Nunca havia
ar suficiente no mundo, mas a carncia dele naquele momento estava
particularmente crtica.
     Escrevemos juntos o anncio, fazendo as devidas edies s nossas
ideias conforme amos digitando. Por fim, acabamos com o seguinte texto:

    Balano Extremamente Solitrio Necessita de Um Lar Amoroso

     Um balano bastante usado, mas em condies estruturalmente boas,
procura um novo lar. Crie lembranas com seu filho, ou filhos, para que
um dia ele, ou ela, ou eles olhem para o quintal e sintam o mesmo tipo de
sentimentalismo que experimentei esta tarde. Tudo  frgil e efmero, caro
leitor, mas com este balano seu filho conhecer os altos e baixos da vida
devagar e com segurana, e tambm poder aprender a lio mais crucial
de todas: no importa quo forte seja o impulso, no importa o quo alto se
chegue, no ser possvel dar uma volta completa.
    O balano reside atualmente na Rua 83, quase esquina com a Spring
Mill.

    Depois disso ligamos a televiso por um tempo, mas no conseguimos
achar nada que nos interessasse, ento peguei o exemplar de Uma aflio
imperial da mesa de cabeceira, levei o volume para a sala de estar e o
Augustus Waters leu algumas pginas para mim, enquanto mame, que
preparava o almoo, escutava.
     -- ,O olho de vidro da me da Anna virou ao contrrio -- o
Augustus comeou.
    Enquanto ele lia, me apaixonei do mesmo jeito que algum cai no
sono: gradativamente e de repente, de uma hora para outra.

                                   ***

Quando verifiquei meus e-mails uma hora depois, descobri que havia
vrios candidatos para o balano dentre os quais poderamos escolher. No
fim, selecionamos um cara chamado Daniel Alvarez, que anexou uma foto
de seus trs filhos jogando videogame e, no assunto do e-mail, escreveu:
S quero que eles brinquem ao ar livre. Respondi  mensagem dizendo
que poderia buscar o balano quando bem entendesse.
     O Augustus me perguntou se eu queria ir com ele  reunio do Grupo
de Apoio, mas eu estava muito cansada, depois de passar um dia inteiro
ocupada Tendo Cncer, por isso declinei do convite. Estvamos no sof
quando ele empurrou o corpo para cima, para se levantar, mas acabou
caindo sentado de novo e me tacou um beijo na bochecha.
     -- Augustus! -- exclamei.
     -- Beijo de amigo -- ele disse. Empurrou o corpo para cima
novamente, dessa vez permanecendo de p, e ento deu dois passos na
direo da minha me. --  sempre um prazer v-la -- ele disse, e minha
me abriu os braos para lhe dar um abrao, no que o Augustus se
inclinou e deu um beijo na bochecha dela. E se virou para mim: -- Viu?
-- perguntou.
     Fui para a cama logo aps o jantar, o BiPAP suprimindo o mundo que
ficava do lado de fora do meu quarto.
     E nunca mais vi o balano.

                                     ***

Dormi bastante tempo, dez horas, provavelmente por causa do processo
lento de recuperao, provavelmente porque o sono combate o cncer e
provavelmente porque eu era uma adolescente sem hora certa para
acordar. Ainda no me sentia forte o suficiente para voltar a frequentar as
aulas no MCC. Quando, enfim, tive vontade de levantar, tirei a mscara
do BiPAP do nariz, coloquei o cateter do oxignio nas narinas, liguei o
aparelho e tirei o laptop de debaixo da cama, onde o tinha guardado na
noite anterior. L havia um e-mail da Lidewij Vliegenthart.

    Cara Hazel,

     Recebi uma mensagem dos Gnios dizendo que voc vir nos visitar
com Augustus Waters e sua me, chegando aqui no dia 4 de maio. Em
apenas uma semana! Peter e eu estamos encantados e no vemos a hora
de conhec-los pessoalmente. Seu hotel, o Filosoof, fica a apenas uma rua
da casa do Peter. Talvez devssemos dar um dia para que vocs se
recuperem dos efeitos do jet lag? Sendo assim, se for conveniente, ns os
encontraremos na casa do Peter na manh do dia 5 de maio, talvez s dez
horas, para uma xcara de caf e para que ele responda s perguntas que
voc quer fazer sobre o livro dele. E, depois disso, ns poderamos talvez
fazer uma visita a um museu ou  Casa de Anne Frank.

    Cordialmente,
    Lidewij Vliegenthart
    Assistente-executiva do Sr. Peter Van Houten,
    autor de Uma aflio imperial
     -- Me -- falei. Ela no respondeu. -- ME! -- gritei. Nada. De
novo, mais alto: -- ME!
     Ela veio correndo enrolada numa toalha cor-de-rosa velhinha, toda
pingando, ligeiramente em pnico.
     -- O que aconteceu?
     -- Nada. Foi mal. Eu no sabia que voc estava tomando uma
chuveirada.
     -- Eu estava na banheira -- ela disse. -- S estava... -- Fechou os
olhos. -- S estava tentando tomar um banho de banheira de cinco
segundos. Perdo. O que est havendo?
     -- Voc poderia ligar para os Gnios e dizer a eles que a viagem foi
cancelada? Acabei de receber um e-mail da assistente do Peter Van
Houten. Ela acha que vamos at l.
     Mame franziu os lbios e passou por mim com os olhos
semicerrados.
     -- O qu? -- perguntei.
     -- No era para eu dizer nada at seu pai chegar.
     -- O qu? -- perguntei de novo.
     -- A viagem est de p -- ela disse, por fim. -- A Dra. Maria nos
ligou ontem  noite e nos convenceu de que voc precisa viver a sua...
     -- ME, EU TE AMO TANTO! -- gritei.
     Ela foi at a minha cama e deixou que eu a abraasse.
     Mandei um torpedo para o Augustus porque sabia que ele estava na
escola:

    Ainda disponvel dia trs de maio? :-)

    Ele respondeu na mesma hora.

    Est tudo indo s mil maravilhas para o meu lado.

    Se ao menos eu conseguisse ficar viva por uma semana, conheceria os
segredos no publicados da me de Anna e do Homem das Tulipas
Holands. Dei uma espiada na minha blusa, na altura do peito.
    -- Vocs tm de se comportar -- sussurrei para meus pulmes.
CAPTULO NOVE



U         m dia antes da viagem para Amsterd voltei  reunio do Grupo
          de Apoio pela primeira vez desde que conheci o Augustus. O
          elenco havia sido ligeiramente alterado ali no Corao Literal de
Jesus. Cheguei cedo, o suficiente para que Lida -- a sempre forte
sobrevivente do cncer de apndice -- me atualizasse a respeito de todo
mundo enquanto eu comia um cookie industrializado de chocolate
encostada na mesa de biscoitos.
     Michael, o leucmico de doze anos de idade, tinha partido desta para
melhor. Ele lutara bravamente, me contou a Lida, como se houvesse
qualquer outra forma de lutar. O resto do pessoal ainda continuava por l.
Ken estava SEC desde que terminara a radioterapia. Lucas teve uma
recada, e a Lida disse aquilo com um sorriso amarelado e um leve ,dar de
ombros, da mesma forma que contaria que um alcolatra teve uma
recada.
     Uma menina gordinha e bonitinha se aproximou da mesa, disse ,oi
para a Lida e depois se apresentou para mim como Susan. Eu no sabia ao
certo qual era o problema dela, mas havia em seu rosto uma cicatriz que ia
da lateral do nariz at o lbio e atravessava a bochecha. A Susan tinha
passado maquiagem na cicatriz, o que s serviu para chamar mais ateno.
Eu estava com um pouco de falta de ar por causa daquele tempo todo em
p, ento falei:
     -- Vou me sentar ali.
     Foi quando o elevador se abriu, revelando o Isaac e a me. Ele estava
de culos escuros e se apoiava no brao da me com uma das mos, a
bengala na outra.
     -- A Hazel do Grupo de Apoio e no a Monica -- falei, quando ele
chegou perto o suficiente. O Isaac sorriu e disse:
     -- E a, Hazel. Como vo as coisas?
     -- Tudo bem. Fiquei totalmente gata depois que voc perdeu a viso.
     -- Aposto que sim -- Ele comentou.
     A me o guiou at uma cadeira, beijou a cabea dele e se deslocou de
volta at o elevador. O Isaac tateou o espao abaixo do corpo e se sentou.
Eu me acomodei numa cadeira ao seu lado.
     -- E ento, como est tudo?
     -- Bem. Feliz por ter voltado para casa, acho. O Gus me disse que
voc passou pela UTI.
     --  -- respondi.
     -- Que droga! -- ele disse.
     -- Estou bem melhor agora -- falei. -- Vou para Amsterd com o
Gus amanh.
     -- Sei disso. Estou bastante atualizado a respeito da sua vida, porque
o Gus nunca. Fala. De. Outra. Coisa.
     Sorri. O Patrick pigarreou e disse:
     -- Se todos pudermos ocupar nossos assentos... -- O olhar dele
cruzou com o meu. -- Hazel! -- falou. -- Estou to feliz em v-la!
     Todos se sentaram e o Patrick comeou a recontar a histria da sua
ausncia de bolas, o que me levou a retomar a rotina do Grupo de Apoio:
me comunicando com o Isaac por meio de suspiros, me sentindo mal por
todas as pessoas naquele cmodo e tambm por todas as pessoas fora dele,
me distraindo da conversa para me concentrar na minha falta de ar e na
dor. O mundo continuou girando, como sempre, sem a minha participao
integral, e eu s despertei do meu devaneio quando algum disse meu
nome.
     Foi Lida, a Forte. A Lida em remisso. A loira, saudvel, robusta Lida,
que fazia parte do time de natao da escola. A Lida, que s no tinha o
apndice, falou meu nome, dizendo:
     -- A Hazel  uma baita fonte de inspirao para mim; de verdade. Ela
continua lutando, acordando todos os dias e indo para a guerra sem
reclamar. Ela  to forte... To mais forte que eu. Queria ter sua fora.
     -- Hazel? -- indagou o Patrick.
     -- Como voc se sente ao ouvir isso?
     Encolhi os ombros e olhei para a Lida.
     -- Dou minha fora para voc se puder ter sua remisso em troca. --
O sentimento de culpa me invadiu assim que completei a frase.
     -- No acho que tenha sido isso o que a Lida quis dizer -- o Patrick
falou. -- Acho que ela...
     Mas eu j havia parado de prestar ateno.
     Depois das preces para os vivos e da ladainha interminvel dos mortos
(com o Michael adicionado no fim), demos as mos e dissemos:
     -- Vivendo o melhor da nossa vida hoje!
     A Lida foi correndo me pedir desculpas e se justificar, e eu disse:
     -- No, no, est tudo bem -- fazendo um gesto de ,deixe pra l com
a mo, e falei para o Isaac: -- Voc se incomoda de me acompanhar at l
em cima?
     Ele pegou meu brao e eu o guiei at o elevador, grata por ter uma
desculpa para evitar a escada. J tinha quase percorrido o caminho todo
quando vi a me dele parada num canto do Corao Literal.
     -- Estou aqui -- ela disse para o Isaac, e ele trocou o meu brao pelo
dela.
     Ento me perguntou:
      -- Voc quer ir l em casa?
      -- Claro -- respondi.
     Eu me sentia mal por ele. E mesmo odiando a pena que as pessoas
tinham de mim, no consegui evitar ter pena dele.

                                     ***

O Isaac morava numa pequena casa estilo rancho em Meridian Hills, ao
lado de uma escola particular para crianas ricas. Ns nos sentamos na
sala de estar enquanto a me dele foi at a cozinha preparar o jantar, e a
ele me perguntou se eu queria jogar.
     -- Claro -- respondi.
     Isaac me pediu que lhe passasse o controle. Fiz isso e ele ligou a
televiso e um computador que estava conectado a ela. A tela da TV
continuou preta, mas, aps alguns segundos, uma voz grave comeou a
falar de dentro do aparelho.
      Deception, disse a voz. Um ou dois jogadores?
     -- Dois -- respondeu o Isaac. -- Pausar. -- E virou-se para mim. --
Eu jogo isso direto com o Gus, mas  muito irritante porque ele  um
jogador de videogame totalmente suicida. Ele , tipo, muito radical quando
se trata de salvar civis e coisa e tal.
     --  -- falei, lembrando da noite dos trofus destroados.
     -- Recomear -- o Isaac falou.
     Jogador um, identifique-se.
     -- Essa  a voz ultrassensual do jogador um -- o Isaac disse.
     Jogador dois, identifique-se.
     -- O jogador dois sou eu, acho -- falei.
     O Sargento Max Mayhem e o soldado Jasper Jacks acordam em um
lugar escuro e vazio, de aproximadamente um metro quadrado.
     O Isaac apontou para a TV, como se eu devesse me dirigir a ela ou
coisa assim.
     -- Humm -- falei. -- Tem algum interruptor para acender a luz?
    No.
    -- Tem alguma porta?
    O soldado Jacks localiza a porta. Est trancada.
    O Isaac se juntou a mim.
    -- Tem uma chave em cima do batente da porta.
    Sim.
    -- Mayhem abre a porta.
    A escurido continua total.
     -- Empunhar faca -- o Isaac disse.
     -- Empunhar faca -- repeti.
     Uma criana, que deduzi ser o irmo do Isaac, saiu correndo da
cozinha. Devia ter uns dez anos, toda agitada e eltrica, e meio que cruzou
a sala de estar pulando e gritando, numa imitao perfeita da voz do Isaac:
     -- ME MATE.
     O Sargento Mayhem coloca a faca no pescoo. Tem certeza de que
voc...
     -- No -- disse o Isaac. -- Pausar. Graham, no me faa sair daqui e
te dar um chute no traseiro.
     O Graham deu uma risadinha e saiu furtivamente por um corredor.
     Na pele do Mayhem e do Jacks, o Isaac e eu avanamos tateando pela
caverna at que esbarramos num cara que acabamos esfaqueando, depois
de for-lo a nos confessar que estvamos numa priso subterrnea na
Ucrnia, mais de um quilmetro abaixo da superfcie. Conforme
continuvamos, efeitos sonoros -- um rio subterrneo ruidoso, vozes
falando ucraniano e ingls com sotaque -- nos guiavam pela caverna, mas
no havia nada para ver naquele jogo. Depois de uma hora inteira,
comeamos a ouvir os gritos de um prisioneiro desesperado, implorando:
,Deus, me ajude. Deus, me ajude.
     -- Pausar -- o Isaac falou. --  sempre nessa hora que o Gus insiste
em encontrar o prisioneiro, mesmo que isso nos impea de vencer o jogo, e
a nica maneira de conseguir libertar o prisioneiro de verdade  vencendo
o jogo.
     -- . Ele leva muito a srio os jogos de videogame -- falei. -- Ele 
apaixonado por metforas.
     -- Voc gosta dele? -- o Isaac perguntou.
     -- Claro que gosto. Ele  legal.
     -- Mas voc no quer namorar o cara?
     Dei de ombros.
     --  complicado.
     -- Sei o que est tentando fazer. Voc no quer dar para ele algo com
que ele no vai conseguir lidar. Voc no quer que ele Monifique voc --
o Isaac disse.
     -- Mais ou menos isso -- falei. Mas no era nada disso. A verdade 
que eu no queria Isaaquificar o Gus. -- Para no ser injusta com a
Monica -- falei --, o que voc fez com ela tambm no foi muito legal.
     -- O que foi que eu fiz com ela? -- ele perguntou, na defensiva.
     -- Voc sabe, ter ficado cego e tudo mais.
     -- Mas isso no foi culpa minha -- ele disse.
     -- No estou dizendo que foi culpa sua. Estou dizendo que no foi
legal.
    CAPTULO DEZ



S
          levamos uma mala. Eu no tinha como carregar minha bagagem
         e mame bateu p dizendo que no seria capaz de carregar duas,
         ento tivemos de lutar pelo espao na mala preta que meus pais
ganharam de presente de casamento um milho de anos atrs -- mala esta
que deveria ter passado sua vida til em lugares exticos, mas que acabou
praticamente s indo e voltando de Dayton, onde a Morris Property, Inc.,
tinha uma filial que o papai visitava com frequncia.
     Argumentei com a mame que eu deveria ter direito a um pouco mais
do que s a metade da mala, porque, para incio de conversa, sem mim e
meu cncer ns nem iramos a Amsterd. Mame contra-argumentou que,
por ser duas vezes maior que eu e, portanto, precisar de mais metros de
tecido para proteger seu pudor, deveria ter direito a pelo menos dois teros
da mala.
     No fim, ambas perdemos.  a vida.
     Nosso voo s sairia ao meio-dia, mas a mame me acordou s cinco e
meia, acendendo a luz e gritando:
     -- AMSTERD!
     Ela ficou andando de um lado para outro a manh inteira se
certificando de que tnhamos adaptadores de tomada e verificando pelo
menos umas quatro vezes se tnhamos a quantidade certa de cilindros de
oxignio que durassem at l, e se estavam todo cheios etc., enquanto eu
simplesmente rolei da cama, vesti minha Roupa de Viagem para Amsterd
(cala jeans, camiseta cor-de-rosa e um cardig preto, para o caso de o
avio estar frio).
     s seis e quinze a bagagem j estava na mala do carro, e ento mame
insistiu que tomssemos caf da manh com o papai, embora fosse uma
questo de princpio, para mim, no comer antes de o sol nascer,
simplesmente porque eu no era um campons russo do sculo dezenove
me alimentando para me fortalecer antes de um dia inteiro de trabalho
braal. Mas mesmo assim tentei botar para dentro um pouco de ovo
mexido enquanto mame e papai se deliciavam com a verso domstica do
Egg McMuffin que tanto amavam.
     -- Por que comidas de caf da manh so comidas de caf da manh?
-- perguntei a eles. -- Tipo, por que no comemos curry no caf da
manh?
     -- Hazel, coma.
     -- Mas por qu? -- perguntei. -- Na boa, falando totalmente srio:
por que  que os ovos mexidos passaram a ser exclusividade do caf da
manh? Voc pode colocar bacon num sanduche sem que ningum d
nenhum chilique. Mas no instante em que seu sanduche ganha um ovo,
vira um sanduche de caf da manh.
     Papai respondeu de boca cheia.
     -- Quando vocs voltarem, tomaremos caf da manh no jantar.
Combinado?
     -- Eu no quero tomar ,caf da manh no jantar -- respondi,
cruzando os talheres no prato praticamente cheio. -- Quero comer ovos
mexidos no jantar sem essa concepo ridcula de que uma refeio que
inclua ovos mexidos tem de ser caf da manh mesmo que seja hora do
jantar.
     -- Voc precisa escolher as causas pelas quais vai lutar nesse mundo,
Hazel -- minha me disse. -- Mas se esta  a que voc quer defender,
ficaremos do seu lado.
     -- Do lado de trs -- o papai acrescentou, e mame riu.
     Eu sabia que era tolice, mas ainda assim me senti meio mal pelos ovos
mexidos. Logo que eles acabaram de comer, papai lavou os pratos e nos
acompanhou at o carro. Logicamente, comeou a chorar, e beijou minha
bochecha encostando nela a cara molhada e spera. Ele apertou o nariz
contra a ma do meu rosto e sussurrou:
     -- Te amo. Estou to orgulhoso de voc...
     (Pelo qu, exatamente, me perguntei.)
     -- Obrigada, pai.
     -- Vejo voc em alguns dias, querida. Te amo tanto!
     -- Eu tambm, pai. -- Sorri. -- Sero s trs dias.
       Ao percorrermos a entrada de carros de r, fiquei acenando para ele.
Ele acenava tambm, e chorava. Passou pela minha cabea o fato de que
ele talvez estivesse pensando que era possvel que no fosse me ver nunca
mais, o que talvez fosse o que ele pensava todo dia de semana de manh
antes de ir para o trabalho, e isso devia ser uma droga. Mame e eu fomos
de carro at a casa do Augustus e, assim que chegamos l, ela quis que eu
ficasse no carro para descansar, mas fui at a porta mesmo assim. Quando
nos aproximamos, pude ouvir algum chorando l dentro. Num primeiro
momento, no achei que fosse o Gus, porque o choro no soava nada
parecido com o tom suave do jeito de falar dele, mas a escutei uma voz
que com certeza era uma verso alterada da dele dizendo: ,PORQUE A
VIDA  MINHA, ME. ELA PERTENCE A MIM. Mais que depressa,
mame colocou o brao nos meus ombros, me virou e me levou de volta
para o carro, andando rpido.
     -- Me! O que aconteceu? -- perguntei.
     E ela respondeu:
     -- No podemos ficar ouvindo a conversa dos outros, Hazel.
     Entramos no carro e mandei uma mensagem de texto para o Augustus
dizendo que estvamos l fora esperando por ele.
     Ficamos olhando para a casa por um tempo. O mais estranho nas
casas  que quase sempre elas do a impresso de que no tem nada
acontecendo do lado de dentro, embora a maior parte das nossas vidas seja
passada l.
     Fiquei me perguntando se esse seria mais ou menos o objetivo da
arquitetura.
     -- Bem -- mame disse aps alguns instantes --, acho que chegamos
muito cedo.
     --  quase como se eu no precisasse ter acordado s cinco e meia --
falei.
     Mame pegou a caneca de caf no console do carro e tomou um gole.
Meu celular vibrou. Uma mensagem de texto do Augustus.
    NO CONSIGO decidir o que usar.
    Voc prefere me ver de camisa polo ou de camisa de boto?

    Respondi:

    De boto.

     Trinta segundos depois a porta se abriu e um Augustus sorridente
apareceu, carregando uma mala de rodinha. Ele estava com uma camisa
azul-celeste de boto bem passada, por dentro da cala jeans. Um cigarro
Camel Light pendia dos lbios. Minha me saiu do carro para
cumpriment-lo. Ele tirou o cigarro da boca por um instante e falou com o
tom de voz confiante que eu estava acostumada a ouvir.
     --  sempre um prazer v-la, madame.
     Fiquei olhando para eles pelo retrovisor at a mame abrir a mala. Um
tempo depois o Augustus abriu a porta atrs da minha e se lanou na
tarefa complicada de entrar, com apenas uma perna, no assento traseiro de
um carro.
     -- Voc quer ir no banco do carona? -- perguntei.
     -- De jeito nenhum -- ele respondeu. -- E oi, Hazel Grace.
     -- Oi -- falei. -- Tudo o.k.? -- perguntei.
     -- Tudo o.k. -- ele disse.
     -- O.k. -- falei.
     Mame entrou no carro e fechou a porta.
     -- Prxima parada, Amsterd -- ela anunciou.

                                    ***

O que no era exatamente verdade. A prxima parada foi o estacionamento
do aeroporto, e a um nibus nos levou para o terminal, e depois um
carrinho eltrico aberto nos transportou at o local da inspeo de
segurana. O cara da TSA estava l no comeo da fila, aos berros, dizendo
que era melhor que nossa bagagem de mo no contivesse bombas nem
armas de fogo nem qualquer recipiente com mais de 100 ml de lquido, e
a eu virei para o Augustus e disse:
     -- Observao: ficar de p em fila  uma forma de opresso.
     Ao que ele falou:
     -- Na moral.
     Em vez de passar pela revista manual, escolhi atravessar o detector de
metais sem o carrinho nem o cilindro, e nem mesmo o cateter de plstico
no nariz. Cruzar o aparelho de raios X marcou a primeira vez, em alguns
meses, que dei um passo sem o oxignio, e foi tima a sensao de andar
livremente daquele jeito, transpondo o Rubico, o silncio da mquina
reconhecendo que eu era, ainda que s por alguns instantes, uma criatura
no metalizada.
     Senti uma soberania corporal que no d para descrever direito. O que
posso dizer  que foi mais ou menos como quando eu era pequena e tinha
uma mochila pesadssima, cheia de livros, que eu levava para todo lado.
Depois de andar muito tempo com ela, sentia como se estivesse flutuando
assim que a tirava das costas.
     Aps uns dez segundos, meus pulmes pareciam que estavam se
dobrando sobre si mesmos como flores que se fecham ao anoitecer. Ca
sentada num banco cinza localizado logo aps a mquina e tentei recobrar
o flego, minha tosse um rudo rouco, e me senti bastante mal at
recolocar a cnula.
     E mesmo assim doa. A dor estava sempre presente, me puxando para
dentro, exigindo ser sentida. Cada vez que alguma coisa no mundo exterior
demandava um comentrio meu ou a minha ateno, parecia que eu
acordava da dor. Mame me olhava, preocupada. Ela acabara de falar
alguma coisa. O que foi que ela disse? Ento me lembrei. Ela havia
perguntado qual era o problema.
     -- Nada -- respondi.
     -- Amsterd! -- ela exclamou.
     Sorri.
     -- Amsterd -- repeti.
    Ela estendeu o brao para mim, me deu a mo e me puxou para que
eu me levantasse.

                                    ***

Chegamos ao porto uma hora antes do horrio marcado para o embarque.
     -- Sra. Lancaster, a senhora  uma pessoa impressionantemente
pontual -- o Augustus disse ao se sentar ao meu lado na sala de espera
praticamente vazia em frente ao porto de embarque.
     -- Bem, ajuda o fato de eu no ser muito ocupada, tecnicamente
falando -- ela disse.
     -- Voc  ocupada o suficiente -- falei, embora me ocorresse que a
ocupao da mame era basicamente eu.
     Tambm tinha a funo de esposa do meu pai. Ele no tinha a menor
noo de coisas, tipo, tarefas bancrias, contratar bombeiros hidrulicos,
cozinhar e qualquer outra atividade que no fosse trabalhar para a Morris
Property, Inc. Mas a maior parte do tempo o negcio dela era comigo. A
principal razo de viver dela e a minha principal razo de viver estavam
terrivelmente enredadas.
     Conforme os assentos da sala de espera foram sendo ocupados, o
Augustus disse:
     -- Vou comprar um hambrguer. Quer alguma coisa?
     -- No -- respondi --, mas admiro sua recusa em se submeter s
convenes sociais do caf da manh.
     Ele inclinou a cabea para o lado e olhou para mim parecendo meio
confuso.
     -- A Hazel est revoltada por causa da guetizao dos ovos mexidos
-- mame explicou.
     --  vergonhoso o fato de ns simplesmente passarmos a vida inteira
aceitando cegamente a associao dos ovos mexidos com o perodo da
manh.
     -- Quero conversar mais sobre isso -- o Augustus disse. -- Mas estou
morrendo de fome. Volto j.
                                     ***

Quando j se haviam passado mais de vinte minutos e o Augustus ainda
no tinha voltado, perguntei para a mame se ela achava que havia algo de
errado, e ela s levantou os olhos da revista detestvel que lia pelo tempo
suficiente para dizer:
     -- Ele deve ter ido ao banheiro ou coisa assim, s isso.
     Uma funcionria da companhia area andou at ns e trocou meu
cilindro de oxignio por outro, fornecido pela empresa. Fiquei sem graa
de ter uma pessoa ajoelhada na minha frente, com todo mundo olhando,
ento enviei uma mensagem de texto para o Augustus enquanto durava
aquele procedimento.
     Ele no respondeu. Mame parecia despreocupada, mas eu j
imaginava todos os tipos de contratempos que poriam fim  viagem para
Amsterd (priso, acidente, colapso mental) e senti como se houvesse algo
no necessariamente cancergeno de errado com meu peito conforme os
minutos foram se passando.
     E, bem na hora que a moa que estava atrs do balco anunciou que
daria incio ao embarque antecipado de quem pudesse precisar de um
pouco mais de tempo para entrar, e todas as pessoas que aguardavam o voo
se viraram diretamente para mim, vi o Augustus mancando apressado na
nossa direo com um saco do McDonald's na mo, a mochila jogada nas
costas.
     -- Por onde voc andou? -- perguntei.
     -- A fila estava enorme, foi mal -- ele disse, estendendo a mo para
me ajudar a levantar.
     Aceitei a ajuda, e seguimos lado a lado at o porto, para o embarque
preferencial.
     Senti que todos observavam nossos movimentos, imaginando o que
haveria de errado conosco, e se aquilo nos mataria, e como minha me
devia ser uma herona e tudo mais. Essa, s vezes, era a pior parte do
cncer: a evidncia fsica da doena separa voc das outras pessoas.
ramos irreconciliavelmente diferentes, e isso nunca ficou to bvio como
quando ns trs andamos no avio vazio, a comissria de bordo nos
recebendo com uma expresso compadecida e fazendo um gesto na
direo da nossa fileira, que ficava bem mais no fundo. Sentei no meio da
fila de trs cadeiras com o Augustus no assento da janela e a mame no do
corredor. Fiquei me sentindo meio sufocada pela presena da minha me,
ento obviamente me bandeei para o lado do Augustus. Estvamos logo
atrs da asa do avio. Ele abriu o saco e desembrulhou o hambrguer.
     -- Na verdade, a questo dos ovos -- ele disse --  que a
cafedamanhazao d ao ovo mexido uma certa sacralidade. Voc pode
arranjar bacon ou cheddar em qualquer lugar e a qualquer momento, em
tacos, sanduches de caf da manh ou num queijo quente, mas ovos
mexidos... eles so importantes.
     -- Ridculo -- eu disse. As pessoas comeavam a se acomodar no
avio. No queria olhar para elas, ento virei o rosto, e isso significou
encarar o Augustus.
     -- S estou dizendo que talvez os ovos mexidos sejam guetizados, sim,
mas tambm so especiais. H um lugar certo e uma hora certa para eles,
como para rezar.
     -- Voc no poderia estar mais equivocado -- falei. -- Est se
deixando influenciar pelos pensamentos bordados nas almofadas dos seus
pais. Voc est argumentando que uma coisa frgil e rara  bela s porque
 frgil e rara. Mas isso  uma grande mentira, e voc sabe disso.
     -- Voc  uma pessoa difcil de se consolar -- o Augustus disse.
     -- O consolo superficial no  um consolo verdadeiro -- falei. --
Voc j foi uma flor rara e frgil. Voc se lembra disso.
     Ele ficou em silncio por um instante.
     -- Voc sabe como calar a minha boca, Hazel Grace.
     --  meu privilgio e minha responsabilidade -- retruquei. Antes
que o contato visual entre ns fosse interrompido, ele falou:
     -- Por falar nisso, foi mal eu ter evitado a sala de espera para o
embarque. A fila no McDonald's no estava to grande assim, na verdade;
eu s... s no quis ficar sentado l com todas aquelas pessoas olhando
para ns, e tal.
     -- Para mim, principalmente -- falei. Era provvel que ningum
desconfiasse de que o Gus j esteve doente algum dia, mas eu carregava a
minha doena do lado de fora, o que foi, em parte, o motivo pelo qual me
tornei uma pessoa caseira. -- Augustus Waters, criatura famosa por seu
carisma, fica constrangido ao se sentar ao lado de uma garota com um
cilindro de oxignio.
     -- No  constrangimento -- ele disse. --  que s vezes essas
pessoas me irritam. E no quero ficar irritado hoje.
     Um minuto depois, ele enfiou a mo no bolso e abriu a tampa do
mao de cigarros.
     Passados uns nove segundos, uma comissria de bordo loira correu at
a nossa fila e disse:
     -- Senhor, no  permitido fumar neste avio. Nem em qualquer
avio.
     -- Eu no fumo -- ele explicou, o cigarro danando na boca enquanto
falava.
     -- Mas...
     --  uma metfora -- expliquei. -- Ele coloca a coisa que mata entre
os dentes, mas no d a ela o poder de completar o servio.
     A comissria ficou desconcertada s por um segundo.
     -- Bem, essa metfora no ser permitida no voo de hoje -- ela disse.
     O Gus assentiu com a cabea e devolveu o cigarro ao mao.

                                    ***

Enfim taxiamos na pista e o piloto disse: Comissrios, preparar para a
decolagem, e foi ento que duas enormes turbinas a jato deram sinal de
vida e comeamos a acelerar.
     -- Essa  a sensao de estar num carro com voc -- falei, e ele
sorriu, mas continuou com o maxilar tensionado. Ento perguntei:
     -- Voc est bem? -- Ns estvamos ganhando velocidade quando,
de repente, a mo do Gus apertou o brao da cadeira. Ele arregalou os
olhos, eu coloquei a minha mo em cima da dele e repeti: -- Voc est
bem? -- Ele no disse nada, s olhou para mim com olhos esbugalhados.
Por fim, perguntei: -- Voc tem medo de avio?
     -- Daqui a pouco eu respondo.
     O nariz da aeronave embicou para o alto e decolamos. O Gus olhou
pela janela, vendo o planeta encolher abaixo de ns, e foi ento que senti a
mo dele relaxar sob a minha. Ele olhou para mim, depois para a janela, e
anunciou:
     -- Estamos voando.
     -- Voc nunca viajou de avio antes?
     Ele balanou a cabea negativamente.
     -- OLHE! -- exclamou, apontando para a janela.
     --  -- falei. -- , d para ver. Parece que estamos num avio.
     -- NUNCA NA HISTRIA DA HUMANIDADE SE VIU ALGO
ASSIM -- ele disse.
     O entusiasmo do Gus era fofo. No pude resistir e me inclinei para
dar um beijo na bochecha dele.
     -- S para voc saber, eu estou bem aqui -- mame disse. -- Sentada
do seu lado. Sua me. Que segurou sua mo quando voc deu seus
primeiros passos.
     --  coisa de amigo -- lembrei a ela, virando para beij-la no rosto.
     -- No pareceu to de amigo assim -- o Gus murmurou alto o
suficiente para que eu pudesse ouvir.
     Quando um Gus surpreso, empolgado e inocente emergiu do
Augustus Maravilhoso e Adepto de Metforas, no consegui resistir,
literalmente.

                                     ***

Aquele foi um voo curto para Detroit, onde o carrinho eltrico foi ao nosso
encontro quando desembarcamos e nos levou at o porto para Amsterd.
O segundo avio tinha telas de TV na parte de trs de cada encosto, e logo
que ultrapassamos o topo das nuvens, o Augustus e eu sincronizamos o
momento de comear a ver TV para assistirmos  mesma comdia
romntica, ao mesmo tempo, em nossas respectivas telas. Mas, mesmo
tendo sincronizado perfeitamente a hora de apertar o play, o filme dele
comeou alguns segundos antes do meu. Assim, a cada cena engraada,
ele ria quando eu ainda estava ouvindo o incio de qualquer que fosse a
piada.

                                     ***

Mame tinha planejado dormirmos as vrias horas que o voo ainda ia
durar, para que, quando aterrissssemos s oito da manh, j chegssemos
na cidade prontos para aproveit-la ao mximo, e tal. Ento, quando o
filme acabou, ns trs tomamos comprimidos para dormir. Mame
capotou depois de alguns segundos, mas o Augustus e eu ficamos
acordados olhando pela janela por algum tempo. O dia estava claro, e
mesmo que no desse para ver o sol se pondo, dava para perceber a reao
do cu a esse movimento.
     -- Cara, isso  lindo -- falei, mais para mim mesma.
     -- A luz do sol nascente forte demais em seus olhos que perecem --
ele disse, citando o Uma aflio imperial.
     -- Mas ele no est nascendo -- falei.
     -- Em algum lugar est -- ele retrucou, e logo depois disse: --
Observao: seria fantstico voar num avio ultrarrpido que conseguisse
perseguir o nascer do sol em torno do planeta por um tempo.
     -- Alm disso, eu viveria mais -- falei, e ele me olhou de esguelha. --
Voc sabe, por causa da relatividade, e tal. -- Ele ainda parecia confuso.
-- Ns envelhecemos mais devagar quando nos movemos mais depressa
em comparao a quando estamos parados. Assim, neste exato momento,
o tempo est passando mais devagar para ns do que para as pessoas no
solo.
     -- Gatas de faculdade -- ele falou. -- Elas so inteligentes demais.
     Revirei os olhos. Ele bateu o joelho (de verdade) no meu e eu reagi
fazendo a mesma coisa.
     -- Est com sono? -- perguntei.
     -- Nem um pouco.
     --  -- falei. -- Eu tambm no.
     Remdios para dormir e analgsicos no tinham em mim o mesmo
efeito que em pessoas normais.
     -- Quer ver outro filme? -- ele perguntou. -- Eles tm um da Natalie
Portman da fase Hazel dela.
     -- Quero ver alguma coisa que voc no tenha visto ainda.
     No fim, acabamos assistindo ao 300, um filme de guerra sobre
trezentos espartanos que protegem Esparta de um exrcito invasor com,
tipo, um bilho de persas. O filme do Augustus comeou de novo antes do
meu e, depois de alguns minutos ouvindo ele dizer: ,Droga! ou
,Finalizado! toda vez que algum era brutalmente assassinado, me inclinei
sobre o apoio para o brao e encostei a cabea no ombro dele para, de fato,
assistirmos ao filme juntos em apenas uma das telas.
     300 apresentava uma coleo respeitvel de jovens sem camisa,
musculosos e com leo no corpo, e por isso no era particularmente difcil
de ver, mas o que o filme mais mostrava era um monte de espadas
empunhadas sem um propsito legtimo. Os corpos de persas e espartanos
iam se acumulando e eu no consegui entender direito por que os persas
eram to do mal e os espartanos, to do bem. ,A contemporaneidade,
citando o UAI, ,se especializa no tipo de batalha no qual ningum perde
nada de valor, exceto, como se poderia argumentar, suas vidas. E era isso
o que acontecia com aqueles tits em batalha.
     Perto do fim do filme estavam quase todos mortos, e houve um
momento insano em que os espartanos comeam a empilhar os corpos
para formar uma parede de cadveres, que se transformou numa enorme
barreira separando os persas do caminho para Esparta. Achei aquela
carnificina um pouco gratuita, ento desviei o olhar da tela por um
segundo e perguntei ao Augustus:
     -- Quantas pessoas voc acha que morreram?
     Ele fez um gesto para eu calar a boca e disse:
     -- Shh. Shh.  agora que as coisas vo ficar interessantes.
     Quando os persas atacaram precisaram escalar a parede da morte, e os
espartanos conseguiram ocupar o topo da montanha de cadveres.
Conforme os corpos iam se acumulando, a parede de mrtires se tornava
ainda mais alta e, portanto, mais difcil de escalar. Todos brandiam as
espadas/atiravam flechas e rios de sangue corriam montanha da morte
abaixo etc.
     Afastei a cabea do ombro do Augustus por um instante para dar um
tempo daquelas cenas sanguinrias e observei-o assistindo ao filme. Ele
no pde conter o sorriso bobo. Olhei para a minha tela de canto de olho e
vi a montanha de corpos de persas e espartanos crescendo. Quando os
persas finalmente derrotaram os espartanos, olhei para o Augustus de
novo. Embora os bonzinhos tivessem acabado de perder a batalha, ele
parecia completamente satisfeito. Eu me aconcheguei a ele de novo, mas
mantive os olhos fechados at a guerra acabar.
     Enquanto rolavam os crditos, ele tirou os fones de ouvido e disse:
     -- Foi mal, eu estava submerso na nobreza do sacrifcio. O que voc
ia dizendo?
     -- Quantas pessoas acha que morreram?
     -- Tipo, quantas personagens fictcias morreram neste filme fictcio?
No o suficiente -- ele brincou.
     -- No, quer dizer, tipo, desde sempre. Tipo, quantas pessoas voc
acha que j morreram at hoje?
     -- Por acaso, eu sei a resposta para essa pergunta -- ele disse. -- H
sete bilhes de pessoas vivas no mundo, e mais ou menos noventa e oito
bilhes de mortos.
     -- Ah -- falei.
     Eu achava que porque o crescimento populacional tinha sido muito
acelerado, houvesse mais pessoas vivas do que todos os mortos juntos.
     -- H cerca de quatorze pessoas mortas para cada vivo -- ele disse.
     Os crditos continuaram rolando. Demorava muito para que todos os
cadveres fossem identificados, imagino. Minha cabea ainda estava
encostada no ombro dele.
      -- Pesquisei isso uns anos atrs -- o Augustus continuou. -- Eu
estava me perguntando se todo mundo poderia ser lembrado. Tipo, se ns
nos organizssemos, e designssemos uma determinada quantidade de
cadveres para cada vivo, ser que haveria pessoas vivas o suficiente para
se lembrar de todos os mortos?
     -- E h?
     -- Claro. Qualquer um pode listar quatorze mortos. Mas ns somos
uns pranteadores muito desorganizados, por isso acaba que muitas pessoas
se lembram de Shakespeare e ningum nem pensa na pessoa para quem
ele escreveu o soneto cinquenta e cinco.
     --  -- falei.
     Fiquei em silncio por um minuto, e a ele perguntou:
     -- Voc quer ler ou alguma coisa assim?
     Respondi que sim. Comecei a ler um poema chamado Uivo, de Allen
Ginsberg, para minha aula de poesia, e o Gus pegou para reler o Uma
aflio imperial.
     Depois de um tempo, ele falou:
      --  bom?
     -- O poema? -- perguntei.
     -- .
     -- .  muito bom. Os caras nesse poema tomam mais drogas que eu.
Como est o UAI?
     -- Ainda perfeito -- ele respondeu. -- Recite para mim.
     -- Esse no  bem o tipo de poesia para voc ler em voz alta com a
me dormindo ao lado. Tem, tipo, sodomia e p de anjo -- falei.
     -- Voc acabou de mencionar dois dos meus passatempos favoritos --
ele disse.
     -- T, ento recite alguma outra coisa para mim.
     -- Humm -- falei. -- Eu no tenho mais nada.
     -- Que pena. Estou seco por uma poesia. Voc sabe alguma de cor?
      -- ,Sigamos ento, tu e eu -- comecei, meio nervosa. -- ,Enquanto
o poente, no cu se estende / Como um paciente anestesiado sobre a
mesa.
     -- Mais devagar -- ele pediu.
     Eu fiquei com um pouco de vergonha, como quando contei a ele
sobre o Uma aflio imperial.
     -- Ah, t. T. ,Sigamos por certas ruas quase ermas, / Atravs dos
sussurrantes refgios / De noites indormidas em hotis baratos, / Ao lado
de botequins onde a serragem / s conchas das ostras se entrelaa: / Ruas
que se alongam como um tedioso argumento / Cujo insidioso intento / 
atrair-te a uma angustiante questo... / Oh, no perguntes: `Qual?' /
Sigamos a cumprir nossa visita.
     -- Estou apaixonado por voc -- ele disse, baixinho.
     -- Augustus -- falei.
      -- Eu estou -- ele disse, me encarando, e pude ver os cantos dos
seus olhos se enrugando. -- Estou apaixonado por voc e no quero me
negar o simples prazer de compartilhar algo verdadeiro. Estou apaixonado
por voc, e sei que o amor  apenas um grito no vcuo, e que o
esquecimento  inevitvel, e que estamos todos condenados ao fim, e que
haver um dia em que tudo o que fizemos voltar ao p, e sei que o sol vai
engolir a nica Terra que podemos chamar de nossa, e eu estou
apaixonado por voc.
     -- Augustus -- repeti, sem saber mais o que dizer.
     Senti como se tudo estivesse crescendo dentro de mim, como se eu
me afogasse numa alegria estranhamente dolorosa, mas no consegui dizer
aquilo de volta. No consegui falar nada. S olhei para ele e deixei que
olhasse para mim, at que ele assentiu, comprimiu os lbios, virou para o
outro lado e encostou a cabea na janela.
CAPTULO ONZE



A
         cho que ele deve ter acabado dormindo. Eu peguei no sono, e
         acordei com o barulho do trem de pouso sendo baixado. Estava
         com um gosto horrvel na boca, por isso tentei mant-la fechada
com medo de intoxicar o avio inteiro. Virei para o Augustus, que olhava
pela janela, e enquanto mergulhvamos atravs de um bloco de nuvens
baixas endireitei as costas para ver a Holanda. A terra parecia afundada no
oceano, pequenos retngulos de verde rodeados de canais por todos os
lados. Na verdade, ns aterrissamos numa pista paralela a um canal, como
se houvesse duas delas: uma para ns e outra para as aves aquticas.
     Depois de pegar nossa bagagem e passar pela alfndega, nos
amontoamos num txi dirigido por um homem careca e rechonchudo que
falava ingls perfeitamente -- tipo, melhor que eu.
     -- Hotel Filosoof? -- falei.
     E ele perguntou:
     -- Vocs so americanos?
     -- Sim -- mame respondeu. -- Somos de Indiana.
     -- Indiana -- ele falou. -- Eles roubam a terra dos ndios e deixam o
nome, ?
     -- Mais ou menos isso -- mame respondeu.
     O taxista se embrenhou pelo trfego e seguimos em direo a uma
estrada que continha vrias placas azuis com palavras de vogais dobradas:
Oosthuizen, Haarlem. Ao lado, uma plancie desocupada se estendia por
vrios quilmetros, interrompida por uma ou outra sede gigantesca de
alguma empresa. Resumindo, a Holanda se parecia com Indianpolis, s
que com carros menores.
     -- Isso aqui  Amsterd? -- perguntei ao motorista de txi.
     -- Sim e no -- ele respondeu. -- Amsterd  como os anis de uma
rvore: fica mais velha conforme voc vai chegando perto do centro.
     Aconteceu tudo de repente: samos da estrada e vimos as casas
geminadas da minha imaginao repousando precariamente sobre os
canais, bicicletas onipresentes, e cafs anunciando: SALO DE FUMO.
O txi passou por cima de um canal e eu pude ver, do alto da ponte, vrias
casas flutuantes atracadas. No se parecia em nada com os Estados
Unidos da Amrica. Parecia uma pintura antiga, s que real -- tudo
dolorosamente idlico  luz da manh --, e eu pensei em como seria
maravilhosamente estranho morar num lugar onde quase tudo havia sido
construdo por pessoas mortas.
     -- Essas casas so muito antigas? -- perguntou minha me.
     -- Muitas das casas do canal datam da Idade de Ouro, o sculo
dezessete -- ele disse. -- Nossa cidade tem uma histria riqussima,
embora muitos turistas s queiram ver o Bairro da Luz Vermelha. -- Ele
fez uma pausa.
     -- Alguns turistas acham que Amsterd  a cidade do pecado, mas a
verdade  que ela  a cidade da liberdade. E  na liberdade que a maioria
das pessoas encontra o pecado.

                                    ***

Todos os quartos do Hotel Filosoof haviam sido batizados em homenagem
a filsofos: mame e eu ficamos no trreo, no Kierkegaard; o Augustus
estava um andar acima, no Heidegger. Nosso quarto era pequeno: uma
cama de casal encostada numa das paredes com a minha mquina BiPAP,
um concentrador de oxignio e vrios cilindros recarregveis ao p da
cama. Passado o equipamento, havia uma cadeira Paisley velha e
empoeirada com o assento afundado, uma mesa e uma prateleira acima da
cama contendo a coleo completa dos livros de Sren Kierkegaard. Na
mesa encontramos uma cesta de vime cheia de presentes enviados pelos
Gnios: tamancos de madeira, uma camiseta cor de laranja da Holanda,
chocolates e vrios outros itens.
     O Filosoof ficava ao lado do Vondelpark, o parque mais famoso de
Amsterd. Mame quis sair para passear, mas eu estava supercansada,
ento ela colocou o BiPAP para funcionar e ajeitou a mscara em mim. Eu
odiava falar com aquela coisa no nariz, mas:
    -- V passear no parque que eu ligo para voc quando acordar.
    -- Est bem -- ela disse. -- Durma bem, querida.

                                    ***

Mas, quando acordei algumas horas depois, ela estava sentada na velha
cadeira no canto, lendo um guia turstico.
     -- Bom dia -- eu disse.
     -- Na verdade,  fim de tarde -- ela comentou, levantando da cadeira
com um suspiro. Andou at a cama, colocou um cilindro no carrinho e o
conectou ao tubo enquanto eu tirava a mscara do BiPAP do rosto e
inseria o cateter no nariz. Ela programou o cilindro para 2,5 litros por
minuto, seis horas at que eu precisasse que ele fosse trocado, e s a
levantei. -- Como est se sentindo? -- ela perguntou.
     -- Bem -- respondi. -- tima. Como foi l no Vondelpark?
     -- No cheguei a ir -- respondeu. -- Mas li tudo sobre ele no guia
turstico.
     -- Me -- falei --, voc no precisava ter ficado aqui. Ela deu de
ombros.
     -- Sei disso. Mas eu quis ficar. Gosto de ver voc dormindo.
     -- Disse a criatura manaco-obsessiva. -- Ela riu, mas ainda assim me
senti mal. -- S quero que voc se divirta, sabe?
     -- Est bem. Vou me divertir hoje  noite, combinado? Vou cometer
loucuras por a enquanto voc e o Augustus saem para jantar.
     -- Sem voc? -- perguntei.
     -- . Sem mim. Para falar a verdade, vocs j tm uma reserva num
lugar chamado Oranjee -- ela disse. -- A assistente do Sr. Van Houten
organizou tudo. O restaurante fica num bairro chamado Jordaan. Muito
chique, segundo o guia turstico. H uma estao de bonde logo depois da
curva. O Augustus tem as instrues de como chegar l. Vocs podem
comer ao ar livre e ver os barcos passando. Vai ser um programa adorvel.
Bastante romntico.
     -- Me.
     -- S estou falando -- ela disse. -- Voc deveria se arrumar. O
vestido de alcinha, talvez?
     A insanidade daquela situao seria de deixar qualquer um
embasbacado: a me manda a filha de dezesseis anos sozinha com um
garoto de dezessete para um programa numa cidade estrangeira famosa por
sua permissividade. Mas isso, tambm, era um efeito colateral de se estar
morrendo: eu no podia correr nem danar nem comer alimentos ricos em
nitrognio, mas na cidade da liberdade eu estava entre os residentes mais
liberados de l. Usei mesmo o vestido de alcinha -- um modelo azul com
estampa floral e que ia at o joelho, da Forever 21 -- com meia-cala e
sapatos boneca, porque eu gostava de ser bem mais baixa que ele. Entrei
no banheiro ridiculamente pequeno e lutei com meus cabelos
despenteados durante algum tempo at que tudo parecesse o mais
prximo possvel com a Natalie Portman de 2005, 2006. s seis da tarde
em ponto (meio-dia em casa), houve uma batida  porta.
     -- Oi? -- eu disse, sem abrir. No havia olho-mgico no Hotel
Filosoof.
     -- O.k. -- respondeu o Augustus.
     Pelo som da voz dele deu para perceber que estava com o cigarro na
boca. Dei uma olhada em mim. O vestido de alcinha deixava  mostra
muito mais do que o que o Augustus j tinha visto da minha caixa torcica
e das minhas clavculas. No era obsceno nem nada, mas era o mais perto
que eu havia chegado de mostrar a pele na minha vida inteira.
     (Minha me tinha um lema com o qual eu concordava: ,Lancaster que
 Lancaster no anda por a de barriga de fora.)
     Abri a porta. O Augustus estava de terno preto, as lapelas estreitas, o
caimento perfeito, com uma camisa social azul-clara e uma gravata-
borboleta fina. O cigarro pendia do canto da boca.
     -- Hazel Grace -- ele disse --, voc est linda.
     -- Eu -- falei. Fiquei achando que o resto da frase surgiria s por ter
ar passando pelas minhas cordas vocais, mas nada aconteceu. Por fim,
acabei dizendo: -- Estou me sentindo malvestida.
     -- Ah, essa coisa velha? -- ele falou, sorrindo para mim.
     -- Augustus -- minha me disse atrs de mim --, voc est
extremamente bonito.
     -- Obrigado, senhora -- ele disse, me oferecendo o brao.
     Apoiei a mo nele e olhei para trs, para a mame.
     -- Vejo vocs s onze -- ela disse.
     Esperando pelo bonde nmero um numa larga avenida com trfego
intenso, falei para o Augustus:
     -- Esse  o terno que voc usa em enterros?
     -- Na verdade, no -- ele disse. -- O outro no  nem de longe to
bonito.
     O bonde azul e branco chegou e o Augustus entregou nossos cartes
para o motorista, que explicou que precisvamos pass-los por cima de um
sensor circular. Enquanto atravessvamos o bonde lotado, um senhor se
levantou para podermos sentar juntos e eu tentei dizer para ele continuar
sentado, mas o homem fez um gesto insistente em direo ao assento.
Andamos de bonde por trs paradas, eu me apoiando no Gus para que
pudssemos olhar pela janela ao mesmo tempo.
     O Augustus apontou para o alto, para as rvores, e perguntou:
     -- Viu aquilo?
     Eu vi. Havia olmos por todo lado pelos canais, e algumas sementes
estavam sendo carregadas pelo vento. Mas no pareciam sementes.
Pareciam, precisamente, ptalas de rosa descoloridas e em miniatura.
Essas ptalas claras se juntavam no vento como pssaros voando em bando
-- milhares deles, como uma tempestade de neve na primavera.
     O senhor que nos deu o lugar reparou que estvamos observando
aquilo e disse, em ingls:
     --  primavera em Amsterd. Os iepen jogam confete para dar as
boas-vindas  primavera. Trocamos de bonde e depois de quatro outras
paradas chegamos a uma rua dividida por um lindo canal, os reflexos da
antiga ponte e das pitorescas casas do canal ondulando na gua.
     O Oranjee ficava a alguns passos. O restaurante era num lado da rua
e as mesas ao ar livre, no outro, em cima de uma extenso de concreto
bem  margem do canal. Os olhos da recepcionista brilharam quando o
Augustus e eu andamos na direo dela.
     -- Sr. e Sra. Waters?
     -- Pois no? -- falei.
     -- Sua mesa -- ela disse, apontando para o outro lado da rua, para
uma mesinha a alguns centmetros do canal. -- O champanhe  cortesia
da casa.
     O Gus e eu nos entreolhamos, sorrindo. Depois que atravessamos, ele
puxou a cadeira para mim e me ajudou a chegar para a frente com ela. De
fato havia duas taas de champanhe na mesa coberta por uma toalha
branca. O leve frescor no ar era magnificamente contrabalanado pelo
calor da luz do sol; de um lado, ciclistas passavam pedalando -- homens e
mulheres bem-vestidos voltando do trabalho a caminho de casa, loiras
inacreditavelmente atraentes sentadas de lado na garupa da bicicleta de
alguma amiga, crianas bem pequenas de capacete sacolejando em
cadeirinhas de plstico atrs de seus pais. E, do outro lado, a gua do canal
saturada pelos milhes de sementes-confete. Pequenos barcos estavam
atracados aos muros de tijolos, com gua da chuva at a metade, alguns
quase naufragando. Um pouco mais adiante dava para ver casas flutuantes
em pontes e, no meio do canal, um barco com o fundo plano, todo
aberto, repleto de espreguiadeiras e com um aparelho de som porttil
vinha na nossa direo. O Augustus ergueu a taa de champanhe. Ergui a
minha, mesmo sem nunca ter bebido nada alcolico -- fora as vezes que
dei umas bicadinhas na cerveja do meu pai.
     -- O.k. -- ele disse.
     -- O.k. -- falei, e fizemos tintim com as taas. Tomei um gole. As
bolinhas se desmancharam na minha boca e viajaram em direo ao norte,
para dentro da cabea. Doce. Frisante. Delicioso.
     -- Isso  muito bom -- falei. -- Nunca tinha bebido champanhe.
     Um jovem garom, os cabelos loiros e ondulados, apareceu. Acho que
era ainda mais alto que o Augustus.
     -- Vocs sabem o que Dom Prignon disse depois de inventar o
champanhe? -- ele perguntou com um sotaque delicioso.
      -- No? -- falei.
      -- Ele chamou os outros monges e disse: ,Venham depressa! Estou
bebendo estrelas. Bem-vindos a Amsterd. Vocs gostariam de olhar o
cardpio ou preferem a sugesto do chef?
      Olhei para o Augustus e ele, para mim.
      -- A sugesto do chef parece tima, mas a Hazel  vegetariana.
      Eu s havia falado disso com o Augustus uma vez, no dia em que nos
conhecemos.
      -- Isso no  problema -- disse o garom.
      -- Beleza. E ser que poderamos tomar um pouco mais disso? -- o
Gus perguntou, falando do champanhe.
      -- Claro -- respondeu nosso garom. -- Ns engarrafamos todas as
estrelas esta noite, jovens amigos. Ai, esse confete! -- ele falou e deu uma
espanada de leve numa semente que havia pousado no meu ombro nu. --
H tempos no caam tantos assim. Esto em todo lugar. Isso  muito
irritante.
      O garom desapareceu. Ficamos olhando o confete caindo do cu,
rolando pelo cho com a brisa e terminando no canal.
      --  meio difcil de acreditar que algum possa achar isso irritante --
o Augustus disse depois de um tempo.
      -- As pessoas sempre acabam ficando insensveis  beleza.
      -- Eu ainda no fiquei insensvel a voc -- ele retrucou, sorrindo.
Fiquei vermelha. -- Obrigado por vir a Amsterd.
      -- Obrigada por me deixar sequestrar seu desejo -- falei.
      -- Obrigado por usar esse vestido que , tipo, ,uau.
      Balancei a cabea, tentando no sorrir. Eu no queria ser uma
granada. Mas, para falar a verdade, ele sabia o que estava fazendo, no
sabia? Era uma questo de escolha para ele tambm.
      -- Ei, como termina aquele poema? -- ele perguntou.
      -- Hein?
      -- Aquele que voc recitou para mim no avio.
      -- Ah, o ,Prufrock? Acaba assim: ,Tardamos nas cmaras do mar /
Junto s ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas / At sermos
acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.
     O Augustus tirou um cigarro do mao e bateu com o filtro na mesa.
     -- Essas estpidas vozes humanas sempre estragando tudo.
     O garom chegou com mais duas taas de champanhe e com o que
chamou de ,Aspargos brancos belgas com infuso de lavanda.
     -- Eu tambm nunca tinha bebido champanhe -- o Gus disse depois
que o garom se afastou. -- Caso voc tenha ficado se perguntando isso, e
tal. E tambm nunca tinha comido aspargos brancos.
     Eu estava no meio da primeira garfada.
     --  fantstico -- garanti.
     Ele deu uma garfada, engoliu.
     -- Cus. Se os aspargos tivessem sempre esse gosto eu tambm seria
vegetariano.
     Algumas pessoas num barco de madeira envernizada se aproximaram
l embaixo no canal. Uma delas, uma loira de cabelos cacheados, com uns
trinta anos, talvez, ergueu seu copo de cerveja na nossa direo e gritou
algo.
     -- Ns no falamos holands -- o Gus gritou para ela.
     Uma das outras gritou uma traduo:
     -- O casal bonito  bonito.

                                    ***

A comida era to boa que a cada prato nossa conversa recaa em mais
exaltaes fragmentadas daquela deliciosidade: ,Eu quero que esse risoto
de cenoura roxa se transforme numa pessoa para que eu possa lev-la at
Las Vegas e me casar com ela. ,Sorbet de ervilha-de-cheiro, voc  to
surpreendentemente magnfico. Queria estar com mais fome.
     Depois do nhoque de alho verde com folhas de mostarda vermelha, o
garom disse:
     -- A sobremesa j est a caminho. Gostariam de beber mais estrelas
antes?
     Balancei a cabea negativamente. Duas taas eram o bastante para
mim. O champanhe no era exceo  minha alta resistncia a calmantes e
analgsicos; eu estava alegre, mas no bbada. E nem pretendia ficar.
Noites como aquela no aconteciam com frequncia, e eu queria me
lembrar dela.
     -- Humm -- falei depois que o garom saiu, e o Augustus deu aquele
sorriso torto, olhando para um lado do canal enquanto eu olhava para o
outro.
     Ns tnhamos muito o que ver, e por isso aquele silncio no era
estranho, de verdade, mas eu queria que tudo fosse perfeito. E era
perfeito, acho, s que dava a impresso de que algum tinha tentado
encenar a Amsterd da minha imaginao, o que tornou mais difcil
esquecer que aquele jantar, assim como a viagem em si, eram um
Privilgio do Cncer. Eu s queria que ficssemos conversando e rindo
confortavelmente, como fazamos no sof l em casa, mas alguma tenso
permeava aquilo tudo.
     -- No  o terno que eu uso em enterros -- ele disse aps alguns
minutos. -- Quando descobri que estava doente, eles me disseram que
minha chance de cura era de oitenta e cinco por cento. Sei que essa  uma
probabilidade favorvel, mas no pude deixar de pensar que estava numa
roleta-russa. Quer dizer, eu teria que passar o maior sufoco por um tempo,
de seis meses a um ano, e perder minha perna, e, no fim, aquilo ainda
assim poderia no funcionar, sabe?
     -- Sei -- falei, mesmo no sabendo.
     No de verdade. Eu nunca fui outra coisa a no ser uma paciente
terminal; todo o meu tratamento tinha como objetivo estender a minha
vida, e no curar o cncer. O Falanxifor havia introduzido um grau de
ambiguidade  histria, mas eu era diferente do Augustus: meu captulo
final foi escrito no momento do diagnstico. O Gus, como a maioria dos
sobreviventes do cncer, vivia na incerteza.
     -- Certo -- ele disse. -- Ento passei por todo um processo de querer
estar preparado. Compramos um lote em Crown Hill, e eu fui l um dia
com meu pai e escolhi um local. Planejei todo o meu enterro e tudo mais,
e ento, logo antes da cirurgia, perguntei a meus pais se poderia comprar
um terno, tipo, um terno dos bons, s para o caso de eu bater as botas. No
fim das contas, nunca tive oportunidade de us-lo. At hoje.
    -- Ento este  o seu terno morturio.
    -- Exatamente. Voc no tem uma roupa para o seu enterro?
    -- Tenho -- respondi. --  um vestido que comprei para o meu
aniversrio de quinze anos. Mas no uso esse vestido em encontros
romnticos.
    Os olhos dele brilharam.
    -- Ns estamos num encontro romntico?
    Olhei para o cho, envergonhada.
    -- No force a barra.

                                    ***

Ambos estvamos totalmente satisfeitos, mas a sobremesa -- um opulento
e suculento cremeaux rodeado de maracuj -- era boa demais para no
provarmos pelo menos um pouquinho, ento protelamos o pedido por um
tempo, tentando ficar com fome de novo. O sol era uma criana pequena
se recusando terminantemente a ir para a cama: j eram mais de oito e
meia da noite e o cu ainda estava claro.
     Do nada, o Augustus perguntou:
     -- Voc acredita em vida aps a morte?
     -- Eu acho que a eternidade  um conceito errneo -- respondi. Ele
sorriu de um jeito afetado.
     -- Voc  um conceito errneo.
     -- Eu sei. E  por isso que estou sendo retirada da rotao.
     -- Isso no  engraado -- ele disse, olhando para a rua.
     Duas meninas passaram numa bicicleta, uma sentada de lado em
cima da roda traseira, de carona.
     -- Pera -- falei. -- Eu s estava brincando.
     -- No tem a menor graa para mim imaginar voc sendo retirada da
rotao -- ele disse. -- Agora, srio: e a vida aps a morte?
     -- No -- falei, e depois me corrigi. -- Bem, para falar a verdade, eu
no diria um ,no to categrico assim, talvez. E voc?
     -- Eu acredito -- ele disse, confiante. -- Acredito, com certeza. No
num paraso onde voc anda de unicrnio, toca harpa e vive numa manso
feita de nuvem. Mas, sim, eu acredito em Algo com A maisculo. Sempre
acreditei.
     -- Srio? -- perguntei.
      Aquilo me surpreendeu. Eu sempre relacionei a crena no paraso
com, sendo bem sincera, um tipo de limitao intelectual. Mas o Gus no
era burro.
     --  -- ele respondeu baixinho. -- Eu acredito naquela frase de Uma
aflio imperial. ,A luz do sol nascente forte demais em seus olhos que
perecem. Acho que o sol nascente  Deus, e a luz do sol  muito forte e
os olhos dela esto perecendo, mas no esto perdidos. Eu no acredito
que retornamos para assombrar ou consolar os vivos nem nada, mas acho
que nos transformamos em alguma coisa.
     -- Mas voc tem medo do esquecimento.
     -- Sim, eu tenho medo do esquecimento terreno. Mas, quer dizer,
no quero parecer meu pai nem minha me falando, mas acredito que os
seres humanos tm alma, e acredito na manuteno da alma. O medo do
esquecimento  outra coisa, o medo de no ser capaz de dar a minha vida
em troca de nada. Se voc no vive uma vida a servio de um bem maior,
precisa pelo menos morrer uma morte a servio de um bem maior, sabe? E
eu tenho medo de no ter nem uma vida nem uma morte que signifique
alguma coisa.
     Eu balancei a cabea.
     -- O que foi? -- ele perguntou.
     -- A sua obsesso por, tipo, morrer por alguma coisa, ou por deixar
para trs algum smbolo memorvel do seu herosmo, e tal.  estranho.
     -- Todo mundo quer ter uma vida extraordinria.
     -- Nem todo mundo -- falei, sem conseguir disfarar minha irritao.
     -- Ficou chateada?
     --  s que -- falei, mas no consegui terminar a frase. -- S que --
falei de novo. Entre ns dois, a luz de uma vela tremulava. --  muita
maldade sua dizer que as nicas vidas que importam so aquelas vividas
por alguma coisa ou mortas por alguma coisa.  muita maldade dizer uma
coisa dessas para mim.
     Por algum motivo me senti como uma criancinha, e dei uma colherada
na sobremesa para fazer parecer que aquilo no tinha tanta importncia
assim.
     -- Foi mal -- ele disse. -- No foi a minha inteno. Eu s estava
pensando em mim mesmo.
     -- , estava -- falei.
     No dava para terminar de comer a sobremesa. Meu estmago estava
cheio demais. Fiquei com medo de vomitar, na verdade, porque de vez em
quando eu vomitava depois de comer. (Nada a ver com bulimia, s
cncer.) Empurrei o prato de sobremesa na direo do Gus, mas ele
sacudiu a cabea.
     -- Foi mal -- falou de novo, esticando o brao sobre a mesa para
pegar a minha mo.
     Deixei que ele a pegasse.
     -- Eu poderia ser pior, sabe?
     -- Como? -- perguntei, em tom de desafio.
     -- Quer dizer, eu tenho uma frase escrita  mo acima da minha
privada que diz: ,Banhe-se Diariamente no Consolo das Palavras de Deus,
Hazel. Eu poderia ser muito pior.
      -- Isso no parece nada higinico -- falei.
     -- Eu poderia ser pior.
     -- Voc poderia ser pior. -- Sorri.
     Ele gostava mesmo de mim. Talvez eu fosse um pouco narcisista, e
tal, mas quando percebi isso naquele momento no Oranjee, passei a gostar
mais ainda dele.
     Quando nosso garom apareceu para levar os pratos de sobremesa,
anunciou:
     -- Sua refeio foi paga pelo Sr. Peter Van Houten.
     O Augustus sorriu.
    -- Esse tal de Peter Van Houten no  to mau assim.

                                     ***

Andvamos pela margem do canal quando comeou a escurecer. 
distncia de um quarteiro do Oranjee, paramos num banco de praa
rodeado de bicicletas velhas e enferrujadas presas com cadeado a racks e
umas s outras. Ns nos sentamos lado a lado, os quadris encostados, de
frente para o canal, e ele colocou o brao nos meus ombros.
     Dava para ver a luminosidade vinda do Bairro da Luz Vermelha.
Mesmo sendo o Bairro da Luz Vermelha, o brilho que vinha de l tinha um
misterioso tom de verde. Imaginei milhares de turistas se embebedando,
se drogando e passando de mo em mo por aquelas ruas estreitas.
     -- Nem acredito que ele vai nos contar tudo amanh -- falei. --
Peter Van Houten vai nos contar o famoso fim no publicado do melhor
livro do mundo.
      -- Alm de ter pago o nosso jantar -- o Augustus disse.
     -- Fico fantasiando que ele vai nos revistar  procura de gravadores
antes de nos contar. E a vai se sentar no meio de ns no sof da sala de
estar dele e sussurrar a resposta para a pergunta que fiz sobre a me da
Anna ter se casado ou no com o Homem das Tulipas Holands.
     -- No se esquea do Ssifo, o hamster -- o Augusto acrescentou.
     -- Certo, e tambm,  claro, sobre que destino aguardou Ssifo, o
hamster. -- Eu me inclinei para a frente, para olhar a gua do canal. Havia
uma quantidade exagerada daquelas ptalas de olmo desbotadas. -- Uma
continuao que s vai existir para ns -- falei.
     -- Qual  o seu palpite? -- ele perguntou.
     -- No sei. De verdade. J pensei nisso tudo, de trs para a frente e
da frente para trs, umas mil vezes. Cada vez que releio o livro, penso
diferente, sabe?
     Ele assentiu com a cabea.
     -- Voc tem uma teoria? -- perguntei.
     -- Tenho. Eu no acho que o Homem das Tulipas Holands seja
vigarista, mas tambm no  rico como as faz acreditar. E acho que depois
que a Anna morre, a me vai para a Holanda com ele pensando que vo
morar l para sempre, mas no d certo, porque ela quer ficar perto de
onde a filha viveu.
     Eu no tinha me dado conta de que ele pensava tanto assim no livro,
que o Gus se importava com o Uma aflio imperial independentemente
de se importar comigo.
     A gua banhava silenciosa os muros de pedra do canal abaixo de ns;
um grupo de amigos passou em bando, de bicicleta, gritando uns para os
outros num holands gutural e acelerado; os barquinhos, pouco maiores
que eu, estavam metade submersos no canal; o cheiro de gua muito
parada por muito tempo; o brao dele me puxando para perto; a perna de
verdade dele encostando na minha perna de verdade do quadril at o p.
Cheguei um pouco mais perto do corpo dele. Ele se retraiu.
     -- Foi mal. Voc est bem?
     Ele murmurou um sim em resposta, claramente sentindo alguma dor.
     -- Foi mal -- falei de novo. -- Ombro ossudo.
     -- Est tudo bem -- ele disse. -- Lindo, na verdade.
     Ficamos sentados ali por um bom tempo. A mo dele acabou
abandonando meu ombro e pousou no encosto do banco de praa.
Basicamente ns s olhvamos fixamente para o canal. Eu estava
pensando bastante a respeito de como tinham feito aquele lugar existir
mesmo devendo estar submerso, e em como eu era, para a Dra. Maria, um
tipo de Amsterd, uma anomalia parcialmente submersa, e aquilo me fez
pensar na morte.
     -- Posso fazer uma pergunta sobre a Caroline Mathers?
     -- E voc ainda diz que no existe vida aps a morte -- ele respondeu
sem olhar para mim. -- Mas pode, claro. O que voc quer saber?
     Eu queria saber se ele ficaria bem se eu morresse. Queria no ser uma
granada, no ser uma fora malvola nas vidas das pessoas que eu amava.
     -- S, tipo, o que aconteceu.
     Ele suspirou, soltando o ar por tanto tempo que, para os meus
pulmes de araque, parecia que ele estava se gabando. E colocou um
cigarro novo na boca.
     -- Voc sabe que no h no mundo lugar menos frequentado que o
playground de um hospital, no sabe?
     Eu fiz que sim com a cabea.
     -- Bem, eu passei algumas semanas no Memorial quando eles
amputaram a minha perna, e tal. Fiquei internado no quinto andar e meu
quarto dava vista para o playground, que obviamente ficava sempre em
total abandono. Eu estava submerso na ressonncia metafrica do
playground vazio no ptio do hospital. Mas a uma garota comeou a
aparecer todos os dias ali, sozinha. Sentava no balano e se balanava, sem
ningum por perto, como numa cena de filme. Ento eu pedi para uma
das minhas enfermeiras mais legais me contar o que sabia sobre ela, e a
mulher a levou l em cima para uma visita, e era a Caroline, e eu usei o
meu carisma imenso para conquist-la.
     O Gus fez uma pausa, ento resolvi dizer alguma coisa.
     -- Voc no  to carismtico assim.
     Ele fez pouco caso, duvidando da veracidade do meu comentrio.
     -- Voc  basicamente s gato -- expliquei.
     Ele riu disso.
     -- O problema com os mortos -- disse, e ento parou. -- O problema
 que voc acaba sendo considerado um crpula se no romantizar os
mortos, mas a verdade ... complicada, acho. Tipo, voc est familiarizada
com a imagem da vtima de cncer estoica e determinada que luta
heroicamente contra a doena com uma fora sobre-humana e nunca
reclama nem para de sorrir, nem mesmo em seus ltimos instantes de
vida, etcetera?
     -- Se estou -- falei. -- So aquelas almas bondosas e generosas cujos
gestos so uma Inspirao para Todos Ns. Elas so to fortes! Ns as
admiramos tanto!
     -- Certo, mas na verdade, quer dizer, alm de ns dois, obviamente,
as crianas com cncer no so estatisticamente mais propensas a serem
incrveis, nem compassivas, nem perseverantes, nem nada. A Caroline
estava sempre de mau humor e infeliz, mas eu gostava daquilo. Gostava de
achar que a Caroline tinha me escolhido como a nica pessoa no mundo
que no ia odiar, e assim ns passvamos o tempo todo juntos tirando sarro
com a cara dos outros, sabe? Zombando das enfermeiras, das outras
crianas, das nossas famlias e de quem quer que fosse. Mas no sei se
isso era ela ou o tumor. Quer dizer, uma das enfermeiras dela me disse,
certa vez, que o tipo de tumor que a Caroline tinha  conhecido entre os
mdicos como o Tumor dos Imbecis, porque ele simplesmente transforma
a pessoa num monstro. Ento l estava aquela menina sem um quinto do
crebro e que acabara de ter uma recorrncia do Tumor dos Imbecis, e ela
no era o prottipo do herosmo estoico da criana com cncer. Ela era...
Quer dizer, para ser honesto, ela era uma megera. Mas no d para dizer
isso, porque ela carregava aquele tumor e tambm porque ela est, quer
dizer, ela est morta. Ela tinha vrios motivos para ser desagradvel, sabe?
     Eu sabia.
     -- Voc se lembra daquela parte do Uma aflio imperial quando a
Anna est atravessando o campo de futebol para ir para a aula de educao
fsica, e tal, e cai de cara na grama, e  assim que ela sabe que o cncer
voltou e que est no seu sistema nervoso, e ela no consegue se levantar, e
a cara dela est a, tipo, dois centmetros da grama do campo de futebol, e
ela simplesmente fica ali imvel olhando para a grama to prxima,
analisando a forma como a luz incide sobre ela e... Eu no me lembro
direito da frase, mas  algo que diz que a Anna tem uma epifania
whitmanesca e, com isso, define a humanidade como a oportunidade de se
maravilhar com a grandiosidade da criao, e tal. Voc se lembra dessa
parte?
     -- Eu me lembro dessa parte -- falei.
     -- Ento, depois, quando eu estava sendo estripado pela
quimioterapia, por algum motivo resolvi ficar esperanoso de verdade. No
quanto  sobrevivncia, especificamente, mas eu me senti como a Anna se
sente no livro, aquela sensao de empolgao e gratido por
simplesmente ser capaz de se maravilhar com tudo.
     ,Mas, nesse meio tempo, a Caroline foi ficando pior a cada dia. Ela
teve alta depois de um perodo e houve momentos em que achei que
poderamos ter, tipo, um relacionamento normal, mas no podamos, na
verdade, porque ela no possua qualquer mecanismo de filtragem entre
pensamento e fala, o que era triste, desagradvel e muitas vezes doloroso.
Mas, quer dizer, no se pode terminar o namoro com uma menina que
sofre de cncer cerebral. Os pais dela gostavam de mim, e ela tinha um
irmo menor que  uma criana muito maneira. Quer dizer, como eu
poderia terminar o namoro? Ela estava morrendo.
     ,Demorou muito. Levou quase um ano, e foi um ano durante o qual
eu convivi com uma garota que, tipo, do nada comeava a rir, apontando
para a minha prtese e me chamando de perneta.
     -- No -- falei.
     -- . Quer dizer, era o tumor. Ele se alimentava do crebro dela,
sabe? Ou ento no era o tumor. No tenho como saber porque ela e o
tumor no podiam ser desassociados. Mas conforme ela foi ficando mais
doente, quer dizer, ela sempre repetia as mesmas histrias e ria dos
prprios comentrios, mesmo que j tivesse falado a mesma coisa umas
cem vezes naquele dia. Tipo, ela repetiu a mesma brincadeira durante
vrias semanas: ,O Gus tem pernas lindas. Quer dizer, perna. E a ria
enlouquecidamente.
     -- Ah, Gus -- falei. -- Isso ...
     Eu no sabia o que dizer. Ele no estava olhando para mim, e tive a
sensao de que ia invadir sua privacidade se o encarasse. Senti o corpo
dele chegar para a frente. O Gus tirou o cigarro da boca e olhou para ele,
rolando-o com o polegar e o indicador, e ento levou-o de volta  boca.
     -- Bem -- ele disse --, para falar a verdade, eu tenho mesmo uma
perna linda.
     -- Sinto muito -- falei. -- Sinto mesmo.
     -- Est tudo bem, Hazel Grace. Mas, s para esclarecer, quando eu
achei que tinha visto o fantasma de Caroline Mathers no Grupo de Apoio,
no fiquei de todo feliz. Eu estava encarando voc, mas no estava ansioso
por conhec-la, se  que voc me entende.
     Ele tirou o mao do bolso e colocou o cigarro de volta l dentro.
     -- Sinto muito -- falei de novo.
       -- Eu tambm -- ele disse.
       -- No quero nunca fazer uma coisa dessas com voc -- falei para
ele.
    -- Ah, eu no ia me importar, Hazel Grace. Seria uma honra ter o
corao partido por voc.
CAPTULO DOZE




A        bri os olhos s quatro horas da manh holandesa, completamente
         acordada. Todas as tentativas de voltar a dormir foram em vo,
         ento fiquei deitada ali com o BiPAP bombeando o ar para dentro
e puxando o ar para fora, viajando nos rudos de drago mas desejando ser
capaz de escolher de que jeito respirar.
     Reli o Uma aflio imperial at a mame acordar e rolar para o meu
lado, l pelas seis horas. Ela aconchegou a cabea no meu ombro, o que
foi um pouco desconfortvel e ligeiramente augustiniano.
     O hotel serviu o caf da manh no nosso quarto e, para minha total
satisfao, continha frios e muitas outras transgresses  composio do
caf da manh norte-americano. O vestido que eu tinha planejado usar no
encontro com o Peter Van Houten passou  frente dos outros na fila
quando do jantar no Oranjee; por isso, assim que sa do banho e consegui
deixar o cabelo mais ou menos liso, passei uma meia hora debatendo com
a mame sobre as diversas vantagens e desvantagens dos figurinos
disponveis, at que resolvi me vestir o mais parecida com a Anna em UAI
possvel: Chuck Taylors, cala jeans escura do jeito que ela sempre usava e
uma camiseta de malha azul-claro.
     A estampa da camiseta era a reproduo de um famoso quadro
surrealista de Ren Magritte, no qual ele pintou um cachimbo e escreveu
embaixo, em letras cursivas: Ceci n'est pas une pipe. (,Isto no  um
cachimbo.)
     -- Eu no consigo entender essa camiseta -- mame falou.
     -- O Peter Van Houten vai entender, acredite. Em Uma aflio
imperial h, tipo, umas sete mil referncias ao Magritte.
     -- Mas isto  um cachimbo.
      -- No, no  -- falei. --  uma ilustrao de um cachimbo.
Entendeu agora? Todas as representaes de um objeto so inerentemente
abstratas.  muito inteligente.
     -- Como foi que voc amadureceu tanto que consegue entender
coisas que confundem sua velha me? -- ela perguntou. -- Parece que foi
ontem que eu estava explicando para uma Hazel de sete anos por que o
cu  azul. Voc me achou um gnio naquela poca.
     -- Por que o cu  azul? -- perguntei.
     -- Porque sim -- ela respondeu, e eu ri.
     Quanto mais perto das dez horas ia chegando, mais ansiosa eu ficava:
ansiosa para ver o Augustus; ansiosa para conhecer o Peter Van Houten;
ansiosa ao imaginar que minha roupa talvez pudesse no ter sido uma boa
escolha; ansiosa e com medo de no conseguirmos achar a casa certa, j
que todas as casas em Amsterd se parecem; ansiosa e temerosa de nos
perdermos e no encontrarmos o caminho de volta para o Filosoof; ansiosa
ansiosa ansiosa. Mame ficava tentando bater papo comigo, mas eu no
conseguia prestar ateno nela direito. Eu j estava para pedir a ela que
fosse at o andar de cima ver se o Augustus estava acordado, quando ele
chegou.
     Abri a porta. Ele olhou minha camiseta e sorriu.
     -- Muito engraado -- ele disse.
     -- No chame meu peito de engraado -- retruquei.
     -- Eu estou bem aqui -- mame disse l de trs.
     Mas eu tinha feito o Augustus enrubescer e ficar to sem ao que
finalmente pude sustentar o olhar dele.
     -- Tem certeza de que no quer ir tambm? -- perguntei  mame.
     -- Vou visitar o Rijksmuseum e o Vondelpark hoje -- ela respondeu.
-- Alm do mais, no consigo gostar do livro dele. Sem querer ofender.
Agradea a ele e  Lidewij por ns, t?
     -- T -- respondi. Abracei a mame e ela beijou a minha cabea bem
acima da orelha.

                                    ***
A casa branca e geminada de Peter Van Houten ficava, saindo do hotel,
logo depois da curva, na Vondelstraat, de frente para a rea do parque.
Nmero 158. O Augustus me deu a mo, carregou o carrinho do oxignio
com a outra, e ns subimos os trs degraus que levavam at a porta
pintada de verniz azul e preto da casa. Meu corao batia acelerado. Uma
porta fechada era a distncia entre mim e as respostas com as quais vinha
sonhando desde a primeira vez que li a ltima pgina incompleta.
     Dava para ouvir as batidas do som de um baixo, alto o suficiente para
fazer tremer os parapeitos das janelas. Fiquei me perguntando se o Peter
Van Houten teria um filho f de rap.
     Segurei a aldraba em formato de cabea de leo e bati  porta,
hesitante. O som do baixo continuou.
      -- Talvez ele no consiga ouvir por causa da msica? -- o Augustus
comentou.
     Ele pegou a cabea do leo e bateu bem mais forte.
     A msica parou de tocar e foi substituda pelo som de passos trpegos.
Uma das trancas foi destravada. E mais outra. A porta se abriu com um
rangido. Um homem barrigudo, de cabelo ralo, bochechas cadas e a barba
de uma semana por fazer estreitou os olhos por causa da luz do sol. Ele
usava um pijama azul-beb, como um personagem de filme antigo. O rosto
e a barriga eram to redondos e os braos, to magros, que ele parecia uma
bola de massa de po com quatro varetas enfiadas.
     -- Sr. Van Houten? -- o Augustus perguntou, a voz esganiando um
tiquinho.
     A porta se fechou com um estrondo. De trs dela, ouvi uma voz aguda
e gaguejante gritar: ,LIII-DEE-VI-GUE! (At aquele momento, eu vinha
pronunciando o nome da assistente dele como li-de-vi-ge.)                Ns
conseguamos escutar tudo atravs da porta.
     -- Eles esto aqui, Peter? -- uma mulher perguntou.
     -- Esto... Lidewij, h duas aparies adolescentes atrs da porta.
     -- Aparies? -- ela perguntou, com uma melodia cadenciada
tipicamente holandesa.
     O Van Houten respondeu rpido.
     -- Fantasmas espectros demnios visitantes ps-terrestres aparies,
Lidewij. Como pode uma pessoa que almeja obter um diploma de ps-
graduao em literatura norte-americana demonstrar um conhecimento
to abominvel da lngua inglesa?
     -- Peter, aqueles no so visitantes ps-terrestres. Eles so o
Augustus e a Hazel, os jovens fs com os quais voc vem se
correspondendo.
     -- Eles so quem?! Eles... eu pensei que estivessem nos Estados
Unidos da Amrica!
     -- Sim, mas voc os convidou para vir at aqui, se bem se lembra.
     -- Voc sabe por que eu me mudei dos Estados Unidos, Lidewij? Para
que nunca mais precisasse me encontrar com nenhum norte-americano.
     -- Mas voc  norte-americano.
     -- Algo aparentemente incurvel, imagino. Mas, quanto a esses norte-
americanos a, voc deve pedir-lhes que vo embora imediatamente, que
houve um terrvel engano, que o bendito Van Houten fez um convite
retrico, no a srio, que esse tipo de convite deve ser considerado algo
simblico.
     Achei que fosse vomitar. Virei para o Augustus, que olhava vidrado
para a porta, e vi os ombros dele se encurvando.
     -- No farei isso, Peter -- a Lidewij respondeu. -- Voc deve receb-
los. Voc deve. Voc precisa v-los. Precisa ver como seu trabalho 
importante.
     -- Lidewij, voc me manipulou, de caso pensado, para provocar este
encontro?
     Um silncio demorado se seguiu e, por fim, a porta se abriu de novo.
Ele virou a cabea metronomicamente do Augustus para mim, ainda com
os olhos estreitados.
     -- Qual de vocs  o Augustus Waters? -- perguntou.
     O Augustus levantou a mo devagar. O Van Houten assentiu com a
cabea e disse:
     -- Voc j resolveu a questo com aquela franguinha?
     E foi quando vi, pela primeira e nica vez, um Augustus Waters
totalmente sem palavras.
     -- Eu -- ele comeou --, humm, eu, Hazel, humm. Bem.
     -- Este garoto parece ter algum tipo de retardamento -- o Peter Van
Houten disse para a Lidewij.
     -- Peter -- ela o censurou.
     -- Bem -- disse o Peter Van Houten, estendendo a mo para mim.
     --  um prazer sem igual conhecer criaturas to ontologicamente
improvveis.
     Apertei a mo inchada dele e, em seguida, ele e o Augustus se
cumprimentaram. Fiquei me perguntando o que a palavra ontologicamente
significaria. Mesmo sem saber o que era, gostei dela. O Augustus e eu
estvamos juntos no Time das Criaturas Improvveis: ns e os
ornitorrincos.
      claro que eu tinha esperado que o Peter Van Houten fosse
mentalmente so, mas o mundo no  uma fbrica de realizao de
desejos. A coisa mais importante era que a porta fora aberta e eu estava
entrando ali para descobrir o que acontece depois do trmino do Uma
aflio imperial. E isso era o suficiente. Seguimos ele e a Lidewij para
dentro da casa, passamos por uma enorme mesa de jantar de madeira de
carvalho com apenas duas cadeiras e chegamos a uma sala de estar
estranhamente estril. Parecia um museu, s que no havia quadro algum
nas paredes brancas e vazias. Tirando um sof e uma poltrona reclinvel,
ambos feitos de uma combinao de ao e couro preto, a sala parecia
deserta. De repente, reparei em duas sacolas de lixo pretas grandes, cheias
e lacradas com aqueles arames retorcidos, atrs do sof.
     -- Lixo? -- balbuciei para o Augustus, baixinho, achando que
ningum mais ouviria.
     -- Cartas de fs -- o Van Houten respondeu ao se sentar na poltrona
reclinvel. -- Dezoito anos delas. No posso abri-las.  aterrorizante. As
de vocs foram as primeiras missivas s quais respondi, e vejam aonde isso
me levou. Para ser sincero, acho a realidade dos leitores totalmente
insossa.
     Aquilo explicava por que o Van Houten nunca havia respondido s
minhas cartas: ele no tinha lido nenhuma. Fiquei me perguntando por
que guardava todas elas, ainda mais numa sala de estar formal e quase
vazia. O Van Houten colocou os ps em cima do pufe  frente da poltrona
reclinvel e cruzou os chinelos. Ele apontou para o sof. O Augustus e eu
nos sentamos lado a lado, mas no perto demais.
     -- Vocs gostariam de tomar caf da manh? -- a Lidewij perguntou.
     Comecei a responder que j tnhamos comido quando o Peter me
interrompeu.
     --  cedo demais para o caf da manh, Lidewij.
     -- Bem, eles vm dos Estados Unidos, Peter. J passa do meio-dia
para os dois.
     -- Neste caso  tarde demais para o caf da manh -- ele disse. --
Porm, j que passa do meio-dia para eles, deveramos ento nos servir de
um drinque. Voc toma usque? -- perguntou para mim.
     -- Se eu... hummm... no... obrigada -- falei.
     -- Augustus Waters? -- o Van Houten perguntou, balanando a
cabea para o Augustus.
     -- ... No, obrigado.
     -- Para mim, apenas, Lidewij. Usque e gua, por favor. -- O Peter
transferiu a ateno para o Gus, perguntando: -- Voc sabe como
preparamos uma dose de usque escocs com gua nesta casa?
     -- No, senhor -- o Gus respondeu.
     -- Colocamos o usque num copo, depois pensamos na gua, e ento
misturamos o usque de verdade com a ideia abstrata da gua.
     -- Talvez seja melhor tomar alguma coisa de caf da manh antes,
Peter -- a Lidewij disse.
     Ele olhou para ns e sussurrou, fingindo que estava contando um
segredo e que ela no podia ouvi-lo:
     -- A Lidewij acha que eu tenho problemas com a bebida.
     -- E eu acho que o sol nasceu -- a Lidewij respondeu.
     Mesmo assim, ela se encaminhou para o bar na sala de estar, pegou
uma garrafa de usque, serviu o copo at a metade e levou at ele. O Peter
Van Houten tomou um gole e se ajeitou na cadeira, sentando-se ereto.
     -- Um drinque desta qualidade merece uma postura melhor -- ele
disse.
     Fiquei consciente da minha prpria postura e me endireitei um pouco
no sof. E ajeitei a cnula. Papai sempre dizia que  possvel julgar as
pessoas pelo modo como tratam garons e assistentes. Nesse aspecto, o
Peter Van Houten era, provavelmente, o cara mais idiota do mundo.
     -- Ento voc gosta do meu livro -- ele disse para o Augustus depois
de outro gole.
     -- Sim -- respondi pelo Augustus. -- E, sim, ns... bem, o Augustus,
ele usou o Desejo dele para conhecer voc, para que ns pudssemos vir
aqui e voc pudesse nos contar o que acontece depois do fim do Uma
aflio imperial.
     O Van Houten no disse uma palavra. Apenas deu uma golada na
bebida. Depois de alguns instantes, o Augustus falou:
     -- Seu livro foi mais ou menos o que nos uniu.
     -- Mas vocs no so um casal -- ele comentou, sem me olhar.
     -- O que quase nos uniu -- falei.
     Ento ele olhou para mim.
     -- Voc se vestiu igual a ela de propsito?
     -- Igual  Anna? -- perguntei, e ele ficou s me encarando. -- Pode-
se dizer que sim.
     Ele esvaziou o copo e fez uma careta.
     -- Eu no tenho problemas com a bebida -- ele anunciou, a voz
desnecessariamente alta. -- Eu tenho uma relao churchilliana com o
lcool: posso contar piadas, governar a Inglaterra e fazer o que quiser.
Exceto deixar de beber.
     Ele olhou para a Lidewij e fez um movimento com a cabea em
direo ao copo. Ela o pegou e andou de volta at o bar.
     -- S a ideia de gua, Lidewij -- ele instruiu.
     -- Est bem, j entendi -- ela disse, o sotaque quase como o nosso.
      A segunda dose chegou. O Van Houten se empertigou todo de novo
como forma de demonstrar respeito. E tirou os chinelos. Seus ps eram
realmente feios. Ele estava arruinando a concepo que eu tinha de um
gnio autoral. Mas possua as respostas.
     -- Bem, humm -- falei --, primeiro ns queremos agradecer pelo
jantar de ontem  noite e...
     -- Ns pagamos o jantar para eles ontem  noite? -- o Van Houten
perguntou para a Lidewij.
     -- Sim. No Oranjee.
     -- Ah, sim. Bem, acreditem em mim quando digo que vocs no tm
de me agradecer, e sim  Lidewij, que possui um talento excepcional
quando se trata de gastar o meu dinheiro.
     -- O prazer foi todo nosso -- a Lidewij disse.
     -- Bem, obrigado, de qualquer forma -- o Augustus falou.
     Deu para sentir um qu de irritao na voz dele.
     -- Ento aqui estou -- o Van Houten disse aps alguns instantes. --
Quais so as suas perguntas?
     -- Humm -- o Augustus murmurou.
     -- Ele parecia to inteligente nas cartas -- o Van Houten disse para a
Lidewij, a respeito do Augustus. -- Talvez o cncer tenha criado uma
cabea de ponte no crebro dele.
     -- Peter -- a Lidewij disse, devidamente horrorizada.
     Eu tambm estava horrorizada, mas havia algo de interessante num
cara to vil que se recusava a nos tratar de forma condescendente.
     -- Temos mesmo algumas perguntas -- eu disse. -- Falei delas em
meu e-mail. No sei se voc lembra.
     -- No lembro.
     -- A memria dele est comprometida -- a Lidewij disse.
     -- Se ao menos minha memria se comprometesse... -- o Van
Houten retrucou.
     -- Ento, nossas perguntas -- repeti.
     -- Ela usa o ,ns da realeza -- o Peter falou, para ningum em
particular.
     Outro gole. Eu no sabia como era o gosto do usque, mas se fosse de
alguma forma parecido com champanhe, no dava para entender como ele
conseguia beber tanto, to rpido e to cedo.
    -- Voc conhece o paradoxo da tartaruga de Zeno? -- ele perguntou
para mim.
    -- Nossas perguntas tm a ver com o que acontece com os
personagens depois do fim do livro, mais especificamente...
    -- Voc presume de forma errnea que eu precise ouvir a sua
pergunta para que possa respond-la. J ouviu falar de Zeno, o filsofo?
    Fiz ligeiramente que no com a cabea.
    -- Ai de mim. Zeno era um filsofo pr-socrtico que, dizem,
elaborou quarenta paradoxos associados  cosmoviso a partir de
pensamentos desenvolvidos por Parmnides... de Parmnides voc j
ouviu falar, naturalmente -- ele disse, e eu fiz que sabia quem era
Parmnides, mesmo no sabendo. -- Graas a Deus! -- ele falou. --
Zeno se especializou em revelar as imprecises e simplificaes de
Parmnides, o que no foi difcil, pois Parmnides estava sempre
redondamente enganado em quase tudo. O valor de Parmnides  o
mesmo que o do amigo que escolhe o cavalo errado toda vez que voc o
leva ao hipdromo. Mas o paradoxo mais conhecido de Zeno... Espere
um instante... Qual  o seu grau de familiaridade com o hip-hop sueco?
    Eu no sabia dizer se o Peter Van Houten estava brincando ou no.
Depois de um tempo, o Augustus respondeu por mim:
    -- Limitado.
    -- Est bem, mas presumo que voc conhea o lbum mais influente
de Afasi och Filthy intitulado Flcken.
    -- No, ns no conhecemos -- respondi por ns dois.
    -- Lidewij, coloque ,Bomfalleralla para tocar imediatamente. A
Lidewij andou at um MP3 player, girou um pouquinho o boto circular e
apertou uma tecla. Um rap comeou a reverberar em todas as direes. O
som era bastante familiar, exceto por ser cantado em sueco.
    Terminou e o Van Houten olhou para ns, na expectativa, seus
olhinhos o mais arregalados que conseguiam ficar.
    -- E ento? -- perguntou.
    -- Ento?
    A eu falei:
     -- O senhor deve nos desculpar, mas ns no falamos sueco.
     -- Bem,  claro que no falam. Eu tambm no. Quem  que raios
fala sueco? O importante no  o que as vozes esto dizendo, o que quer
que seja, mas o que as vozes esto sentindo. Vocs certamente sabem que
s existem duas emoes, amor e medo, e que o Afasi och Filthy navega
entre elas com o tipo de facilidade que no se encontra no rap fora da
Sucia. Querem que eu bote para tocar de novo?
     -- Isso  uma piada? -- o Gus perguntou.
     -- Como assim?
     -- Isso  algum tipo de performance? -- Ele olhou para a Lidewij e
perguntou: --  isso?
     -- Creio que no -- a Lidewij respondeu. -- Ele no  sempre... esse
 um jeito incomum...
     -- Ah, cale a boca, Lidewij. Rudolf Otto disse que se voc no tiver
vivenciado o numinoso, se no tiver experimentado um encontro irracional
com o mysterium tremendum, ento o livro dele no  para voc. E eu lhes
digo, jovens amigos, que se no conseguem ouvir a reao corajosa de
Afasi och Filthy ao medo, ento meu livro no  para vocs.
      preciso que fique bem claro: aquilo era um rap absolutamente
normal, exceto pela letra em sueco.
     -- Humm -- falei. -- Ento, o Uma aflio imperial. Quando o livro
termina, a me da Anna est prestes a...
     O Van Houten me interrompeu, batendo no copo enquanto falava at
a Lidewij ench-lo de novo.
     -- Pois bem, Zeno  mais famoso por seu paradoxo da tartaruga.
Imaginemos que voc esteja participando de uma corrida com uma
tartaruga.  dada  tartaruga uma vantagem inicial, em distncia, de dez
metros. No tempo que voc leva para percorrer esses dez metros, a
tartaruga talvez se desloque um. E, ento, no tempo que voc leva para
transpor essa distncia, a tartaruga vai um pouco mais  frente, e assim por
diante. Voc  mais rpido que a tartaruga, mas no consegue alcan-la;
s consegue diminuir a distncia entre vocs.
     ,Mas  bvio que voc acaba simplesmente passando pela tartaruga
sem ponderar sobre a mecnica envolvida, mas a pergunta de como foi
capaz de fazer isso acaba sendo incrivelmente complicada e ningum tinha
achado uma resposta para ela de verdade, at que Cantor demonstrou que
alguns infinitos so maiores que outros.
     -- Humm -- murmurei.
     -- Imagino que isso responda  sua pergunta -- ele disse, confiante, e
ento deu um gole generoso na bebida.
     -- No exatamente -- falei. -- Ns estvamos nos perguntando se,
depois do fim do Uma aflio imperial...
     -- Eu renego tudo o que h naquele livro ptrido -- o Van Houten
disse, me interrompendo.
     -- No -- retruquei.
     -- O que foi que voc disse?
     -- No, isso no  aceitvel -- falei. -- Eu entendo que a histria
acaba no meio da narrativa porque a Anna morre ou fica doente demais
para continuar a escrever, mas voc falou que ia nos dizer o que acontece
com os outros, e  por isso que estamos aqui, e ns, eu preciso que voc
me diga.
     O Van Houten suspirou. Depois de mais um gole, disse:
      -- Muito bem. Voc est curiosa a respeito de quem?
     -- A me da Anna, o Homem das Tulipas Holands, Ssifo, o
hamster, quer dizer,  s... o que acontece com todo mundo.
     O Van Houten fechou os olhos, inflou as bochechas ao expirar e ento
olhou para cima, para as vigas de madeira expostas que se entrecruzavam
no teto.
     -- O hamster -- ele disse, depois de um tempo. -- O hamster 
adotado pela Christine...
     Que era uma das amigas da Anna antes de ela ficar doente. Aquilo
fazia sentido. A Christine e a Anna brincaram com o Ssifo em algumas
cenas.
     -- Ele  adotado pela Christine e vive alguns anos depois do fim do
livro, para ento morrer pacificamente durante seu sono de hamster.
     Agora, sim, estvamos indo a algum lugar.
     -- Legal -- falei. -- Legal. T, ento agora, o Homem das Tulipas
Holands. Ele  um vigarista? A me da Anna se casa com ele?
     O Van Houten ainda estava olhando para as vigas no teto. Ele tomou
mais um gole. O copo j estava quase vazio de novo.
     -- Lidewij, eu no consigo fazer isso. No consigo. No consigo. --
Ele nivelou o olhar com o meu. -- Nada acontece com o Homem das
Tulipas Holands. Ele no  um vigarista nem um no-vigarista; ele 
Deus. Ele  uma representao metafrica bvia e inequvoca de Deus, e
perguntar o que acontece com ele  o equivalente intelectual a perguntar o
que acontece com os olhos desprovidos de corpo do Dr. T. J. Eckleburg
em Gatsby. Se ele se casa com a me da Anna? Ns estamos falando de
um livro, cara criana, no de algum cometimento histrico.
     -- T, mas com certeza voc deve ter pensado no que acontece com
eles, quer dizer, como personagens, independentemente dos significados
metafricos deles, e tal.
     -- Eles so ficcionais -- ele disse, batendo de novo no copo. -- Nada
acontece com eles.
     -- Voc falou que ia me dizer -- insisti.
     Fiz questo de ser assertiva. Eu precisava manter a ateno inebriada
dele nas minhas perguntas.
     -- Talvez, mas eu me encontrava sob a impresso equivocada de que
voc estava impossibilitada de fazer uma viagem transatlntica. Eu
tentei... lhe dar algum consolo, acho, e deveria ter imaginado que a
tentativa seria infrutfera. Mas para ser totalmente honesto, essa ideia
infantil de que o autor de um livro tem algum insight singular sobre seus
personagens...  ridcula. Aquele livro foi composto por rabiscos numa
pgina, minha cara. Os personagens que nele habitam no possuem vida
fora desses rabiscos. O que aconteceu com eles? Todos deixaram de existir
no momento em que o livro acabou.
     -- No -- falei. E me levantei do sof. -- No, eu entendo isso, mas
 impossvel no imaginar um futuro para eles. Voc  a pessoa mais
qualificada para imaginar esse futuro. Alguma coisa aconteceu com a me
da Anna. Ou ela se casou ou no se casou. Ou ela se mudou para a
Holanda com o Homem das Tulipas Holands ou no se mudou. Ou ela
teve mais filhos ou no teve. Eu preciso saber o que acontece com ela.
     O Van Houten fez bico.
     -- Sinto muito no poder satisfazer seus caprichos infantis, mas me
recuso a me apiedar de voc da forma com a qual est acostumada.
     -- Eu no quero a sua pena -- falei.
     -- Como toda criana doente -- ele retrucou, sem demonstrar
qualquer emoo --, voc diz que no quer a pena de ningum, mas a sua
existncia em si depende dela.
     -- Peter -- a Lidewij falou, mas ele continuou, reclinando-se na
cadeira, as palavras saindo ainda mais mastigadas daquela boca bbada. --
Crianas doentes inevitavelmente se tornam prisioneiras: voc est fadada
a viver o resto dos seus dias como a criana que era ao receber o
diagnstico, a criana que acredita que haja vida depois que um livro
acaba. E ns, como adultos, temos pena disso, ento pagamos seus
tratamentos, suas mquinas de oxignio. Ns lhes damos comida e gua
embora seja pouco provvel que vocs vivam o suficiente para...
     -- PETER! -- a Lidewij gritou.
     -- Voc  um efeito colateral -- o Van Houten continuou -- de um
processo evolutivo que no d muita importncia a vidas individuais. Voc
 um experimento malsucedido da mutao.
     -- EU ME DEMITO! -- a Lidewij gritou.
     Havia lgrimas nos olhos dela. Mas eu no estava com raiva. Ele havia
encontrado um jeito mais doloroso de dizer a verdade, mas, naturalmente,
eu j sabia qual era a verdade. Eu tinha passado vrios anos olhando do
meu leito para o teto da UTI, por isso h tempos j havia achado as
maneiras mais dolorosas de imaginar a minha prpria doena. Dei um
passo na direo dele.
     -- Oua aqui, seu idiota -- falei --, no h nada que voc possa me
dizer sobre essa doena que eu j no saiba. Eu s preciso de uma coisa de
voc antes de sair da sua vida para sempre: O QUE ACONTECE COM A
ME DA ANNA?
     Ele ergueu a papada flcida na minha direo e deu de ombros.
     -- No posso dizer o que acontece com ela da mesma forma que no
posso dizer que fim levou o narrador de Proust, nem a irm de Holden
Caulfield, nem Huckleberry Finn depois que partiu para os territrios
desconhecidos do Oeste.
     -- BABAQUICE! Isso  uma babaquice. Eu quero saber! Invente
alguma coisa!
     -- No, e ficarei grato se no proferir palavras de baixo calo na
minha casa. No  um vocabulrio apropriado para uma moa.
     Eu no estava exatamente com raiva, ainda, apenas bastante
concentrada em obter o que me fora prometido. Alguma coisa cresceu
dentro de mim, eu me inclinei e dei um soco na mo inchada que segurava
o copo de usque. O que restava da bebida se espalhou pela vastido do
rosto dele, o copo ricocheteou no nariz e depois rodopiou pelo ar, como
num bal, aterrissando com um rudo de estilhaos no piso antigo de
madeira.
     -- Lidewij -- o Van Houten disse calmamente --, vou tomar um dry
martni, se possvel. Com um sussurro de vermute apenas.
     -- Eu me demiti -- ela respondeu aps um instante.
     -- No seja ridcula. Eu no sabia o que fazer. Ser boazinha no
funcionou. Ser grossa no funcionou.
     Eu precisava de uma resposta. Tinha vindo de longe e chegado at ali
depois de roubar o Desejo do Augustus. Eu precisava saber.
     -- Alguma vez voc j parou para se perguntar -- ele disse, as palavras
comeando a sair meio engroladas -- por que se importa tanto com seus
questionamentos tolos?
     -- VOC PROMETEU! -- gritei, o rudo do choro impotente do
Isaac na noite dos trofus destroados ecoando na minha cabea.
     O Van Houten no respondeu.
     Eu ainda estava de p na frente dele, esperando que me dissesse
alguma coisa, quando senti a mo do Augustus no meu brao. Ele me
puxou em direo  porta e eu o segui, enquanto o Van Houten discursava
para a Lidewij sobre a ingratido dos adolescentes contemporneos e sobre
o fim da sociedade corts, e a Lidewij, de um jeito histrico, gritava
alguma coisa para ele num holands acelerado.
    -- Vocs precisam perdoar a minha ex-assistente -- ele falou. -- O
holands no  bem um idioma, mas uma enfermidade da garganta. O
Augustus me tirou do cmodo e me puxou porta afora, ao encontro do fim
da manh de primavera e do confete dos olmos em queda.

                                     ***

No existia, para mim, a possibilidade de uma fuga rpida, mas ns
descemos os degraus, o Augustus segurando meu carrinho, e comeamos a
andar de volta para o Filosoof por uma calada acidentada de
paraleleppedos intercalados. Comecei a chorar pela primeira vez desde o
episdio do balano.
    -- Ei -- ele disse, colocando a mo na minha cintura. -- Ei. Est
tudo bem.
    Eu assenti e enxuguei o rosto com as costas da mo.
    -- Ele no vale nada. Assenti de novo.
    -- Vou escrever um eplogo para voc -- o Gus falou. Aquilo me fez
chorar ainda mais.
    -- Vou, sim -- ele disse. -- Vou mesmo. E vai ser melhor que
qualquer coisa que aquele bbado poderia escrever. O crebro dele  um
queijo suo. Ele nem se lembra de ter escrito o livro. Eu consigo criar
uma histria dez vezes melhor que a daquele cara. Vai ter sangue, coragem
e sacrifcios. Uma aflio imperial encontra O preo do alvorecer. Voc vai
amar.
    Eu continuei assentindo, simulando um sorriso, e a ele me abraou,
os braos fortes me puxando para perto do peito musculoso, e eu ensopei a
camisa polo dele, mas consegui me recompor o suficiente para poder falar.
    -- Eu gastei o seu Desejo com aquele idiota -- disse, ainda encostada
no peito dele.
    -- Hazel Grace. No. Posso admitir que voc de fato gastou o meu
nico Desejo, mas no foi com ele. Voc gastou meu Desejo com ns dois.
    Escutei, vindo de trs, um toc toc toc de saltos altos numa corrida
desabalada. Eu me virei. Era a Lidewij, o delineador escorrendo pelas
bochechas, claramente constrangida, tentando nos alcanar.
     -- Talvez devssemos ir visitar a Anne Frank Huis -- a Lidewij disse.
     -- No vou a lugar nenhum com aquele monstro -- o Augustus disse.
     -- Ele no foi convidado -- a Lidewij falou.
     O Augustus continuou me abraando de um jeito protetor, a mo na
lateral do meu rosto.
     -- No acho que... -- ele comeou, mas eu o interrompi.
     -- Ns deveramos ir.
     Eu ainda queria respostas do Van Houten. Mas isso no era tudo. Eu
s teria mais dois dias em Amsterd com o Augustus Waters. No deixaria
que um velho pattico os estragasse.

                                     ***

O carro da Lidewij era um desajeitado Fiat cinza com um motor estridente
como uma garotinha de quatro anos. Conforme percorramos as ruas de
Amsterd, ela se desculpava repetida e profusamente.
     -- Sinto muito. No tem desculpa. Ele est muito mal -- ela disse. --
Achei que o encontro o ajudaria, se ele visse que o livro tinha tido alguma
influncia na vida de vocs, mas... Sinto imensamente. Isso  muito,
muito constrangedor.
     Nem eu nem o Augustus dissemos nada. Eu estava no banco traseiro,
bem atrs dele. Enfiei a mo no espao entre a lateral do carro e o assento
dianteiro, tentando achar sua mo, mas no consegui encontr-la. A
Lidewij prosseguiu:
     -- Eu continuei trabalhando para ele porque o considero um gnio e
porque o salrio  muito bom, mas ele se transformou num monstro.
     -- Imagino que tenha ficado muito rico com a venda do livro -- falei,
depois de um tempo.
     -- Ah, no, no. Ele  descendente dos Van Houten -- ela falou. --
No sculo dezessete, um ancestral dele descobriu como diluir cacau em
p em gua. Muito tempo atrs, alguns dos Van Houten imigraram para os
Estados Unidos e Peter  filho de um deles, mas se mudou para a Holanda
depois da publicao do livro. Ele  uma vergonha para uma nobre famlia.
    O motor do carro esgoelou. A Lidewij trocou a marcha e ns passamos
por uma ponte sobre o canal.
    -- Foram as circunstncias -- ela disse. -- Foram as circunstncias
que o tornaram uma pessoa to cruel. Ele no  um homem mau. Mas,
hoje, eu no pensei... quando ele falou aquelas coisas horrveis, no pude
acreditar. Sinto muito. Sinto muito, muito mesmo.

                                    ***

Tivemos de estacionar a um quarteiro da casa da Anne Frank, e enquanto
a Lidewij ficava na fila para comprar os ingressos para ns, me sentei com
as costas apoiadas numa arvorezinha, olhando para as casas flutuantes
atracadas no canal Prinsengracht. O Augustus estava em p  minha
frente, movimentando o carrinho do oxignio em crculos, olhando as
rodinhas girarem. Eu queria que ele se sentasse ao meu lado, mas sabia
como era difcil, para ele, se sentar, e mais difcil ainda ficar de p de
novo.
     -- Tudo bem? -- ele perguntou, olhando para mim.
     Dei de ombros e estiquei o brao para poder colocar a mo na batata
da perna dele. Era a panturrilha falsa, mas segurei firme. Ele abaixou a
cabea para me olhar.
     -- Eu queria... -- falei.
     -- , eu sei -- ele disse. -- Eu sei. Aparentemente, o mundo no 
uma fbrica de realizao de desejos.
     Isso me fez rir um tiquinho.
     A Lidewij voltou com os ingressos, mas seus lbios finos estavam
franzidos de preocupao.
     -- No tem elevador -- ela disse. -- Sinto muito, muito mesmo.
     -- Est tudo bem -- falei.
     -- No. L dentro h muitas escadas -- ela disse. -- E elas so
ngremes.
     -- Est tudo bem -- repeti. O Augustus comeou a dizer alguma
coisa, mas eu o interrompi. -- No tem problema. Eu consigo subir.
     A visita comeou num cmodo que mostrava um vdeo sobre os
judeus na Holanda, sobre a invaso nazista e sobre a famlia Frank. Depois
fomos para o andar de cima, adentrando a casa do canal onde funcionara a
empresa do Otto Frank. Subir as escadas era um processo lento, tanto para
mim quanto para o Augustus, mas eu me sentia forte. Logo estava olhando
a famosa estante de livros que camuflara a entrada para o esconderijo da
Anne, da famlia dela e de quatro outras pessoas. A estante estava aberta
at a metade, e por atrs havia uma escada mais ngreme ainda, to
estreita que s cabia uma pessoa por degrau.
     Havia vrios visitantes  nossa volta, e eu no queria atravancar a
procisso, mas a Lidewij falou:
     -- Se todos puderem ter um pouco de pacincia, por favor...
     E comecei a subir, a Lidewij carregando o carrinho atrs de mim, o
Gus na sequncia.
     Eram quatorze degraus. Eu s pensava nas pessoas que vinham depois
de mim, a maioria adultos falando vrios idiomas diferentes, e fiquei com
vergonha. Sei l, eu me sentia como um fantasma que tanto traz consolo
quanto assombra, mas consegui chegar ao fim da escada, finalmente, num
cmodo sinistramente vazio. Eu me apoiei na parede, meu crebro dizendo
a meus pulmes est tudo bem est tudo bem fiquem tranquilos est tudo
bem e meus pulmes dizendo ao meu crebro ai, meu Deus, ns estamos
morrendo aqui. Nem vi quando o Augustus chegou, mas ele se aproximou
de mim esfregando as costas da mo na testa para sec-la, num movimento
de ufa, e disse:
     -- Voc  uma herona.
     Depois de alguns minutos apoiada na parede, fui at o cmodo
seguinte, que a Anne havia dividido com o dentista Fritz Pfeffer. Era
minsculo e sem mveis. No daria para imaginar que algum tinha vivido
ali no fossem as fotos de revistas e jornais que a Anne havia colado na
parede e que l permaneciam.
     Outra escada levava ao cmodo no qual a famlia Van Pel havia
morado, essa mais ngreme que a anterior e com dezoito degraus,
basicamente uma escada de mo mais elaborada. Cheguei  base dela,
olhei para o alto e achei que no conseguiria subir, mas tambm sabia que
o nico caminho para chegar ao fim era subindo.
     -- Vamos voltar -- o Gus disse, atrs de mim.
     -- Estou bem -- respondi baixinho.
     Sei que  bobagem, mas eu ficava pensando que devia isso a ela, 
Anne Frank, digo, porque ela estava morta e eu, no, porque ela havia
ficado em silncio, mantido as cortinas fechadas e feito tudo certo, e ainda
assim, tinha morrido. Ento eu deveria subir aqueles degraus e ver o resto
do mundo no qual ela vivera durante aqueles anos antes da chegada da
Gestapo.
     Comecei a subir, transpondo os degraus do mesmo jeito que uma
criana pequena faria, devagar a princpio, para conseguir respirar, e mais
rpido depois, porque eu sabia que no fim das contas no conseguiria
respirar, e queria chegar ao topo antes de perder o flego de vez. A
escurido invadia o meu campo de viso enquanto eu escalava os dezoito
degraus, ngremes como os diabos. Por fim, alcancei o topo basicamente
cega e enjoada, os msculos dos braos e das pernas clamando por
oxignio. Larguei meu corpo no cho, sentando com as costas encostadas
numa parede, tossindo sofregamente. Havia uma redoma de vidro vazia e
aparafusada na parede acima de mim. Olhei para o alto, atravs dela, para
o teto, tentando no desmaiar.
     A Lidewij se agachou ao meu lado e falou:
     -- Voc chegou ao ltimo andar, j acabou.
     Fiz que sim com a cabea. Eu tinha uma vaga noo de que havia
adultos espalhados pelo ambiente olhando preocupados para mim; da
Lidewij falando baixinho numa lngua, depois em outra, e ento em mais
outra para os vrios visitantes; do Augustus de p na minha frente, a mo
dele na minha cabea, acariciando meu cabelo no pedao em que estava
repartido. Depois de um bom tempo, a Lidewij e o Augustus me
colocaram de p, e pude ver o que estava por trs da redoma de vidro:
marcas feitas a lpis no papel de parede e que registravam o crescimento
de todas as crianas no anexo secreto durante o perodo em que viveram
ali, centmetro por centmetro, at quando foi interrompido. Saindo dali,
deixamos a rea de moradia dos Frank, mas ainda estvamos no museu.
Um corredor comprido e estreito exibia fotos de cada um dos oito
residentes do anexo e descrevia como, onde e quando haviam morrido.
     -- O nico integrante da famlia dele a sobreviver  guerra -- a
Lidewij nos disse, se referindo ao pai da Anne, Otto.
     Ela sussurrava, como se estivssemos numa igreja.
     -- Mas, na verdade, ele no sobreviveu bem a uma guerra -- o
Augustus falou. -- Ele sobreviveu a um genocdio.
     -- Verdade -- a Lidewij concordou. -- No sei como  possvel
algum continuar vivendo sem a famlia. No sei mesmo.
     Enquanto eu lia a respeito de cada um dos sete que morreu, pensei
em Otto Frank deixando de ser pai, ficando com um dirio, em vez da
esposa e das duas filhas. No fim do corredor, um livro enorme, maior que
um dicionrio, continha os nomes dos 103 mil holandeses mortos no
Holocausto. (Apenas 5 mil dos judeus holandeses deportados, explicava
uma plaqueta na parede, haviam sobrevivido. Cinco mil Otto Franks.) O
livro estava aberto na pgina em que havia o nome da Anne Frank, mas o
que chamou mesmo a minha ateno foi o fato de que logo abaixo do
nome dela tinham quatro Aron Franks. Quatro. Quatro Aron Franks sem
museus, sem placas comemorativas, sem ningum para chorar por eles.
Em meu ntimo, resolvi que iria me lembrar dos quatro Aron Franks e
rezar por eles enquanto vivesse. (Talvez algumas pessoas precisem
acreditar num Deus nico e onipotente para o qual rezar, mas eu, no.)
     Quando chegamos ao fim do cmodo, o Gus parou e perguntou:
     -- Voc est bem?
     Assenti com a cabea.
     Ele fez um gesto indicando a foto da Anne.
     -- A pior parte  que ela quase escapou, sabe? Ela morreu algumas
semanas antes da liberao dos campos de concentrao.
     A Lidewij se afastou alguns passos para assistir a um vdeo, e eu
segurei a mo do Augustus enquanto andvamos para o ambiente seguinte.
Era um cmodo de teto triangular com cartas que o Otto Frank havia
escrito para algumas pessoas durante sua busca pelas filhas, que durou
vrios meses. Na parede, no meio do cmodo, um vdeo do Otto estava
sendo reproduzido. Ele falava em ingls.
     -- Sobrou algum nazista que eu possa perseguir e entregar nas mos
da Justia? -- o Augustus perguntou quando nos inclinamos sobre as
vitrines da exposio para ler as cartas do Otto e as respostas dilacerantes
de que no, ningum tinha visto as filhas dele depois da liberao.
     -- Acho que esto todos mortos. Mas no  como se os nazistas
tivessem o monoplio do mal.
     -- Verdade -- ele disse. -- Eis o que deveramos fazer, Hazel Grace:
ns deveramos nos unir e virar uma dupla de justiceiros portadores de
deficincias botando a boca no trombone pelo mundo, endireitando o que
est errado, defendendo os fracos, protegendo quem se sente ameaado.
     Embora aquela fosse a ,viagem do Gus, e no a minha, eu entrei na
dele. O Gus j havia entrado na minha, afinal.
     -- Nosso destemor ser nossa arma secreta -- falei.
     -- As lendas das nossas proezas sobrevivero enquanto existir a voz
humana -- ele disse.
     -- E, mesmo depois disso, quando os robs relembrarem os absurdos
humanos de sacrifcio e compaixo, eles se lembraro de ns.
     -- Eles riro roboticamente da nossa loucura destemida -- ele disse.
-- Mas algo em seus coraes de ferro robotizados vai desejar ter vivido e
morrido como ns: a servio do herosmo.
     -- Augustus Waters -- falei, olhando para ele, pensando que talvez
no fosse certo beijar algum dentro da casa da Anne Frank, mas ento
imaginando que a Anne Frank, no fim das contas, devia ter beijado algum
na casa da Anne Frank, e que ela provavelmente gostaria de sua casa ter se
tornado um lugar no qual os jovens e irremediavelmente imperfeitos se
entregam ao amor.
     ,Devo dizer, o Otto Frank falou no vdeo em seu ingls com sotaque,
,que fiquei surpreso com os pensamentos profundos que a Anne tinha.
     E ento, de repente, estvamos nos beijando. Minha mo largou o
carrinho do oxignio, segurou o pescoo do Gus, enquanto ele me puxou
para cima pela cintura, me deixando na ponta dos ps. Quando os lbios
semiabertos dele encontraram os meus, comecei a sentir uma falta de ar
totalmente indita e fascinante. O espao  nossa volta evaporou, e por um
estranho momento me senti bem no meu corpo; essa coisa estragada pelo
cncer que eu tinha passado vrios anos arrastando de um lado para outro
parecia, de repente, valer a pena, os tubos no trax e os PICCs e a
incessante traio corporal dos tumores.
     ,A Anne que eu conhecia como filha era bastante diferente. Ela nunca
demonstrou esse tipo de sentimento interior, o Otto Frank continuou.
     O beijo durou uma eternidade enquanto o Sr. Frank falava atrs de
mim.
     ,E a minha concluso, na medida em que eu mantinha boas relaes
com a Anne,  que a maioria dos pais no conhece de verdade seus filhos.
     Eu me dei conta de que meus olhos estavam fechados e os abri. O
Augustus me encarava, seus olhos azuis mais prximos que nunca, e atrs
dele um grupo de pessoas tinha meio que se organizado em trs camadas
de crculos  nossa volta. Eles estavam com raiva, pensei. Horrorizados.
Esses adolescentes, com seus hormnios, se agarrando debaixo de um
vdeo reproduzindo a voz exaurida de um ex-pai.
     Eu me afastei do Augustus, e ele tascou um beijo na minha testa
enquanto eu olhava fixamente para meus Chuck Taylors. E foi ento que
comearam a bater palmas. Todas as pessoas, todos aqueles adultos,
simplesmente comearam a bater palmas, e um deles at gritou: ,Bravo!,
com um sotaque europeu. O Augustus, sorridente, fez uma mesura. Rindo,
fiz uma ligeira reverncia, o que provocou uma nova rodada de aplausos.
     Descemos as escadas depois de deixar todos os adultos passarem, e
logo antes de chegarmos ao caf (onde, por sorte, um elevador nos levou
at o trreo e  lojinha de suvenires) vimos algumas pginas do dirio da
Anne, alm de seu livro de citaes ainda indito, aberto numa pgina de
frases de Shakespeare. Quem  to firme que no possa ser seduzido?, ela
escrevera.
                                    ***

A Lidewij nos deu uma carona de volta ao Filosoof. Do lado de fora do
hotel estava chuviscando, e o Augustus e eu ficamos parados na calada de
paraleleppedos, nos ensopando aos poucos.
    Augustus: ,Voc deve estar precisando descansar.
    Eu: ,Estou bem.
    Augustus: ,T. (Pausa.) ,Em que voc est pensando?
    Eu: ,Em voc.
     Augustus: ,O que tem eu?
    Eu: ,No sei mesmo qual preferir, / A beleza das inflexes / Ou a das
aluses, / O pssaro-preto assobiando / Ou s depois.
    Augustus: ,Cara, voc  sexy.
    Eu: ,Ns poderamos ir para o seu quarto.
     Augustus: ,J ouvi ideias piores.

                                    ***

Nos esprememos no elevador minsculo. Todas as superfcies, inclusive o
piso, eram cobertas de espelhos. Tivemos de puxar a porta para fechar o
elevador, e ento aquela coisa velha foi rangendo devagar at o segundo
andar. Eu estava cansada, suada e com medo de a minha aparncia e o
meu cheiro estarem horrveis, mas mesmo assim o beijei dentro daquele
cubculo. A ele se afastou um pouco, apontou para o espelho e disse:
     -- Veja: infinitas Hazels.
     -- Alguns infinitos so maiores que outros -- falei pausadamente,
imitando o Van Houten.
     -- Que palhao! -- o Augustus disse, e demorou todo esse tempo, e
mais ainda, para chegarmos ao segundo andar.
     Por fim, o elevador parou num tranco. O Augustus empurrou a porta
espelhada para abri-la. Quando estava metade aberta, ele estremeceu de
dor e perdeu a pegada por um segundo.
     -- Voc est bem? -- perguntei.
      Aps um instante, ele respondeu:
      -- Estou, estou.  s a porta, que  meio pesada, acho.
      Ele a empurrou de novo e conseguiu abri-la, me deixando sair
primeiro, claro, mas a eu no soube que direo seguir pelo corredor e
fiquei simplesmente ali, do lado de fora, e ele tambm, seu rosto ainda
transfigurado pela dor.
      -- Est tudo bem com voc? -- perguntei mais uma vez.
      -- S estou fora de forma, Hazel Grace. Est tudo timo.
      Ns estvamos ali parados e ele no tomava a iniciativa de ir para o
quarto nem nada, e eu no sabia onde o quarto ficava, e enquanto durava o
impasse me convenci de que ele estava tentando descobrir uma forma de
no ficar comigo e de que, para incio de conversa, eu nunca deveria ter
dado aquela ideia, que a iniciativa no deveria ter sido minha, da a
repugnncia dele, que s ficava me olhando, de p, sem nem piscar,
tentando pensar num jeito de se desvencilhar educadamente da situao.
E a, depois do que pareceu ser uma eternidade, ele falou:
      -- Fica acima do meu joelho, e vai afunilando um pouco, e depois 
s pele. Tem uma cicatriz horrenda, mas ela parece...
      -- O qu? -- perguntei.
      -- A minha perna -- ele respondeu. -- S para voc se preparar
psicologicamente no caso de, quer dizer, no caso de voc ver, ou coisa
ass...
      -- Ah, deixe de bobagem -- falei, e andei os dois passos necessrios
para chegar at ele.
      Dei um beijo no Augustus, intenso, imprensando seu corpo contra a
parede, e continuei com o beijo enquanto ele vasculhava o bolso  procura
da chave do quarto.

                                    ***

Subimos lentamente na cama, minha liberdade um pouco limitada pelo
oxignio, mas mesmo assim consegui ficar por cima dele e tirar sua
camisa. Senti o gosto do suor na pele abaixo da clavcula enquanto
sussurrava, a boca encostada nele:
     -- Augustus Waters, eu te amo.
    Seu corpo relaxou debaixo do meu quando ele me ouviu dizer aquilo.
Ele esticou o brao e tentou tirar a minha camiseta, mas ela acabou
enrolando no tubo. Eu ri.

                                   ***

-- Como  que voc faz isso todos os dias? -- ele perguntou enquanto eu
desenrolava as coisas.
    Tolamente, me dei conta de que minha calcinha rosa no combinava
com meu suti roxo, como se os garotos reparassem nisso. Eu me enfiei
debaixo das cobertas e tirei a cala jeans e as meias, e ento fiquei
observando a dana do edredom enquanto, debaixo dele, o Augustus tirava
primeiro a cala jeans, depois a perna.

                                   ***

Estvamos deitados de costas, lado a lado, escondidos sob as cobertas.
Depois de um segundo, tateei  procura da coxa dele e deixei minha mo
seguir para baixo at o cotoco, a pele com a cicatriz grossa. Segurei o
cotoco por um tempo. Ele se encolheu.
     -- Di? -- perguntei.
    -- No -- ele respondeu.
    Ele se virou de lado e me beijou.
    -- Voc  muito sexy -- falei, minha mo ainda na perna.
    -- Estou comeando a achar que voc tem um fetiche por amputados
-- ele retrucou, ainda me beijando.
    Eu ri.
    -- Eu tenho um fetiche por Augustus Waters -- expliquei.

                                   ***
A coisa toda foi exatamente o oposto do que eu tinha imaginado: devagar,
paciente, silenciosa e nem especialmente dolorosa nem especialmente
extasiante. Houve alguns problemas relacionados  camisinha, os quais
no perdi muito tempo observando. Nenhuma cabeceira foi quebrada.
Nada de gritos. Para ser sincera, aquela foi provavelmente a maior
quantidade de tempo que passamos juntos sem falar nada. S uma coisa
seguiu o protocolo: depois que tudo terminou, enquanto eu descansava o
rosto no peito dele, ouvindo seu corao bater, o Augustus disse:
     -- Hazel Grace, no consigo mais manter os olhos abertos.
Literalmente.
     -- Utilizao incorreta da literalidade -- falei.
     -- No -- ele disse. -- To. Cansado.
     E virou o rosto para o outro lado, minha orelha apertada contra o peito
dele, ouvindo o rudo dos pulmes enquanto entravam no ritmo do sono.
Depois de um tempo me levantei, me vesti, achei um papel de carta do
Hotel Filosoof e escrevi um bilhete de amor para ele:

    Querido Augustus,



        virgens




    Jovens de dezesseis anos com uma perna s


    Da sua,
    Hazel
    Grace
CAPTULO TREZE




N         a manh seguinte, nosso ltimo dia inteiro em Amsterd, mame,
          Augustus e eu andamos o meio quarteiro entre o hotel e o
          Vondelpark, onde descobrimos um caf  sombra do Museu do
Cinema Holands. Tomando lattes -- que, nos disse o garom, eram
chamados pelos holandeses de ,caf estragado porque tinham mais leite
que caf --, nos sentamos  sombra rendada de uma castanheira enorme e
contamos  mame como foi nosso encontro com o grande Peter Van
Houten. Demos um tom engraado  histria. At onde eu sei, voc pode
escolher a forma de contar uma histria triste nesse mundo, e ns fomos
pela opo divertida: o Augustus, afundado na cadeira do caf, fingiu ser
um Van Houten de lngua presa e fala engrolada que nem sequer
conseguia levantar da poltrona; eu fiquei de p para representar a minha
verso arrogante e machona, gritando:
    -- Levante-se, velho gordo e feio!
    -- Voc chamou o Van Houten de feio? -- o Augustus perguntou.
    -- Continue, Gus -- falei para ele.
      -- Nau sou feiu. Voc  que  feia, garota do nariz entubado.
    -- Voc  um covarde! -- gritei, e o Augustus caiu na gargalhada,
saindo do personagem.
    Eu me sentei. Contamos para a mame da ida  casa da Anne Frank,
deixando de fora a parte do beijo.
     -- Vocs voltaram  casa do Van Houten depois? -- a mame
perguntou.
    O Augustus no me deu nem tempo de ficar vermelha.
    -- No, ns s ficamos jogando conversa fora num caf. E a Hazel
desenhou um diagrama de Venn muito bem-humorado para mim.
    Ele me olhou. Cara, como ele era sexy.
     -- Parece que foi legal -- ela disse. -- Bem, vou andar por a agora. E
dar um tempo para vocs conversarem. -- Ela olhou para o Gus de um
jeito meio incisivo. -- Ento depois, talvez, ns possamos fazer um passeio
de barco pelo canal.
     -- Ahn, o.k.? -- falei.
     A mame deixou uma nota de cinco euros debaixo do pires, deu um
beijo na minha cabea e sussurrou:
     -- Eu te amo amo amo.
     O que eram dois amos a mais que o normal.
     O Gus apontou para as sombras dos galhos se entrecruzando e depois
se separando no cimento.
     -- Lindo, n?
     --  -- respondi.
     -- Uma metfora das boas -- ele balbuciou.
     --  mesmo? -- perguntei.
     -- A imagem em negativo de coisas sendo unidas pelo vento e depois
indo pelos ares -- ele falou.
      Diante de ns, centenas de pessoas passavam, correndo, andando de
bicicleta e de patins. Amsterd era uma cidade projetada para
movimentao e atividades, uma cidade que preferia no viajar de carro,
por isso me senti inevitavelmente excluda. Mas, cara, como era linda, o
riacho esculpindo um caminho em volta de uma rvore imensa, uma gara-
real imvel  beira d'gua, tentando encontrar algo para comer no meio
daqueles milhes de ptalas de olmo flutuando.
     Mas o Augustus no reparou naquilo. Ele estava muito ocupado
observando as sombras se moverem. Por fim, falou:
     -- Eu poderia ficar o dia todo aqui olhando isso, mas precisamos
voltar para o hotel.
      Ser que teremos tempo? -- perguntei.
     Ele abriu um sorriso triste.
     -- Quem me dera -- respondeu.
     -- Qual  o problema? -- perguntei.
     Ele fez um movimento com a cabea em direo ao hotel.
                                    ***

Andamos em silncio, o Augustus meio passo  minha frente. Meu medo
era tanto que eu no conseguia nem perguntar se tinha motivo para ficar
com medo. A
     A existe esse troo chamado Hierarquia de Necessidades de Maslow.
Basicamente, um cara chamado Abraham Maslow ficou famoso por sua
teoria, que defende que certas necessidades devem ser satisfeitas antes
mesmo que se possa ter outros tipos de necessidades. A teoria 
representada mais ou menos assim:




            HIERARQUIA DE NECESSIDADES DE MASLOW

     Logo que suas necessidades de comida e gua so atendidas, voc
passa ao conjunto de necessidades seguinte, que tem a ver com segurana,
e ento vai para o prximo, e depois para o outro, mas o importante  que,
de acordo com Maslow, at que suas necessidades fisiolgicas sejam
satisfeitas, voc no tem nem mesmo como chegar a se preocupar com a
necessidade de segurana ou de relacionamentos, quanto mais com a
,autorrealizao, que  quando voc comea a, tipo, fazer arte e pensar
nos princpios morais, na fsica quntica e em coisas assim.
     Segundo Maslow, eu estava empacada no segundo nvel da pirmide,
incapaz de sentir segurana na minha sade e, portanto, incapaz de tentar
ir atrs de amor, de respeito, de arte e de mais nada, o que, obviamente,
era uma bobagem sem tamanho: o desejo de fazer arte ou de filosofar no
desaparece quando algum est doente. Esses desejos s ficam
transfigurados pela doena.
    A pirmide de Maslow parecia sugerir que eu era menos humana que
os outros, e a maioria das pessoas parecia concordar com ele. Mas no o
Augustus. Sempre achei que ele poderia me amar porque j esteve doente
um dia. S ento me ocorreu que talvez ele ainda estivesse.

                                     ***

Chegamos ao meu quarto, o Kierkegaard. Eu me sentei na cama
esperando que o Gus fosse se juntar a mim, mas ele afundou na cadeira
Paisley empoeirada. Aquela cadeira. Quantos anos tinha aquilo? Uns
cinquenta?
     Senti o n na garganta apertando enquanto o via tirar um cigarro do
mao e coloc-lo nos lbios. Ele se recostou e suspirou.
     -- Um pouco antes de voc ir parar na UTI, comecei a sentir uma dor
no quadril.
     -- No -- falei.
     O pnico me invadiu e me arrastou para as profundezas.
      Ele fez que sim com a cabea.
     -- Ento fui ao hospital fazer uma tomografia.
     Ele parou. Tirou o cigarro da boca e trincou os dentes.
     Passei a maior parte da minha vida tentando no chorar na frente das
pessoas que me amavam, por isso sabia o que o Augustus estava fazendo.
Voc trinca os dentes. Voc olha para cima. Voc diz a si mesmo que se
eles o virem chorando, aquilo vai mago-los, e voc no vai ser nada mais
que Uma Tristeza na vida deles. Voc no deve se transformar numa mera
tristeza, ento no vai chorar, e voc diz tudo isso para si mesmo enquanto
olha para o teto. A engole em seco, mesmo que sua garganta no queira,
olha para a pessoa que ama voc e sorri.
     Ele abriu o sorriso torto e disse:
     -- Eu acendi como uma rvore de Natal, Hazel Grace. Dentro do
trax, o lado esquerdo do meu quadril, meu fgado, tudo.
     Tudo. Aquela palavra ficou suspensa no ar por um tempo. Ambos
sabamos o que significava. Eu me levantei, arrastando meu corpo e o
carrinho pelo tapete que era mais velho do que o Augustus jamais seria,
me ajoelhei nos ps da cadeira, coloquei minha cabea no colo dele e
abracei sua cintura.
     Ele comeou a passar a mo no meu cabelo.
     -- Sinto muito -- falei.
     -- Foi mal eu no ter dito nada para voc -- ele disse, o tom de voz
manso. -- Sua me deve saber. O jeito como olhou para mim. Minha me
deve ter contado para ela, ou algo assim. Eu deveria ter contado para voc.
Foi burrice minha. Egosmo.
      claro que eu sabia por que o Gus no tinha dito nada: pelo mesmo
motivo que no deixei que ele me visse na UTI. Eu no tinha o direito de
ficar chateada com ele nem por um instante, e s agora que eu amava uma
granada foi que entendi a bobagem que  tentar salvar os outros da minha
prpria exploso iminente: eu no podia deixar de amar o Augustus
Waters. E no queria fazer isso.
     -- No  justo -- falei. --  tudo to injusto...
     -- O mundo no  uma fbrica de realizao de desejos -- ele
retrucou, e ento perdeu o controle, s por alguns instantes, seu choro e
seus soluos rudos impotentes como o estrondo de um trovo sem raio, a
ferocidade tremenda que os amadores no quesito sofrimento podem tomar
erradamente por fraqueza.
     A ele me puxou mais para perto e, com o rosto a poucos centmetros
do meu, decidiu:
     -- Eu vou lutar contra o cncer. Vou lutar contra o cncer por voc.
No se preocupe comigo, Hazel Grace. Estou bem. Vou achar um jeito de
continuar por aqui e encher o seu saco por um bom tempo.
     Comecei a chorar. Mas mesmo naquele momento ele parecia forte,
me dando um abrao apertado para que eu pudesse ver os msculos
vigorosos de seus braos em torno de mim quando disse:
     -- Sinto muito. Voc vai ficar bem. Tudo vai ficar bem. Prometo. --
Ele abriu aquele sorriso torto, me deu um beijo na testa, e senti seu trax
poderoso esvaziar s um tiquinho. -- Acho que eu tinha uma hamartia, no
fim das contas.

                                    ***

Depois de um tempo eu o puxei at a cama e ns ficamos deitados l,
juntinhos, enquanto ele me contava que havia comeado um tratamento
paliativo com quimioterapia, mas que tinha desistido de tudo para ir a
Amsterd, mesmo isso tendo deixado seus pais furiosos. Os dois
continuaram tentando impedi-lo de viajar at aquela manh, quando o
ouvi gritando que seu corpo lhe pertencia.
     -- Ns poderamos ter adiado a viagem -- falei.
     -- No, no poderamos -- ele retrucou. -- De qualquer forma, no
estava dando resultado. Dava para sentir que no estava dando certo, sabe?
Assenti com a cabea.
     --  uma perda de tempo, a coisa toda -- falei.
     -- Eles vo tentar algo novo quando eu voltar para casa. Eles sempre
tm uma ideia nova.
     --  -- falei, eu mesma j tendo sido a almofada de alfinetes
experimental.
     -- Eu meio que enganei voc, levando voc a acreditar que estava se
apaixonando por uma pessoa saudvel -- ele falou.
     Dei de ombros.
     -- Eu teria feito o mesmo.
     -- No, no teria, mas no d para todo mundo ser to incrvel como
voc.
     Ele me beijou, e ento fez uma careta.
     -- Di? -- perguntei.
     -- No.  s que. -- Ele ficou olhando para o teto por um bom tempo
antes de dizer: -- Eu gosto deste mundo. Gosto de beber champanhe.
Gosto de no fumar. Gosto do som de holandeses falando holands. E
agora... No vou ter nem a chance da batalha. No vou ter nem a chance
da luta.
      -- Voc pode batalhar contra o cncer -- falei. -- Essa  a sua
batalha. E voc vai continuar lutando -- disse para ele. Odiava quando as
pessoas tentavam me encorajar para me preparar para a batalha, mas fiz
isso com ele mesmo assim. -- Voc vai... voc vai... viver o melhor da sua
vida hoje. Essa  a sua guerra agora.
     Eu me odiei por aquele sentimento brega, mas o que mais eu tinha?
     -- Grande guerra -- ele disse com desdm. -- Estou em guerra
contra o qu? O meu cncer. E o que  o meu cncer? Meu cncer sou
eu. Os tumores so feitos de mim. Eles so feitos de mim tanto quanto
meu crebro e meu corao so feitos de mim.  uma guerra civil, Hazel
Grace, a gente j sabe quem vai vencer.
     -- Gus.
     No havia mais nada que eu pudesse dizer. Ele era inteligente demais
para o tipo de consolo que eu poderia oferecer.
     -- Est tudo bem. -- Mas no estava, e depois de alguns instantes ele
disse: -- Se voc for ao Rijksmuseum, o que eu realmente gostaria de
fazer, mas, a quem estamos querendo enganar? Nenhum de ns consegue
passar horas andando num museu. Bem, de qualquer forma, dei uma
olhada na coleo de pinturas deles pela Internet, antes de virmos. Se voc
fosse l, e espero que um dia consiga ir, veria vrias pinturas de pessoas
mortas. Veria Jesus na cruz, um cara sendo esfaqueado no pescoo,
pessoas morrendo no mar, outras numa batalha, e um desfile de mrtires.
Mas nem. Uma. Criana. Com. Cncer. Sequer. Ningum batendo as
botas por causa da praga, nem da varola, nem da febre amarela, nem
nada, porque no existe glria na doena. No h propsito nela. No h
honra em se morrer de.
     Abraham Maslow, apresento a voc o Augustus Waters, cuja
curiosidade existencial superou a de seus irmos bem-alimentados, bem-
amados e saudveis. Enquanto a massa de homens seguia em frente
levando vidas totalmente inescrutveis de consumo descabido, o Augustus
Waters examinava a coleo de pinturas do Rijksmuseum a distncia.
     -- O que foi? -- o Augustus perguntou aps um tempo.
     -- Nada -- respondi. -- S... -- No pude completar a frase. No
sabia como. -- S gosto muito demais da conta de voc.
    Ele deu um sorriso torto, o nariz a centmetros do meu.
    -- A recproca  verdadeira. Ser que daria para voc esquecer isso
tudo e me tratar como se eu no estivesse morrendo?
    -- No acho que voc esteja morrendo -- falei. -- S acho que voc
recebeu uma pitada de cncer.
    Ele sorriu. Humor negro.
     -- Estou numa montanha-russa que s vai para cima -- falou.
    -- E  meu privilgio e minha responsabilidade seguir nessa
montanha-russa at o topo com voc -- retruquei.
    -- Seria totalmente absurdo tentar fazer amor agora?
     -- Tentativa no h -- falei. -- Fazer  que h.
CAPTULO QUATORZE




N
nuvem.
         o voo de volta para casa, vinte mil ps acima de nuvens que
         pairavam a dez mil ps do cho, o Gus disse:
         -- Antigamente eu imaginava que seria divertido morar numa

     --  -- falei. -- Como se fosse, tipo, um pula-pula inflvel, s que
para sempre.
     -- Mas, ento, na aula de cincias do ensino fundamental, o Sr.
Martinez perguntou quem de ns j havia fantasiado em morar nas
nuvens, e todo mundo levantou a mo. A o Sr. Martinez nos contou que a
velocidade do vento nas nuvens  de duzentos e quarenta quilmetros por
hora, que a temperatura gira em torno de trinta graus negativos, que nelas
no h oxignio e que todos morreramos em poucos segundos.
     -- Ele parece um cara legal.
     -- S digo uma coisa: ele era especialista em arruinar sonhos, Hazel
Grace. Voc acha que os vulces so incrveis? Diga isso aos dez mil
cadveres berrando em Pompeia. L no fundo voc ainda acredita que haja
uma aura de mgica neste mundo? So apenas molculas desalmadas
colidindo umas com as outras aleatoriamente. Voc se preocupa com
quem vai cuidar de voc se seus pais morrerem? Pois deveria mesmo,
porque eles viraro comida de verme na completude do tempo.
     -- A ignorncia  uma bno -- falei.
     Uma comissria de bordo cruzava o corredor empurrando o carrinho
de bebidas, sussurrando:
     -- Bebida? Bebida? Bebida? Bebida?
     O Gus inclinou o corpo por cima de mim, levantando a mo.
     -- Ser que voc poderia nos servir champanhe?
     -- Vocs tm vinte e um anos? -- ela perguntou, meio desconfiada.
Ajeitei o cateter no nariz de um jeito que ela visse. A comissria sorriu, e
ento olhou para a minha me, que dormia. -- Ela no vai achar ruim?
     -- Nem um pouquinho -- respondi.
     Ento ela serviu um pouco de champanhe em dois copos de plstico.
Privilgios do Cncer.
      O Gus e eu fizemos um brinde.
     -- A voc -- ele disse.
     -- A voc -- falei, encostando meu copo no dele.
     Tomamos um gole. Estrelas no to perceptveis quando comparadas
s que tomamos no Oranjee, mas ainda assim boas o bastante para serem
apreciadas.
     -- Sabe -- o Gus disse para mim --, tudo o que o Van Houten falou
era verdade.
     -- Talvez, mas ele no precisava ter sido um idiota to completo. No
acredito que ele imaginou um futuro para Ssifo, o hamster, mas no para
a me da Anna.
     O Augustus deu de ombros. E pareceu sair do ar de repente.
     -- Voc est bem? -- perguntei.
     Ele balanou a cabea num movimento microscpico.
     -- Di -- ele disse.
     -- O peito?
     Ele assentiu. Punhos cerrados. Um tempo depois, ele descreveu
aquela dor como sendo a de um homem de uma perna s, calado com um
salto agulha, de p no meio do trax dele. Retornei minha bandeja 
posio vertical e me inclinei para a frente a fim de procurar analgsicos
na mochila dele. Ele tomou um comprimido com champanhe.
     -- Tudo bem? -- perguntei de novo.
     O Gus ficou s sentado ali, abrindo e fechando o punho, esperando
que o analgsico fizesse efeito, o remdio que no acabava bem com a dor,
apenas distanciava o Gus dela (e de mim).
     -- Parecia que era pessoal -- o Gus disse, baixinho. -- Como se ele
estivesse com raiva de ns dois por algum motivo. O Van Houten, digo.
     Ele bebeu o resto do champanhe de uma vez s e logo pegou no sono.
                                    ***

Meu pai estava esperando por ns na rea de desembarque, em meio aos
motoristas de limusine de terno que seguravam placas com os sobrenomes
de seus passageiros: JOHNSON, BARRINGTON, CARMICHAEL.
Papai tinha a prpria placa. MINHA FAMLIA LINDA, dizia, e logo
abaixo: (E GUS).
    Abracei o papai e ele comeou a chorar (claro). Na volta de carro para
casa, o Gus e eu lhe contamos as histrias de Amsterd, mas s depois que
eu j estava em casa, conectada ao Felipe, assistindo aos bons e velhos
programas de televiso norte-americanos com o papai e comendo pizza
norte-americana com guardanapos no colo, foi que contei a ele do Gus.
    -- Gus teve uma recorrncia -- falei.
    -- Eu sei -- ele disse.
    Chegou mais para perto de mim e acrescentou:
    -- A me dele nos contou antes da viagem. Sinto muito por ele ter
escondido isso de voc. Eu... Eu sinto muito, Hazel. -- E no disse mais
nada por um bom tempo.
    O programa que estvamos vendo era sobre pessoas que tentam
escolher que casa vo comprar.
    -- Eu li o Uma aflio imperial enquanto vocs estavam viajando -- o
papai disse.
    Virei a cabea na direo dele.
    -- Ah, que legal. E o que achou?
    -- Achei bom. Um pouco demais para a minha cabea. Eu me formei
em bioqumica, se voc bem se lembra, no em literatura. Realmente acho
que a histria deveria ter tido um fim.
    --  -- falei. -- Essa  uma reclamao recorrente.
    -- Alm do mais, o livro era um pouco pessimista -- ele disse. -- Um
pouco derrotista.
    -- Se com derrotista voc quer dizer honesto, ento concordo com
voc.
    -- No acho que o derrotismo tenha a ver com honestidade -- o papai
retrucou. -- Eu me recuso a aceitar isso.
     -- Ento tudo acontece por uma razo e ns todos vamos viver nas
nuvens e tocar harpa e morar em manses celestiais?
      Ele sorriu. E me envolveu com seu brao comprido e me puxou mais
para perto, dando um beijo na lateral da minha cabea.
     -- No sei no que eu acredito, Hazel. Eu achava que ser adulto
significava saber em que voc acredita, mas no tem sido bem assim para
mim.
     --  -- falei. -- Tudo bem.
     Ele me disse de novo que sentia muito pelo Gus, e ns continuamos a
ver o programa. As pessoas escolheram uma casa, o papai com o brao
ainda em volta de mim, e eu meio que comecei a pegar no sono, mas no
queria dormir ainda. Ento, papai disse:
     -- Voc sabe em que eu acredito? Eu me lembro de quando estava na
faculdade, durante uma aula de matemtica, uma aula de matemtica
realmente fantstica dada por uma professora idosa e baixinha. Ela falava
das transformaes rpidas de Fourier, mas parou no meio de uma frase e
disse: ,s vezes parece que o universo quer ser notado.  nisso que eu
acredito. Acredito que o universo quer ser notado. Acho que o universo ,
questionavelmente, tendencioso para a conscincia, que premia a
inteligncia em parte porque gosta que sua elegncia seja observada. E
quem sou eu, vivendo no meio da histria, para dizer ao universo que ele,
ou a minha observao dele,  temporria?
     -- Voc  razoavelmente inteligente -- falei, depois de um tempo.
     -- Voc  razoavelmente boa com elogios -- ele retrucou.

                                    ***

No dia seguinte  tarde, fui de carro at a casa do Gus e lanchei
sanduches de manteiga de amendoim e geleia com os pais dele. Contei as
histrias de Amsterd enquanto o Gus cochilava no sof da sala de estar,
onde tnhamos assistido ao V de Vingana. Dava para v-lo da cozinha:
deitado de costas, o rosto virado para o outro lado, um PICC j em ao.
Eles estavam atacando o cncer com um novo coquetel: duas substncias
quimioterpicas e um receptor de protena que, eles esperavam, desligaria
o oncogene no cncer do Gus. Ele teve sorte de conseguir participar do
experimento, me disseram. Sorte. Eu j conhecia uma daquelas
substncias. S de ouvir o nome dela fiquei com vontade de vomitar.
     Depois de um tempo, a me do Isaac o levou para visitar o Gus.
     -- Oi, Isaac, sou eu, a Hazel, do Grupo de Apoio, e no a sua ex-
namorada do mal.
     A me do Isaac o guiou at mim, eu levantei da cadeira da mesa de
jantar e o abracei, o corpo dele levando alguns instantes para me encontrar
antes de me abraar de verdade, um abrao forte.
     -- Como foi l em Amsterd? -- ele perguntou.
     -- Incrvel -- respondi.
     -- Waters -- ele falou. -- Cad voc, irmo?
     -- Ele est tirando um cochilo -- eu disse, e minha garganta travou.
     O Isaac balanou a cabea, o restante de ns permaneceu sem
silncio. -- Que droga! -- o Isaac falou depois de um segundo.
     A me dele o levou at uma cadeira que ela havia puxado. Ele se
sentou.
     -- Eu ainda consigo mandar no seu traseiro cego no
Counterinsurgence -- o Augustus disse sem se virar para ns.
     O remdio deixava a fala dele um pouco lenta, mas aquela velocidade
equivalia  de uma pessoa normal.
     -- Eu tenho quase certeza de que todos os traseiros so cegos -- o
Isaac respondeu, estendendo a mo no ar sem rumo, procurando a me.
     Ela o segurou, ajudou-o a se levantar e eles andaram juntos at o sof,
onde o Gus e o Isaac deram um abrao meio sem jeito.
     -- Como est se sentindo? -- o Isaac perguntou.
     -- Tudo tem gosto de moeda. Fora isso, estou numa montanha-russa
que s vai para cima, garoto -- o Gus respondeu. O Isaac riu. -- Como
esto seus olhos?
     -- Ah, excelentes -- ele disse. -- Quer dizer, o fato de no estarem
no meu rosto  o nico problema.
     -- Maravilha -- o Gus falou. -- No  que eu queira ser melhor que
voc nem nada, mas meu corpo  feito de cncer.
     -- Pois , ouvi dizer -- o Isaac falou, tentando no deixar que aquilo o
afetasse.
     Tateou  procura da mo do Gus mas s achou a coxa dele.
     -- Estou tomado -- disse o Gus.

                                      ***

A me do Isaac pegou duas cadeiras, e o Isaac e eu nos sentamos perto do
Gus. Peguei a mo do Gus e fiquei fazendo carinho no espao entre o
polegar e o indicador, em crculos.
    Os adultos foram todos para o poro a fim de se lamentar ou coisa do
gnero, deixando ns trs sozinhos na sala de estar. Depois de um tempo,
o Augustus virou a cabea para ns, o despertar lento.
    -- Como est a Monica? -- ele perguntou.
     -- No deu nenhuma notcia -- o Isaac respondeu. -- Nenhum
carto; nenhum e-mail. Eu tenho uma mquina que l meus e-mails para
mim.  muito maneira. D para alterar o tipo de voz, de homem ou de
mulher, alm do sotaque, e tal.
    -- Ento eu posso, tipo, mandar um texto porn e voc consegue fazer
um velho alemo ler?
    -- Exatamente -- o Isaac disse. -- O nico problema  que a mame
ainda precisa me ajudar com a mquina, ento talvez seja melhor segurar a
onda da pornografia alem por uma ou duas semanas.
    -- Ela nem mandou, tipo, um torpedo para perguntar como est indo?
-- questionei.
    Aquilo me pareceu uma injustia sem precedentes.
    -- Silncio de rdio total -- o Isaac disse.
    -- Ridculo -- falei.
    -- J parei de pensar nisso. No tenho tempo para namoradas.
Arranjei um emprego de expediente integral Aprendendo a Ser Cego.
    O Gus virou de novo a cabea para o outro lado e ficou olhando, pela
janela, para o terrao no quintal da casa. Seus olhos se fecharam. O Isaac
perguntou como eu estava, respondi que bem, e ele me contou que havia
uma garota nova no Grupo de Apoio com uma voz bastante sensual e que
ele precisava que eu fosse l para confirmar se ela era mesmo sensual. A,
do nada, o Augustus disse:
     -- Voc no pode simplesmente no falar com seu ex-namorado
depois de os olhos dele terem sido arrancados do raio do rosto dele.
     -- Apenas um dos.... -- o Isaac comeou.
     -- Hazel Grace, voc tem quatro dlares? -- o Gus perguntou.
     -- Humm -- falei. -- Tenho.
     -- Excelente. Voc vai encontrar minha perna debaixo da mesa de
caf -- ele falou.
     O Gus empurrou o corpo para cima, se sentando, e chegou para a
beirada do sof. Entreguei para ele a prtese; ele a acoplou quase em
cmera lenta.
     Ajudei o Gus a ficar de p e ofereci o brao ao Isaac, e fui guiando ele
na transposio dos mveis que, de repente, pareciam estar todos no meio
do caminho -- e percebi que, pela primeira vez em vrios anos, eu era a
pessoa mais saudvel no ambiente.
     Eu dirigi. O Augustus foi no banco do carona. O Isaac, no banco de
trs. Paramos numa loja de convenincia onde, seguindo instrues
expressas do Augustus, comprei uma dzia de ovos enquanto ele e o Isaac
esperavam no carro. E ento o Isaac nos guiou, usando a memria, at a
casa da Monica, uma casa de dois andares excessivamente estril perto do
Centro da Comunidade Judaica. O Pontiac Firebird verde-esmeralda da
dcada de 1990, com suas rodas largas, estava parado na entrada de
veculos.
     -- O carro dela est a? -- o Isaac perguntou quando sentiu que eu
estava freando para parar.
     -- Ah, se est -- o Augustus disse. -- Voc sabe com o que ele se
parece, Isaac? Ele se parece com todas as esperanas que fomos tolos em
alimentar.
     -- Ento ela est l dentro?
     O Gus virou a cabea lentamente a fim de olhar para o Isaac.
     -- Quem se importa com onde ela est? Isso no tem nada a ver com
ela. Isso tem a ver com voc.
     O Gus segurou a caixa de ovos no colo, abriu a porta e puxou as
pernas para fora, para a rua. Ele abriu a porta para o Isaac, e eu fiquei
olhando pelo retrovisor enquanto o Gus o ajudava a sair do carro, os dois
se apoiando um no outro na linha do ombro, o resto do corpo mais
afastado, como se fossem duas mos em orao sem que as palmas se
encostassem.
     Abaixei o vidro e fiquei assistindo a tudo do carro, porque vandalismo
me deixava nervosa. Eles deram alguns passos em direo ao carro da
Monica, e ento o Gus abriu a caixa de ovos e entregou um para o amigo.
O Isaac o atirou, errando o carro por uns bons doze metros.
     -- Um pouco para a esquerda -- o Gus disse.
     -- Meu lanamento foi um pouco para a esquerda ou eu preciso mirar
um pouco para a esquerda?
     -- Mire para a esquerda. -- O Isaac girou os ombros. -- Mais para a
esquerda -- o Gus disse. O Isaac girou de novo. -- Isso. Excelente. Agora
atire com vontade.
     O Gus deu a ele outro ovo, que o Isaac atirou, fazendo um arco sobre
o carro e se estraalhando no telhado em declive da casa.
     -- No alvo! -- o Gus disse.
     -- Srio? -- o Isaac perguntou, empolgado.
     -- No, voc atirou o ovo uns seis metros acima do carro. Atire com
vontade, s que mais para baixo. E um pouco mais  direita de onde voc
estava da ltima vez.
     O Isaac esticou a mo e pegou sozinho um ovo da caixa que o Gus
segurava. Ele o atirou, acertando a lanterna traseira.
     -- Isso! -- o Gus disse. -- Isso! Lanterna!
     O Isaac pegou outro ovo, errou um bocado para a direita, depois outro,
errando para baixo, e ento mais um, acertando o para-brisa traseiro. E a
emplacou trs ovos seguidos na mala do carro.
     -- Hazel Grace -- o Gus gritou para trs. -- Tire uma foto para que o
Isaac possa ver isso quando inventarem olhos robticos.
      Ergui o corpo e me sentei na janela com o vidro abaixado, meus
cotovelos no teto do carro, e tirei uma foto com o celular: o Augustus, o
cigarro apagado na boca, seu sorriso deliciosamente torto, segurando a
caixa de ovos cor-de-rosa basicamente vazia no alto da cabea. Seu outro
brao nos ombros do Isaac, cujos culos escuros no esto exatamente
virados para a cmera. Atrs deles, gemas de ovo escorrem pelo para-brisa
e pelo para-choque do Firebird verde. E atrs de tudo, uma porta que se
abre.
      -- O que -- perguntou a mulher de meia-idade um segundo depois
de eu tirar a foto --, em nome de Jesus... -- E ento parou de falar.
      -- Senhora -- o Augustus disse, balanando a cabea e olhando para
ela --, o carro da sua filha acabou de ser merecidamente coberto de ovos
por um cego. Feche a porta, por favor, e volte para dentro de casa, seno
seremos forados a chamar a polcia.
      Depois de hesitar por alguns instantes, a me da Monica fechou a
porta e desapareceu. O Isaac atirou os ltimos trs ovos um atrs do outro
e o Gus o guiou de volta ao carro.
      -- Viu, Isaac, se voc simplesmente tirar... estamos chegando perto
do meio-fio agora... deles a sensao de legitimidade, se voc inverter as
coisas para que achem que so eles que esto cometendo um crime s de
ver... s mais alguns passos... os carros sendo cobertos de ovos, eles
ficaro confusos, assustados e com medo, e simplesmente voltaro... a
maaneta da porta est bem  sua frente...  vida tediosa deles.
      O Gus passou apressado pela frente do carro e se aboletou no banco
do carona. As portas se fecharam e eu acelerei, dirigindo vrias dezenas de
metros antes de me dar conta de que tinha ido na direo de uma rua sem
sada. Fiz a volta no cul-de-sac e passei voada pela casa da Monica.
      Nunca mais tirei outra foto dele.
CAPTULO QUINZE




A
        lguns dias depois, na casa do Gus, os pais dele, os meus pais, o
        Gus e eu estvamos todos espremidos  mesa de jantar, comendo
        pimentes recheados sobre uma toalha que, de acordo com o pai
do Gus, tinha sido usada pela ltima vez no sculo passado.
     Meu pai: ,Emily, este risoto...
     Minha me: ,Est uma delcia.
     Me do Gus: ,Ah, obrigada. Terei o maior prazer em dar a receita para
voc.
     Gus, engolindo uma garfada: ,Sabe, o gosto que estou sentindo  no
Oranjee.
     Eu: ,Bem observado, Gus. Esta comida, mesmo deliciosa, no tem o
mesmo gosto da comida do Oranjee.
     Minha me: ,Hazel.
     Gus: ,Tem gosto de...
     Eu: ,Comida.
     Gus: ,, exatamente. Tem gosto de comida, muito bem preparada.
Mas o gosto no parece... como posso dizer isso de um jeito delicado...?
     Eu: ,No parece que Deus, em pessoa, preparou o paraso numa srie
de cinco pratos, os quais lhe foram servidos acompanhados de vrias
bolhas luminosas de plasma fermentado e espumante, enquanto ptalas de
flores verdadeiras e literais flutuavam por toda a superfcie do canal ao
lado da sua mesa de jantar.
     Gus: ,Bem colocado.
     Pai do Gus: ,Nossos filhos so estranhos. Meu pai: ,Bem colocado.

                                    ***
Uma semana depois do nosso jantar, o Gus foi parar na Emergncia com
dores no peito e acabou sendo internado no meio da noite. Fui de carro at
o Memorial na manh seguinte e o visitei no quarto andar. Eu no ia ao
Memorial desde a visita ao Isaac. Ali no havia nenhuma parede pintada
com cores exageradamente vivas nem as pinturas emolduradas de ces ao
volante de veculos que se via no Hospital Peditrico, mas a esterilidade
completa do lugar me fez sentir saudade daquela aura boba de ,criana
feliz. O Memorial era to funcional... Era tipo um depsito. Um
prematrio.
     Quando as portas do elevador se abriram no quarto andar, vi a me do
Gus andando de um lado para outro na sala de espera, falando ao celular.
Ela desligou rapidamente e me abraou, se oferecendo para carregar meu
carrinho.
     -- No precisa, obrigada -- falei. -- Como est o Gus?
     -- Ele teve uma noite ruim, Hazel -- ela respondeu. -- O corao
dele est sobrecarregado. O Gus precisa diminuir o ritmo. Daqui para a
frente  s cadeira de rodas. Ele est sendo medicado com uma substncia
nova que deve funcionar melhor no combate  dor. As irms dele
acabaram de parar o carro no estacionamento.
     -- T -- falei. -- Posso ver o Gus?
     Ela colocou o brao no meu ombro e apertou-o com a mo. A
sensao foi esquisita.
     -- Voc sabe que ns a amamos, Hazel, mas nesse momento
precisamos ficar apenas em famlia. O Gus concorda com isso. Tudo bem?
     -- Tudo -- respondi.
     -- Vou dizer a ele que voc esteve aqui.
     -- T -- falei. -- S vou ficar por a lendo um pouco, acho.

                                    ***

Ela andou at o fim do corredor, de volta ao lugar onde ele estava. Eu
compreendia, mas ainda assim sentia falta dele e imaginava que talvez
estivesse perdendo a ltima chance de ver o Gus, de me despedir, ou sei
l. A sala de espera era toda forrada de carpete marrom e mobiliada com
estofados de tecido marrom. Eu me sentei num sof por um tempo, o
carrinho do oxignio enfiado debaixo dos meus ps. Eu tinha colocado
meus Chuck Taylors e minha camiseta do Ceci n'est pas une pipe, o
mesmo figurino que usei duas semanas antes no fim de tarde do diagrama
de Venn, e ele nem ia ver. Comecei a olhar as fotos do meu celular, um
lbum de trs para a frente dos ltimos meses, comeando com ele e o
Isaac do lado de fora da casa da Monica, e terminando com a primeira foto
que tirei dele, a caminho dos Ossos Maneiros. Parecia que tinha sido, tipo,
h uma eternidade, como se tivssemos vivido uma breve, mas infinita,
eternidade. Alguns infinitos so maiores que outros.

                                     ***

Duas semanas depois, fui empurrando a cadeira de rodas do Gus pelo
parque atrs do museu, em direo aos Ossos Maneiros, com uma garrafa
cheia de um champanhe muito caro e meu cilindro de oxignio no colo
dele. O champanhe tinha sido doado por um dos mdicos do Gus, o Gus
sendo o tipo de pessoa que inspira mdicos a darem suas garrafas de
champanhe mais especiais para crianas. Ficamos ali sentados, ele na
cadeira e eu na grama mida, o mais perto dos Ossos Maneiros que
conseguimos chegar com a cadeira de rodas. Apontei para as crianas que
encorajavam umas s outras a pular da caixa torcica at o ombro, e o Gus
fez um comentrio, a voz dele alta s o suficiente para que eu conseguisse
escut-lo com todo aquele barulho.
     -- Da ltima vez me imaginei como sendo uma das crianas. Dessa
vez sou o esqueleto.
     Ns bebemos o champanhe em copos de papel do Ursinho Pooh.
CAPTULO DEZESSEIS




E        sse foi um dia tpico com o Gus em estgio terminal:
         Fui at a casa dele por volta do meio-dia, depois de ele ter tomado
         e vomitado o caf da manh. Ele abriu a porta para mim, de
cadeira de rodas, no mais aquele garoto musculoso e lindo que me
encarou no Grupo de Apoio, mas ainda com o sorriso torto nos lbios,
fumando o cigarro apagado, os olhos azuis intensos e vvidos.
     Almoamos com os pais dele  mesa de jantar. Sanduches de
manteiga de amendoim e geleia, mais os aspargos da noite anterior. O Gus
no comeu. Perguntei como ele estava se sentindo.
     -- Maravilha -- ele disse. -- E voc?
     -- Estou bem. O que voc fez ontem  noite?
     -- Dormi um bocado. Quero escrever a continuao do livro para
voc, Hazel Grace, mas estou sempre to cansado o tempo todo...
     -- Voc pode simplesmente me contar o que tem em mente -- falei.
     -- Bem, eu continuo fiel  minha anlise, anterior ao encontro com o
Van Houten, sobre o Homem das Tulipas Holands. Ele no  um
vigarista, mas tambm no  rico como as fazia acreditar.
     -- E a me da Anna?
     -- Ainda no formei uma opinio a respeito dela. Pacincia,
Gafanhoto. -- O Augustus sorriu.
     Os pais dele estavam em silncio, observando o filho sem desviar o
olhar, como se quisessem curtir ao mximo o Show do Gus Waters
enquanto ainda estava em cartaz.
     -- s vezes sonho que estou escrevendo minha autobiografia. Um
livro como esse seria a melhor forma de me perpetuar no corao e na
memria do pblico que me idolatra.
     -- Por que voc precisa desse pblico quando tem a mim? --
perguntei.
    -- Hazel Grace, quando se  charmoso e fisicamente atraente como
eu,  fcil demais seduzir quem voc conhece. Mas fazer com que
completos desconhecidos o amem... isso sim  um desafio.
     Revirei os olhos.

                                    ***

Depois do almoo, samos para o quintal. Ele ainda tinha fora para
impulsionar sozinho a cadeira de rodas, levantando um pouquinho as
rodinhas da frente a fim de transpor a salincia da passagem da porta.
Ainda atltico, apesar de tudo, dotado de equilbrio e reflexos geis que
nem mesmo aquela grande quantidade de analgsicos conseguia anular
por completo.
     Os pais dele ficaram dentro de casa, mas toda vez que eu olhava para
a sala de jantar, os dois estavam sempre nos observando.
     Ficamos sentados l fora em silncio por um minuto e ento o Gus
disse:
     -- s vezes eu gostaria que ainda tivssemos aquele balano.
     -- Aquele do meu quintal?
     -- . Minha nostalgia  tanta que consigo sentir saudade de um
balano no qual a minha bunda nunca encostou de fato.
     -- A nostalgia  um efeito colateral do cncer -- falei para ele.
     -- No... A nostalgia  um efeito colateral de se estar morrendo --
ele retrucou.
     Acima de ns, o vento soprava e as sombras das rvores andavam pela
nossa pele. O Gus apertou a minha mo.
     --  uma vida boa, Hazel Grace.
     ***
     Entramos quando ele precisou tomar remdios, que eram injetados
com a ajuda de um lquido de nutrio atravs do tubo de alimentao, um
tubo de plstico que desaparecia dentro da barriga. Ele ficou em silncio
por um tempo, fora do ar. A me quis que ele tirasse uma soneca, mas o
Gus sempre balanava a cabea negativamente quando ela sugeria isso,
ento ns simplesmente o deixamos ficar ali sentado na cadeira, meio
sonolento, por alguns instantes.
    Os pais dele assistiram a um vdeo antigo do Gus com as irms -- elas
tinham mais ou menos a minha idade, e o Gus, uns cinco anos. Estavam
jogando basquete na entrada de veculos de uma outra casa e, mesmo o
Gus sendo pequeno, conseguia dribl-las como se tivesse nascido fazendo
aquilo, correndo em crculos em volta das irms enquanto elas riam. Era a
primeira vez que eu o via jogar basquete.
    -- Ele era bom -- falei.
    -- Voc devia ter visto ele no ensino mdio -- o pai disse. --
Comeou a jogar no time da escola quando ainda era calouro.
    O Gus balbuciou:
    -- Posso ir l para baixo?
    A me e o pai empurraram a cadeira de rodas at o poro com o Gus
ainda em cima dela, sacudindo loucamente de um jeito que teria sido
considerado perigoso se o perigo ainda tivesse sua relevncia, e depois nos
deixaram sozinhos. Ele foi para a cama e ns ficamos deitados ali juntos,
debaixo das cobertas, eu de lado e o Gus de costas, minha cabea apoiada
no ombro ossudo dele, seu calor irradiando para a minha pele atravs da
camisa polo, meus ps entrelaados ao p de verdade dele, minha mo em
sua bochecha.
    Quando o rosto dele ficava bem perto do meu, meu nariz encostando
nele de tal maneira que s dava para ver seus olhos, era impossvel dizer
que estava doente. Ns nos beijamos por um tempo e ento ficamos ali,
juntos, deitados, ouvindo o lbum epnimo do The Hectic Glow, e
acabamos pegando no sono daquele jeito, um emaranhado quntico de
tubos e corpos.

                                     ***

Acordamos algumas horas depois e arrumamos uma armada de travesseiros
para que ele pudesse se sentar confortavelmente apoiado na beira da cama
e jogar Counterinsurgence 2: O preo do alvorecer. Eu era uma negao
jogando aquilo, claro, mas meu pssimo desempenho tinha uma utilidade:
tornava mais fcil para ele morrer lindamente, pular na frente do projtil
disparado por um atirador de elite e se sacrificar por mim, ou ento matar
uma sentinela que estava prestes a me acertar. Como ele se divertia me
salvando! O Gus gritou:
     -- Voc no vai matar minha namorada hoje, Terrorista Internacional
de Nacionalidade Indefinida!
     Passou pela minha cabea simular um engasgo ou algo do gnero, para
que ele pudesse aplicar a manobra de Heimlich em mim. Talvez assim o
Gus conseguisse se livrar do medo de sua vida no ter sido vivida nem
perdida a servio de um bem maior. Mas a levei em conta o fato de que
ele talvez no fosse ser fisicamente capaz de realizar a manobra de
Heimlich, o que me faria ter de revelar que tudo no passava de
encenao, e a isso se seguiria um sentimento de humilhao mtua.

                                    ***

 difcil como os diabos manter a dignidade quando a luz do sol nascente
 forte demais em seus olhos que perecem, e era nisso que eu estava
pensando enquanto amos atrs dos caras maus nas runas de uma cidade
que no existia.
     Por fim, o pai dele desceu e empurrou o Gus de volta para o andar de
cima e, na entrada da casa, abaixo de um Encorajamento que me dizia que
Amigos So Para Sempre, me abaixei para dar um beijo de boa-noite nele.
Fui para casa e jantei com meus pais, deixando o Gus sozinho para comer
(e vomitar) seu prprio jantar.
     Depois de assistir a um pouco de TV, fui dormir.
     Acordei.
     Por volta do meio-dia, fui at l de novo.
CAPTULO DEZESSETE




C
e falei:
        erta manh, um ms depois do retorno de Amsterd, fui dirigindo
        at a casa dele. Seus pais me disseram que ele ainda estava
        dormindo l embaixo, ento bati na porta do poro antes de entrar

     -- Gus?
     Encontrei-o balbuciando um idioma de sua prpria criao. Tinha
mijado na cama. Foi horrvel. No consegui nem olhar, srio. S gritei
pelos pais dele, que foram at l embaixo, e subi as escadas enquanto o
secavam e limpavam.
     Quando voltei ao poro ele estava despertando gradualmente do efeito
dos analgsicos para mais um dia excruciante. Arrumei os travesseiros para
que pudssemos jogar Counterinsurgence no colcho sem lenis, mas ele
estava to cansado e desconcentrado que teve um desempenho ruim como
o meu, e no conseguimos passar cinco minutos sem que ambos
acabssemos morrendo. E tambm no eram mortes heroicas nem
elaboradas. S mortes negligentes.
     No falei nada para o Gus. Quase desejei que ele esquecesse que eu
estava l, acho, e esperava que no lembrasse que eu havia encontrado o
garoto que eu amo mostrando sinais de demncia deitado numa poa de
seu prprio mijo. Fiquei meio que esperando que ele fosse olhar para mim
e dizer: ,Ah, Hazel Grace. Como voc chegou at aqui?
     Mas, infelizmente, ele lembrava.
     -- A cada minuto que passa estou desenvolvendo uma simpatia mais
profunda pela palavra mortificado -- ele disse, por fim.
     -- Eu j fiz xixi na cama, Gus, acredite. No  nada demais.
     -- Voc costumava -- ele falou, e ento suspirou profundamente --
me chamar de Augustus.
                                    ***

-- Sabe -- ele disse depois de um tempo --, isso  coisa de criana, mas
sempre imaginei que meu obiturio sairia impresso em todos os jornais,
que eu teria uma histria digna de ser contada. Sempre suspeitei
secretamente que eu fosse especial.
     -- Voc  -- falei.
     -- Voc sabe o que eu quero dizer -- ele retrucou.
     Eu sabia o que ele queria dizer. S no concordava com aquilo.
     -- No estou nem a se o New York Times vai redigir um obiturio
para mim. S quero que seja voc a escrever -- falei. -- Voc diz que no
 especial porque o mundo no sabe da sua existncia, mas isso  um
insulto  minha pessoa. Eu sei da sua existncia.
     -- No acho que eu v sobreviver para escrever seu obiturio -- ele
disse, em vez de pedir desculpas.
     Fiquei muito frustrada.
     -- S o que eu quero  ser o suficiente para voc, mas nunca consigo.
Isso aqui nunca chega a ser o suficiente para voc. Mas  isso o que voc
tem. Voc tem a mim, tem sua famlia e tem este mundo. Esta  a sua
vida. Sinto muito se  uma droga. Mas voc no vai ser o primeiro homem
a pisar em Marte, no vai ser um astro da NBA e no vai caar nazistas.
Quer dizer, d uma olhada em voc, Gus. -- Ele no disse nada. -- Eu
no quero dizer... -- comecei.
     -- Ah, voc quis dizer, sim -- ele me interrompeu.
     Comecei a me desculpar e ele disse:
     -- No, foi mal. Voc est certa. Vamos s jogar.
     Ento ns s jogamos.
CAPTULO DEZOITO




A        cordei com meu telefone tocando uma msica do The Hectic
         Glow. A preferida do Gus. Aquilo significava que era ele quem
         estava me ligando... ou que algum estava me ligando do celular
dele. Dei uma olhada no relgio: 2h35 da manh. Ele se foi, pensei
enquanto tudo dentro de mim colapsava para uma singularidade.
    Mal consegui dizer:
    -- Al?
    Esperei pelo som da voz devastada de um pai ou uma me.
    -- Hazel Grace -- o Augustus disse baixinho.
    -- Ai, graas a Deus  voc. Oi. Oi, eu te amo.
    -- Hazel Grace, estou no posto de gasolina. Tem alguma coisa errada.
Voc precisa me ajudar.
    -- O qu? Onde voc est exatamente?
    -- Na esquina da Rua 86 com a Avenida Ditch. Eu fiz alguma
besteira com o tubo de alimentao e no sei o que foi e...
    -- Vou ligar para uma ambulncia -- falei.
    -- No no no no no, eles vo me levar para um hospital. Hazel,
preste ateno. No ligue para uma ambulncia nem para os meus pais, eu
nunca vou perdoar voc, no faa isso, s venha aqui, por favor, e conserte
a desgraa do meu tubo de alimentao.  s que, cara, isso  a maior
estupidez. No quero que meus pais saibam que sa. Por favor. Estou com
o remdio aqui; s no consigo coloc-lo para dentro. Por favor. Ele estava
chorando. Nunca o tinha ouvido chorar daquele jeito, exceto quando eu
estava do lado de fora da casa dele antes de Amsterd.
    -- T -- falei. -- Estou indo agora.
    Removi o BiPAP e me conectei a um cilindro de oxignio. Coloquei-o
no carrinho, calcei um tnis que combinava com a cala de pijama de
algodo cor-de-rosa e com a camiseta de malha do time de basquete da
Universidade de Butler, que tinha sido do Gus. Peguei as chaves na gaveta
da cozinha onde mame as guardava e escrevi um bilhete para o caso de os
dois acordarem enquanto eu estivesse fora.

    Fui ver o Gus.
     importante. Foi mal.
    Com amor, H

    Enquanto eu percorria de carro os poucos quilmetros at o posto de
gasolina, despertei o suficiente para tentar imaginar por que o Gus tinha
sado de casa no meio da noite. Talvez ele estivesse tendo alucinaes, ou
suas fantasias de martrio o tivessem derrotado.
    Pisei fundo na Avenida Ditch passando por sinais de trnsito que
piscavam no amarelo, indo rpido demais meio que para chegar logo e
meio que na esperana de que um policial fosse me fazer encostar o carro
e me dar um motivo para dizer a algum que meu namorado moribundo
estava empacado num posto de gasolina com um tubo de alimentao
defeituoso. Mas nenhum policial apareceu para tomar aquela deciso por
mim.

                                     ***

S havia dois carros estacionados em frente  loja de convenincia do
posto. Parei o meu ao lado do dele. Abri a porta. A luz interna se acendeu.
O Augustus estava sentado no banco do motorista, coberto de vmito, as
mos pressionando a barriga no local onde o tubo de alimentao entrava.
    -- Oi -- ele murmurou.
    -- Ai, meu Deus, Augustus, ns temos que ir para um hospital.
    -- D s uma olhada aqui, por favor.
    Tive nsia de vmito mas me inclinei a fim de checar o local acima do
umbigo onde o tubo havia sido cirurgicamente instalado. A pele estava
quente e muito vermelha.
    -- Gus, acho que infeccionou. No vou conseguir resolver. Por que
voc est aqui? Por que no est em casa?
    Ele vomitou, sem energia nem para virar o rosto e poupar seu colo.
    -- Ah, meu amor -- falei.
    -- Eu queria comprar um mao de cigarros -- ele balbuciou. -- Perdi
o meu. Ou ento esconderam de mim. No sei. Eles disseram que iam me
comprar outro, mas eu quis... fazer isso sozinho. Fazer uma coisa simples
sem ajuda. Ele estava olhando fixamente para a frente. Devagarinho,
peguei meu celular e olhei para o teclado a fim de discar 911.
    -- Sinto muito -- falei para ele. Nove-um-um, qual  a sua
emergncia?
    -- Oi, eu estou na esquina da Rua 86 com a Avenida Ditch e preciso
de uma ambulncia. O amor da minha vida est com um tubo de
alimentao defeituoso.

                                     ***

Ele levantou os olhos para me olhar. Foi horrvel. Eu mal conseguia
encar-lo. O Augustus Waters dos sorrisos tortos e dos cigarros apagados j
era, substitudo por uma criatura deploravelmente humilhada sentada ali
abaixo de mim.
     --  o fim. No consigo nem mais no fumar.
     -- Gus, eu te amo.
     -- Onde est a minha chance de ser o Peter Van Houten de algum?
-- O Gus bateu sem fora no volante, o carro buzinando enquanto ele
chorava. Inclinou a cabea para trs, olhando para cima. -- Eu me odeio
eu me odeio eu odeio isso eu odeio isso eu tenho nojo de mim eu odeio
isso eu odeio isso eu odeio isso deixe eu morrer de uma vez.
     De acordo com as convenes do gnero, o Augustus Waters manteve
o senso de humor at o fim, nem por um momento abandonou sua
coragem, e seu esprito elevou-se como uma guia indomvel at que o
mundo em si no conseguiu conter sua alma repleta de jbilo.
     Mas essa era a verdade: um garoto digno de pena que queria
desesperadamente no ser digno de pena, gritava e chorava, sendo
envenenado pelo tubo de alimentao infectado que o mantinha vivo, mas
no o suficiente.
     Limpei o queixo dele e segurei seu rosto nas minhas mos, me
ajoelhando a fim de poder ver seus olhos, que ainda tinham vida.
     -- Sinto muito. Queria que fosse como naquele filme, com os persas e
os espartanos.
     -- Eu tambm -- ele disse.
     -- Mas no  -- falei.
     -- Eu sei -- ele completou.
     -- No tem nenhum cara do mal aqui.
     -- .
     -- Nem o cncer  um bandido de verdade: o cncer s quer viver.
     -- .
     -- Est tudo bem -- falei para ele.
     E pude ouvir as sirenes.
     -- Tudo bem -- ele falou.
     Estava perdendo a conscincia.
     -- Gus, voc tem que me prometer que no vai fazer mais isso. Eu
compro cigarros para voc, t? -- Ele me olhou. Seus olhos nadavam nas
rbitas. -- Voc tem que me prometer.
     Ele fez que sim com a cabea, de leve, e ento fechou os olhos, a
cabea pendendo do pescoo.
     -- Gus -- falei. -- Fique aqui comigo.
     -- Leia alguma coisa para mim -- ele disse, enquanto a desgraa da
ambulncia passava direto por ns.
     Ento, enquanto eu esperava que eles dessem a volta e nos
encontrassem, recitei o nico poema que me veio  cabe a: ,O Carrinho
de Mo Vermelho, de William Carlos Williams.

    tanta coisa depende
    de um
    carrinho de mo
    vermelho

     esmaltado de gua de
    chuva

    ao lado das galinhas
    brancas.

     Williams era mdico. Aquele parecia, para mim, um poema de
mdico. Tinha acabado, mas a ambulncia ainda se afastava de ns, ento
fui compondo o poema.

                                    ***

E tanta coisa depende, falei para o Augustus, de um cu azul descortinado
pelos galhos das rvores. Tanta coisa depende do tubo de alimentao
transparente erupcionando das vsceras do garoto de lbios cianticos.
Tanta coisa depende desse observador do universo.
    S metade consciente, ele olhou para mim e murmurou:
    -- E voc ainda diz que no escreve poesia.
CAPTULO DEZENOVE




E       le saiu do hospital e foi para casa alguns dias depois, final e
        irrevogavelmente esvaziado de suas ambies. Passou a precisar de
        mais remdios para acabar com a dor. Ele se mudou para o andar
de cima permanentemente, para uma cama de hospital colocada perto da
janela da sala de estar.
    Aqueles foram dias de pijamas e barba por fazer, de murmrios, de
pedidos e do Gus agradecendo sem parar a todo mundo por tudo o que
estavam fazendo por ele. Uma tarde, ele apontou vagamente para o cesto
de roupa suja no canto do cmodo e me perguntou:
    -- O que  aquilo?
    -- O cesto de roupa suja?
    -- No, ao lado dele.
    -- No vejo nada ao lado dele.
    -- Meu ltimo resqucio de dignidade.  muito pequeno.

                                    ***

No dia seguinte, entrei sem bater. Eles no queriam mais que eu tocasse a
campainha porque isso poderia acordar o Gus. As irms dele estavam l
com os maridos banqueiros e trs crianas, todas meninos, que correram
at mim e cantaram quem  voc quem  voc quem  voc, correndo em
crculos pelo hall de entrada como se a capacidade pulmonar fosse um
recurso renovvel. Eu j havia sido apresentada s irms, mas nunca s
crianas ou aos pais delas.
     -- Meu nome  Hazel -- falei.
     -- Gus tem namorada -- um dos meninos disse.
     -- Eu sei que o Gus tem namorada -- falei.
     -- Ela tem peito -- um dos outros disse.
     -- Mesmo?
     -- Por que voc carrega isso? -- o primeiro perguntou, apontando
para o carrinho do oxignio.
     -- Ele me ajuda a respirar -- respondi. -- O Gus est acordado?
     -- No, ele est dormindo.
     -- Ele est morrendo -- falou outro.
     -- Ele est morrendo -- confirmou o terceiro, repentinamente srio.
     Tudo ficou em silncio por alguns instantes e eu fiquei tentando
imaginar o que deveria dizer, mas ento um deles chutou o do lado e os
trs saram de novo em disparada, um caindo por cima do outro num
furaco que migrava para a cozinha.
     Segui at a sala de estar para ver os pais do Gus e conheci os
cunhados, Chris e Dave.
     Eu no tinha chegado a conhecer as meias-irms direito, mas ambas
me abraaram mesmo assim. A Julie estava sentada na beira da cama,
falando com um Gus adormecido exatamente com o mesmo tom de voz
que algum usaria para falar para uma criana que ela era adorvel,
dizendo:
     -- Ah, Gussy Gussy, nosso pequeno Gussy Gussy.
     Nosso Gussy? Elas tinham comprado ele?
     -- E a, Augustus? -- falei, tentando reproduzir um modelo de
comportamento apropriado.
     -- Nosso belo Gussy -- disse a Martha, se inclinando para a frente,
mais para perto dele.
     Comecei a me perguntar se o Gus estava dormindo de verdade ou se
tinha pressionado sem parar a bombinha que liberava os analgsicos a fim
de evitar o Ataque das Irms Bem-intencionadas.

                                    ***

Ele acordou depois de um tempo e a primeira coisa que disse foi:
    -- Hazel.
     O que, tenho de admitir, me deixou feliz, como se eu tambm fizesse
parte da famlia dele, talvez.
     -- L fora -- ele falou, baixinho. -- Podemos ir?
     Fomos todos: a me empurrando a cadeira de rodas, as irms, os
cunhados, o pai, os sobrinhos e eu seguindo em procisso. O dia estava
nublado, ainda, e quente, pois o vero havia chegado de vez. O Gus estava
com uma camiseta de manga comprida azul-marinho e cala de moletom.
Por algum motivo, sentia frio o tempo todo. Ele pediu gua, ento seu pai
foi e buscou um copo cheio.
     A Martha tentou puxar conversa com ele, ajoelhando-se a seu lado,
dizendo:
     -- Voc sempre teve olhos to bonitos.
     Ele assentiu com a cabea, devagarinho.
     Um dos maridos colocou um dos braos no ombro do Gus e falou:
     -- O que est achando desse ar puro?
     O Gus deu de ombros.
     -- Voc quer seus remdios? -- a me dele perguntou, se juntando 
roda de pessoas ajoelhadas  sua volta.
     Dei um passo atrs, vendo os sobrinhos destrurem um canteiro de
flores a caminho do pequeno gramado no quintal do Gus. Eles comearam
imediatamente a brincar de jogar um ao outro no cho.
     -- Crianas! -- a Julie gritou sem muita convico. -- S espero --
ela disse, se virando de novo para o Gus -- que eles cresam e sejam o
tipo de jovem atencioso e inteligente que voc se tornou.
     Resisti  vontade de fingir que ia enfiar o dedo na garganta.
     -- Ele no  to inteligente assim -- falei para a Julie.
     -- Ela tem razo.  s que a maioria das pessoas muito bonitas 
burra, por isso eu supero as expectativas.
     --  isso a. Ele  basicamente sensual -- falei.
     -- A minha sensualidade pode meio que cegar -- ele disse.
     -- Como de fato cegou o nosso amigo Isaac -- falei.
     -- Uma tragdia sem precedentes, aquela. Mas d para eu conter a
minha beleza mortal?
     -- No, no d.
     --  minha sina, esse rosto lindo.
     -- Isso sem falar no seu corpo.
     -- Na moral, no vou nem comear a falar do meu corpo sexy. Voc
no ia querer me ver nu, Dave. Na verdade, me ver pelado foi o que fez a
Hazel Grace perder o ar -- ele falou, fazendo um gesto com a cabea na
direo do cilindro de oxignio.
     -- T, j chega -- o pai do Gus disse, e ento, do nada, me abraou e
beijou a minha cabea, sussurrando:
     -- Eu agradeo a Deus todos os dias por voc existir, menina.
     Bem, de qualquer jeito, aquele foi o ltimo dia bom que passei com o
Gus at o ltimo Dia Bom.
CAPTULO VINTE




U          ma das convenes menos sem sentido do tipo criana com
           cncer  a do ltimo Dia Bom, quando a vtima do cncer se v
           vivendo horas imprevistas nas quais parece que, de repente, o
declnio inexorvel atingiu um nvel estvel, quando a dor  suportvel por
um momento. O problema, obviamente,  que no d para saber que seu
ltimo dia bom  o seu ltimo Dia Bom. Na hora, ele  s um dia bom
como outro qualquer.
     Eu no tinha ido visitar o Augustus naquele dia porque eu mesma no
estava me sentindo muito bem: nada especialmente srio, s estava
cansada. Foi um dia de no fazer nada, e quando o Augustus ligou logo
depois das cinco da tarde eu j estava conectada ao BiPAP, que tnhamos
arrastado at a sala de estar para que eu pudesse ver televiso com a
mame e o papai.
     -- Oi, Augustus -- falei.
     Ele respondeu com a voz pela qual eu tinha me apaixonado.
     -- Boa tarde, Hazel Grace. Por acaso voc acha que poderia dar uma
chegada no Corao Literal de Jesus l pelas oito da noite?
     -- Humm... sim.
     -- Excelente. E tambm, se no for pedir demais, voc poderia
preparar um elogio fnebre, por favor?
     -- Humm -- falei.
     -- Eu te amo -- ele disse.
     -- Eu tambm -- completei, e ele desligou o telefone.
     -- Humm -- comecei. -- Preciso ir ao Grupo de Apoio hoje, s oito
da noite. Sesso de emergncia.
     Minha me tirou o som da TV.
     -- Est tudo bem?
     Olhei para ela por um segundo, a sobrancelha arqueada.
     -- Imagino que essa seja uma pergunta retrica.
     -- Mas por que haveria...
     -- Porque, por algum motivo, o Gus precisa de mim. Est tudo bem.
Posso ir dirigindo.
     Fiquei brincando com o BiPAP para que a mame pudesse me ajudar
a tir-lo, mas ela nem se mexeu.
     -- Hazel -- ela falou --, seu pai e eu estamos com a sensao de que
no a vemos mais.
     -- Principalmente aqueles de ns que trabalham a semana toda --
papai disse.
     -- Ele precisa de mim -- falei, finalmente tirando o BiPAP sozinha.
     -- Ns tambm precisamos de voc, filha -- meu pai falou.
     Ele me segurou firme pelo pulso, como se eu fosse uma garotinha de
dois anos prestes a sair correndo pela rua.
     -- Bem, pai, arrume uma doena terminal, e a eu fico mais em casa.
     -- Hazel -- minha me falou.
     -- Era voc quem no queria que eu fosse uma reclusa -- falei para
ela. Papai ainda estava segurando o meu brao. -- E agora quer que ele v
e morra para que eu volte a ficar aprisionada aqui, deixando que voc tome
conta de mim como sempre deixei. Mas eu no preciso disso, me. No
preciso de voc como precisava antes.  voc quem precisa viver a sua
vida.
     -- Hazel! -- o papai falou, apertando ainda mais o meu pulso. --
Pea desculpas  sua me.
     Eu estava puxando meu brao, mas ele no me soltava, e eu no
conseguia colocar a cnula s com uma das mos. Era de dar nos nervos.
Tudo o que eu queria era um rompante adolescente  moda antiga, sair
como um furaco, bater a porta do meu quarto, botar o The Hectic Glow
bem alto para tocar e escrever freneticamente um elogio fnebre. Mas eu
no podia fazer isso porque no conseguia respirar.
     -- A cnula -- eu me queixei. -- Preciso dela.
     Meu pai me soltou imediatamente e se apressou em me conectar com
o oxignio. Pude ver a culpa em seus olhos, mas ele ainda estava com
raiva.
     -- Hazel, pea desculpas para sua me.
     -- T bem, foi mal, s me deixem fazer isso, por favor.
     Eles no disseram nada. Mame continuou sentada com os braos
cruzados, sem nem olhar para mim. Depois de um tempo eu me levantei e
fui para o quarto a fim de escrever sobre o Augustus.
     Tanto a mame quanto o papai bateram na minha porta algumas
vezes, e tal, e eu s respondi dizendo que estava fazendo uma coisa
importante. Levei uma eternidade para descobrir o que gostaria de dizer, e
mesmo depois no fiquei muito satisfeita com o resultado. Antes de dar o
texto por encerrado, tecnicamente falando, reparei que eram 7h40, o que
significava que eu chegaria atrasada mesmo se no trocasse de roupa,
ento, no fim das contas, fui com a cala do pijama de algodo azul-beb,
um par de chinelos e a camiseta do time da Butler, do Gus.
     Sa do quarto e tentei passar direto por eles, mas meu pai disse:
     -- Voc no pode sair desta casa sem permisso.
     -- Ai, meu Deus, pai. O Gus queria que eu escrevesse um elogio
fnebre para ele, t? Eu vou ficar em casa todo. Raio. De. Noite.
Comeando qualquer dia a partir de amanh, tudo bem?
     Aquilo finalmente os fez calar a boca.

                                     ***

S me acalmei da discusso com meus pais quando j estava chegando l.
Dei a volta na parte de trs da igreja e estacionei na entrada de veculos
semicircular, atrs do carro do Augustus. A porta dos fundos estava aberta,
presa por uma pedra do tamanho de um punho. L dentro, considerei a
possibilidade de descer de escada, mas decidi esperar pelo velho elevador.
    Quando a porta do elevador se abriu eu me vi na sala de reunio do
Grupo de Apoio, as cadeiras arrumadas na mesma roda de sempre. Mas
agora o que enxerguei foi s o Gus numa cadeira de rodas, morbidamente
magro. Ele me encarava do meio do crculo. Tinha ficado esperando a
porta do elevador se abrir.
     -- Hazel Grace -- ele disse --, voc est estonteante.
     -- Estou, no estou?
     Ouvi um barulho vindo de um canto escuro do cmodo. O Isaac
estava de p atrs de um pequeno plpito de madeira, apoiando-se nele.
     -- Voc quer se sentar? -- perguntei para o Isaac.
     -- No. Estou prestes a comear um elogio fnebre. Voc est
atrasada.
     -- Voc... eu... o qu?
     O Gus fez um gesto para eu me sentar. Puxei uma cadeira at o meio
da roda, para perto dele, e ele girou a cadeira de rodas para ficar de frente
para o Isaac.
     -- Quero comparecer ao meu enterro -- o Gus disse. -- A propsito,
voc vai dizer algumas palavras no meu enterro?
     -- Humm, claro, vou sim -- falei, deixando minha cabea repousar no
ombro dele.
     Estendi os braos por suas costas e abracei tanto o Gus quanto a
cadeira de rodas. Ele fez uma careta. Eu o larguei.
     -- Beleza -- ele falou. -- Tenho esperana de poder comparecer
como fantasma, mas, s para garantir, pensei que talvez... bem, no  que
eu queira deixar vocs numa situao difcil nem nada, mas esta tarde tive
a ideia de organizar um pr-enterro, e deduzi que, j que estou me
sentindo relativamente bem, no h momento melhor que o presente.
     -- Como  que voc conseguiu entrar aqui? -- perguntei.
     -- Voc acredita que eles deixam a porta aberta a noite toda?
     -- Humm... no -- respondi.
     -- E no deveria mesmo -- o Gus sorriu. -- Bem, de qualquer forma,
sei que isso  um pouco autoengrandecedor.
     -- Ei, voc est roubando meu elogio fnebre -- o Isaac disse. -- A
primeira parte fala de como voc era um filho da me autoengrandecedor.
     Eu ri.
     -- T, t -- o Gus disse. -- Quando quiser.
     O Isaac limpou a garganta.
     -- O Augustus Waters era um filho da me autoengrandecedor. Mas
ns o perdoamos. Ns o perdoamos no porque seu corao figurativo era
to bom quanto o corao literal era ruim, nem porque ele sabia segurar
um cigarro melhor que qualquer outro no fumante na histria, nem
porque ele viveu dezoito anos quando deveria ter vivido mais.
     -- Dezessete -- o Gus corrigiu.
     -- Estou presumindo que voc ainda tenha algum tempo de vida, seu
filho da me que s sabe interromper os outros. Vou dizer uma coisa para
vocs -- o Isaac continuou --, o Augustus Waters falava tanto que seria
capaz de interromper a pessoa falando em seu prprio enterro. E ele era
pretensioso: Meu Jesus Cristo, aquele garoto nunca mijava sem ponderar a
respeito das ressonncias metafricas abundantes na produo de dejetos
humanos. E ele era vaidoso: no creio ter conhecido uma pessoa mais
atraente fisicamente que tivesse uma conscincia to profunda de sua
prpria atratividade fsica. Mas s digo uma coisa: quando os cientistas do
futuro aparecerem na minha casa com olhos robticos e me disserem para
experiment-los, vou mandar eles se foderem, porque no quero ver um
mundo sem o Augustus.
     Eu estava meio que chorando a essa altura.
     -- E a, depois de ter defendido meu argumento retrico, vou colocar
os olhos robticos, porque, quer dizer, com olhos robticos pode ser que
eu consiga ver atravs das camisetas das garotas, e tal. Augustus, meu
amigo, que bons ventos o levem.
     O Augustus balanou a cabea por alguns instantes, os lbios
franzidos, e ento fez um sinal de positivo com o polegar para o Isaac.
Depois de recuperar a compostura, comentou:
     -- Eu deixaria de fora a parte sobre ver atravs das camisetas das
garotas.
     O Isaac ainda estava apoiado no plpito. E comeou a chorar. Apoiou
a testa com o rosto virado para o pdio e eu fiquei vendo seus ombros
tremerem.
     Por fim, ele falou:
     -- Porra, Augustus, editando seu prprio elogio fnebre...
     -- No fale palavro no Corao Literal de Jesus -- o Gus disse.
     -- Porra -- o Isaac repetiu. Ele levantou a mo e engoliu em seco. --
Hazel, voc poderia me dar uma mozinha aqui?
     Tinha me esquecido de que ele no conseguia voltar para a roda
sozinho. Eu me levantei, coloquei a mo dele no meu brao e o guiei
lentamente at a cadeira ao lado do Gus, onde estivera sentada. A andei
at o pdio e desdobrei o pedao de papel no qual havia impresso meu
elogio fnebre.
     -- Meu nome  Hazel. O Augustus Waters foi o grande amor estrela-
cruzada da minha vida. Nossa histria de amor foi pica, e no serei capaz
de falar mais de uma frase sobre isso sem me afogar numa poa de
lgrimas. O Gus sabia. O Gus sabe. No vou falar da nossa histria de
amor para vocs porque, como todas as histrias de amor de verdade, ela
vai morrer com a gente, como deve ser. Eu tinha a expectativa de que ele 
quem estaria fazendo o meu elogio fnebre, porque no h ningum que
eu quisesse tanto que.... -- Comecei a chorar. -- T, como no chorar.
Como  que eu... t. T.
     Respirei fundo algumas vezes e retomei a leitura.
     -- No posso falar da nossa histria de amor, ento vou falar de
matemtica. No sou formada em matemtica, mas sei de uma coisa:
existe uma quantidade infinita de nmeros entre 0 e 1. Tem o 0,1 e o 0,12
e o 0,112 e uma infinidade de outros. Obviamente, existe um conjunto
ainda maior entre o 0 e o 2, ou entre o 0 e o 1 milho. Alguns infinitos so
maiores que outros. Um escritor de quem costumvamos gostar nos
ensinou isso. H dias, muitos deles, em que fico zangada com o tamanho
do meu conjunto ilimitado. Queria mais nmeros do que provavelmente
vou ter, e, por Deus, queria mais nmeros para o Augustus Waters do que
os que ele teve. Mas, Gus, meu amor, voc no imagina o tamanho da
minha gratido pelo nosso pequeno infinito. Eu no o trocaria por nada
nesse mundo. Voc me deu uma eternidade dentro dos nossos dias
numerados, e sou muito grata por isso.
CAPTULO VINTE E UM




O          Augustus Waters morreu oito dias depois do seu pr-enterro, no
          Memorial, na UTI, quando o cncer, que era feito dele,
          finalmente parou seu corao, que tambm era feito dele. Ele
estava com a me, o pai e as irms. A me do Gus me ligou s trs e meia
da madrugada. Eu j sabia, obviamente, que ele estava para partir. Tinha
falado com o pai dele antes de dormir, e ele me disse: , possvel que no
passe de hoje, mas, ainda assim, quando peguei o celular da mesa de
cabeceira e vi Me do Gus na identificao da chamada, tudo dentro de
mim desmoronou. Ela s chorava do outro lado da linha, e me disse que
sentia muito, eu disse que sentia muito tambm, e ela me contou que ele
havia ficado inconsciente por algumas horas antes de morrer.
     Meus pais entraram no meu quarto nessa hora, me olhando na
expectativa, e eu simplesmente assenti com a cabea. Eles se abraaram,
sentindo, tenho certeza, o terror harmnico que viria direcionado
especificamente para eles dali a algum tempo.
     Liguei para o Isaac, que xingou a vida, o universo e at o prprio
Deus, e perguntou onde estavam os raios dos trofus para se quebrar
quando mais se precisava deles. Foi ento que me dei conta de que no
havia mais ningum para quem ligar, o que era muito triste. A nica
pessoa com quem eu queria falar sobre a morte do Augustus Waters era o
Augustus Waters. Meus pais ficaram comigo no quarto por uma
eternidade, at quando j era de manh e o papai finalmente perguntou:
     -- Voc quer ficar sozinha?
     Eu fiz que sim com a cabea e a mame completou:
     -- Estaremos logo ali atrs da porta. E eu pensei: no duvido nada.

                                    ***
Foi insuportvel. A coisa toda. Cada segundo pior que o anterior. Eu s
ficava pensando em ligar para ele, tentando imaginar o que aconteceria, se
algum atenderia o celular. Nas ltimas semanas, ns nos limitamos a
passar o nosso tempo juntos relembrando o passado, mas isso no
significava mais nada: o prazer de lembrar tinha sido tirado de mim,
porque no havia mais ningum com quem compartilhar as lembranas.
Parecia que a perda do colembrador representava a perda da prpria
memria, como se as coisas que tnhamos feito juntos fossem menos reais
e importantes do que eram algumas horas antes.
     Quando voc chega  Emergncia de um hospital, uma das primeiras
coisas que eles pedem  que voc d uma nota para a sua dor numa escala
de um a dez. A partir da eles decidem que medicamentos prescrever e a
velocidade com que tm de ser administrados. Passei por essa situao
centenas de vezes no decorrer dos anos, e me lembro de uma vez, logo no
incio, em que eu no estava conseguindo respirar e parecia que meu peito
pegava fogo, as chamas lambendo meu trax por dentro, tentando
encontrar um jeito de sair e queimar o lado de fora, e meus pais me
levaram para a Emergncia. Uma enfermeira me perguntou sobre a dor e
eu no conseguia nem falar, ento mostrei nove dedos.
     Depois, quando eles j tinham me dado alguma coisa, a enfermeira
voltou e ficou meio que acariciando minha mo enquanto media a minha
presso arterial, ento disse: ,Sabe como eu sei que voc  guerreira? Voc
chamou um dez de nove.
     Mas no foi exatamente o que aconteceu. Eu chamei aquilo de nove
porque estava poupando o meu dez. E aqui estava ele, o grande e terrvel
dez me aoitando sem parar, e eu ali sozinha, deitada na minha cama,
olhando fixamente para o teto, as ondas me jogando de encontro s pedras
e depois me puxando de volta para o mar a fim de poderem me lanar mais
uma vez na face chanfrada do penhasco, me abandonando na gua,
boiando, o rosto virado para cima sem me afogar.
     Acabei ligando para ele. O telefone tocou cinco vezes e a caixa postal
atendeu. ,Esta  a caixa postal do Augustus Waters, ele disse, a voz de
clarim pela qual eu tinha me apaixonado. ,Deixe uma mensagem. E o
bipe. O silncio na linha era muito horripilante. Eu s queria voltar com
ele para aquela terceira dimenso secreta e ps-terrestre que visitvamos
quando falvamos ao telefone. Esperei por aquele sentimento, mas no
veio: o silncio na linha no me trouxe nenhum conforto, e, por fim,
desliguei.
      Peguei meu laptop, que estava debaixo da cama, apertei o boto de
ligar e fui direto no perfil dele, onde as mensagens de psames j
inundavam o mural. A mais recente dizia:

    Eu te amo, irmo. Te vejo do outro lado.

     ...Escrita por algum de quem eu nunca tinha ouvido falar. Na
verdade, quase todos os posts no mural dele, que chegavam quase na
mesma velocidade que eu levava para acabar de ler cada um, foram
escritos por pessoas que no conheci e das quais ele nunca tinha falado,
pessoas que estavam exaltando as diversas virtudes dele agora, depois de
morto, mesmo eu tendo certeza de que no viam o Gus havia vrios meses
e nem tinham feito qualquer esforo para visit-lo. Fiquei tentando
imaginar se meu mural ficaria assim quando eu morresse, ou se eu j tinha
ficado longe da escola e da vida tempo suficiente para escapar da
memorializao generalizada. Continuei lendo.

    J sinto saudade de voc, irmo.
    Eu te amo, Augustus.
    Deus te abenoe e te guarde.
    Voc vai viver para sempre em nossos coraes, grande.

    (Essa, em particular, me irritou, porque implicava a imortalidade
daqueles que ficaram para trs: voc vai viver para sempre na minha
memria, porque eu vou viver para sempre! EU SOU SEU DEUS
AGORA, GAROTO MORTO! EU POSSUO VOC! Achar que voc no
vai morrer , tambm, mais um efeito colateral de se estar morrendo.)
     Voc sempre foi um amigo to legal que sinto muito por no ter te
visto mais depois que saiu da escola, irmo. Aposto que j est batendo
uma bola no paraso.

     Imaginei qual seria a anlise do Augustus Waters quele comentrio.
Se estou jogando basquete no paraso, isso implica a existncia fsica de
um paraso contendo bolas de basquete fsicas? Quem faz as bolas de
basquete em questo? Existem almas menos afortunadas no paraso que
trabalham numa fbrica de bolas de basquete celestial para que eu possa
jogar? Ou ser que foi um Deus onipotente que criou as bolas de basquete
a partir do vcuo no espao? Este paraso fica localizado em algum tipo de
universo no observvel no qual as leis da fsica no se aplicam? Caso isso
seja verdade, por que raios eu estaria jogando basquete quando poderia
estar voando, lendo, admirando pessoas bonitas ou fazendo qualquer outra
coisa de que realmente gosto?  quase como se o modo como voc
imagina meu ,eu morto dissesse mais sobre voc do que sobre a pessoa
que eu era ou sobre o que quer que eu seja agora.

                                     ***

Os pais dele ligaram por volta do meio-dia para dizer que o enterro estava
marcado para dali a cinco dias, no sbado. Imaginei uma igreja cheia de
pessoas que achavam que ele gostava de basquete e quis vomitar, mas
sabia que precisava ir, j que teria de falar, e tudo mais. Quando desliguei
o telefone, voltei a ler o mural:

    Acabei de saber que o Gus Waters morreu depois de uma longa
batalha contra o cncer.
    Descanse em paz, cara.

    Eu sabia que aquelas pessoas estavam sinceramente tristes e que eu
no estava com raiva delas de verdade. Estava com raiva era do universo.
Mesmo assim, aquilo me deixou furiosa: voc ganha todos esses amigos
justo quando no precisa mais. Escrevi um comentrio quele post:

    Ns vivemos num universo dedicado  criao e  erradicao da
conscincia. Augustus Waters no morreu depois de uma longa batalha
contra o cncer. Ele morreu depois de uma longa batalha contra a
conscincia humana, uma vtima -- como voc ser -- da necessidade do
universo de fazer e desfazer tudo o que  possvel.

     Postei aquilo e esperei que algum respondesse, atualizando a pgina
vrias vezes. Nada. Meu comentrio se perdeu na nevasca dos novos posts.
Todo mundo ia sentir muita falta dele. Todos estavam rezando pela famlia
dele. Eu me lembrei da carta do Van Houten: A escrita no ressuscita. Ela
enterra.

                                     ***

Depois de um tempo, fui para a sala de estar a fim de me sentar com meus
pais e ver TV. No sabia dizer que programa era aquele, mas, num
determinado momento, minha me disse:
    -- Hazel, h alguma coisa que possamos fazer por voc? -- S
balancei a cabea. E comecei a chorar de novo. -- O que podemos fazer?
-- ela insistiu.
    Eu dei de ombros.
    Mas ela continuou perguntando, como se houvesse algo que pudesse
fazer, at que, por fim, eu meio que me arrastei pelo sof para o colo dela,
e meu pai chegou mais para perto e segurou minhas pernas com firmeza.
Eu abracei minha me pela cintura e eles ficaram me segurando horas
enquanto a mar se avolumava sobre mim.
CAPTULO VINTE E DOIS




A        ssim que chegamos l eu me sentei no fundo da sala de visitas da
         igreja, um cmodo pequeno de paredes de pedra ao lado do
         santurio na igreja do Corao Literal de Jesus. Havia mais ou
menos umas oitenta cadeiras dispostas pela sala, que estava dois teros
cheia, mas a sensao era de que estava um tero vazia.
     Por um tempo, fiquei s olhando as pessoas indo at o caixo em cima
de um tipo de carrinho coberto com um pano roxo. Todas aquelas pessoas
que eu nunca tinha visto se ajoelhavam ao lado dele ou paravam ao lado
dele e o olhavam por alguns instantes, umas chorando, outras dizendo
alguma coisa, e ento todas colocavam a mo no caixo, em vez de nele,
porque ningum quer tocar os mortos.
     A me e o pai do Gus estavam em p ao lado do caixo, abraando as
pessoas conforme iam passando, mas a me viram, sorriram e vieram at
mim. Eu me levantei e abracei primeiro o pai, depois a me, que me deu
um abrao bem forte, como o Gus costumava fazer, apertando minhas
clavculas. Os dois pareciam muito envelhecidos -- os olhos fundos, a pele
flcida dos rostos exaustos. Eles tambm haviam chegado ao fim de uma
corrida com obstculos.
     -- Ele amava tanto voc... -- a me do Gus disse. -- Ele a amava de
verdade. No era um amor qualquer de adolescente -- ela acrescentou,
como se eu no soubesse.
     -- Ele tambm amava muito voc -- falei baixinho.  difcil explicar,
mas ao falar com os pais do Gus parecia que eu estava dando uma facada
neles e eles, em mim. -- Sinto muito -- eu disse.
     E ento os pais dele foram falar com os meus pais, a conversa limitada
a gestos de cabea e lbios apertados. Olhei para o caixo e vi que no
havia ningum em volta, ento decidi andar at l. Tirei a cnula das
narinas e levantei o cilindro de oxignio, entregando-o para o papai. Eu
queria que fssemos s eu e s ele. Peguei minha bolsinha de mo e andei
pelo corredor criado pelas fileiras de cadeiras.
     A caminhada parecia longa, mas fiquei dizendo aos meus pulmes
para se comportarem, que eles eram fortes, que podiam fazer aquilo. Pude
ver o Gus ao me aproximar do caixo: o cabelo estava perfeitamente
repartido do lado esquerdo, de um jeito que ele teria achado
absolutamente horrvel, e seu rosto parecia plastificado. Mas ainda era o
Gus. Meu magro e belo Gus.
     Quis usar o vestido preto que havia comprado para minha festa de
aniversrio de quinze anos, meu vestido morturio, mas no cabia mais,
ento usei um vestido preto liso que ia at o joelho. O Augustus estava
com o mesmo terno de lapela fina que havia usado no Oranjee.
     Quando ajoelhei, percebi que eles haviam fechado seus olhos, claro
que tinham feito isso, e que eu nunca mais veria aqueles olhos azuis.
     -- Eu te amo no presente do indicativo -- sussurrei, e coloquei minha
mo no meio do peito dele. -- Est tudo bem, Gus. Tudo bem. Est. Est
tudo bem, ouviu? -- No tinha, e no tenho, absolutamente nenhuma
esperana de que ele pudesse me ouvir. Eu me inclinei para a frente e
beijei a bochecha dele. -- O.k. -- falei. -- O.k.
     De repente me dei conta de que havia vrias pessoas nos olhando, e
que, na ltima vez em que tantas pessoas viram um beijo nosso, ns
estvamos na casa da Anne Frank. Mas no havia mais, por assim dizer,
um ,ns para se ver. S um ,eu.
     Abri a bolsinha, enfiei a mo nela e tirei de l um mao de Camel
Lights. Num gesto rpido, que, eu esperava, ningum atrs de mim ia
reparar, enfiei-o no espao entre o corpo dele e o forro de plush prateado
do caixo.
     -- Voc pode acender esses -- sussurrei. -- No vou me importar.

                                    ***

Enquanto eu falava com ele, a mame e o papai haviam se deslocado para
a segunda fileira de cadeiras com meu cilindro, para que eu no tivesse de
andar muito ao voltar. O papai me deu um leno de papel quando me
sentei. Assoei o nariz, ajeitei os tubos nas orelhas e reinseri os cateteres
nasais.
     Achei que iramos at o santurio propriamente dito para a cerimnia,
mas tudo aconteceu naquela pequena sala lateral, a Mo Literal de Jesus,
acho -- a parte da cruz na qual ele fora pregado. Um pastor se posicionou
atrs do caixo, quase como se o caixo fosse um plpito, e tal, e falou um
pouco sobre como o Augustus havia enfrentado uma batalha corajosa e
como o herosmo dele diante da doena foi uma inspirao para todos ns,
e eu j estava comeando a ficar irritada com o homem quando ele disse:
,No paraso, o Augustus vai, finalmente, ser curado e ficar inteiro, o que
implicava que ele tinha sido menos inteiro que as outras pessoas por lhe
faltar uma perna, e eu meio que no consegui evitar um suspiro de
repulsa. Meu pai colocou a mo na minha perna, logo acima do joelho, e
me lanou um olhar de desaprovao, mas da fileira logo atrs de mim
algum resmungou perto do meu ouvido, to baixo que quase no deu para
escutar:
     -- Quanta baboseira, hein, garota?
     Eu me virei.
     O Peter Van Houten usava um terno de linho branco, feito sob
medida para abarcar sua rotundidade, uma camisa azul-claro e uma gravata
verde. Parecia que estava vestido para uma ocupao colonial do Panam,
no para um enterro. O pastor falou:
     -- Oremos. Mas enquanto todo mundo baixava a cabea, eu s
conseguia olhar boquiaberta para aquela viso do Peter Van Houten.
     Depois de alguns segundos, ele sussurrou:
     -- Temos de fingir que estamos orando -- e baixou a cabea.
     Tentei tir-lo da cabea e s rezar para o Augustus. Decidi prestar
ateno ao que o pastor estava falando e no olhar para trs.
     O pastor chamou o Isaac, que estava muito mais srio do que no pr-
enterro.
     -- O Augustus Waters era o prefeito da Cidade Secreta de
Cancervnia, e ele no  substituvel -- o Isaac comeou. -- Outras
pessoas podero contar histrias engraadas sobre o Gus, porque ele era
um cara engraado, mas vou contar uma histria sria: um dia depois de
arrancarem meu olho, o Gus apareceu no hospital. Eu estava cego, com o
corao partido e no queria fazer nada. Ele entrou como um furaco no
meu quarto e gritou: ,Trago timas notcias! E eu falei, tipo: ,No estou a
fim de ouvir timas notcias agora, e o Gus disse: ,Essas so timas
notcias que voc vai querer ouvir, e perguntei para ele: ,T, o que ?, e
ele respondeu: ,Voc vai viver uma vida boa e duradoura cheia de
momentos maravilhosos e terrveis que voc ainda no tem nem como
imaginar como sero!
    O Isaac no conseguiu continuar, ou ento aquilo era tudo o que tinha
escrito.

                                     ***

Depois que um amigo da escola contou algumas histrias sobre os talentos
considerveis do Gus no basquete e suas muitas qualidades como
companheiro de equipe, o pastor disse:
    -- Agora vamos ouvir algumas palavras de uma amiga especial do
Augustus.
    Amiga especial?
     Algumas risadinhas foram ouvidas entre o pblico presente, ento
achei que no haveria problema se eu comeasse dizendo para o pastor:
     -- Eu era a namorada dele.
     Aquilo provocou algumas risadas. E ento comecei a ler o papel com o
elogio fnebre que eu tinha escrito.
     -- H uma citao muito boa na casa do Gus, uma que tanto ele
quanto eu achamos muito reconfortante: Sem dor, no poderamos
reconhecer o prazer.
     Prossegui citando vrios Encorajamentos de merda enquanto os pais
do Gus, de braos dados, se abraavam e anuam com a cabea a cada
palavra. Cheguei a uma concluso: cerimnias como essa so para os vivos.
                                     ***

Depois que a Julie, a irm dele, falou, a cerimnia foi encerrada com uma
orao que falava sobre a unio de Gus com Deus, e a eu pensei no que
ele tinha dito no Oranjee, que no acreditava em manses e harpas, mas
que acreditava, sim, em Algo com A maisculo, ento tentei imagin-lo em
Algum lugar com A maisculo enquanto rezvamos, mas mesmo naquele
momento no consegui me convencer direito de que ns dois ficaramos
juntos de novo. Eu j conhecia muitas pessoas mortas. Sabia que agora o
tempo passaria para mim de um jeito diferente do que passaria para ele.
Que eu, como todas as pessoas naquele ambiente, seguiria acumulando
amores e perdas enquanto ele, no. E para mim aquela era a tragdia final
e verdadeiramente insuportvel: como todos os inumerveis mortos, ele
havia sido, de uma vez por todas, rebaixado de assombrado para
assombrao.
     E a um dos cunhados do Gus havia levado um aparelho de som
porttil e eles botaram para tocar uma msica que o Gus havia escolhido:
uma cano triste e lenta do The Hectic Glow chamada ,The New
Partner. Sinceramente, tudo o que eu queria era ir para casa. Eu no
conhecia quase nenhuma daquelas pessoas, e podia sentir os olhinhos do
Peter Van Houten olhando detidamente para meus ombros expostos, mas,
depois que a msica terminou, todos tiveram de vir at mim e me dizer
que o que eu falei foi lindo e que aquela tinha sido uma cerimnia
adorvel, o que era mentira: aquilo era uma cerimnia de enterro. E se
parecia com qualquer outra cerimnia de enterro.
     Os carregadores do caixo dele -- alguns primos, o pai, um tio, amigos
que eu nunca tinha visto -- se aproximaram e o seguraram, e todos
comearam a andar na direo do carro funerrio.
     Quando mame, papai e eu entramos no carro, falei:
     -- No quero ir. Estou cansada.
     -- Hazel -- mame disse.
     -- Me, no vai ter lugar para sentar, vai durar horas e eu estou
exausta.
     -- Hazel, ns temos que ir pelo Sr. e pela Sra. Waters -- mame
argumentou.
     --  s que... -- falei.
     Eu me senti muito pequena no banco traseiro do carro, por algum
motivo. Eu meio que queria ser pequena. Queria ter seis anos ou coisa
parecida.
     -- T bem -- falei.
     Fiquei s olhando pela janela por um tempo. Eu realmente no queria
ir. No queria v-los baixando o Gus para debaixo da terra, no local que ele
havia escolhido com o pai; no queria ver os pais dele caindo de joelhos na
grama mida de orvalho e gemendo de dor, no queria ver a barriga
alcolatra do Peter Van Houten estufada no terno de linho, no queria
chorar na frente de um monte de gente, no queria jogar um bocado de
terra na sepultura dele, no queria que meus pais tivessem que ficar ali
debaixo daquele cu azul e lmpido com a luminosidade do entardecer e
sua certa obliquidade, pensando que chegaria o dia deles, o da filha deles,
do meu lote, do meu caixo e da minha terra.
     Mas fiz tudo isso. Tudo isso e muito mais, porque mame e papai
achavam que devamos.

                                     ***

Assim que terminou, o Van Houten andou at onde eu estava, colocou a
mo gorda no meu ombro e disse:
     -- Posso pegar uma carona com voc? Deixei meu carro alugado l no
p da ladeira.
     Dei de ombros e ele abriu a porta de trs na mesma hora em que meu
pai destrancou o carro.
     L dentro, ele se inclinou entre os bancos da frente e disse:
     -- Peter Van Houten: Romancista Emrito e Desapontador
Semiprofissional.
     Meus pais se apresentaram. Ele os cumprimentou com um aperto de
mo. Eu estava bastante surpresa pelo fato de o Peter Van Houten ter
voado meio mundo para comparecer a um enterro.
     -- Como  que voc.... -- comecei, mas ele me cortou.
     -- Utilizei sua Internet infernal para acompanhar o obiturio de
Indianpolis. -- Ele colocou a mo dentro do terno de linho e tirou de l
uma garrafa de usque de 750 ml.
     -- E simplesmente comprou uma passagem de avio e...
     Ele me interrompeu de novo enquanto desenroscava a tampa.
     -- Paguei 15 mil por uma passagem de primeira classe, mas sou
suficientemente capitalizado para me dar a esses luxos. E as bebidas no
voo so de graa. Dependendo da sua ambio, d quase para ficar no zero
a zero.
     O Van Houten deu uma golada no usque e depois chegou o corpo
para a frente, a fim de oferec-lo ao meu pai, que reagiu dizendo:
     -- Ah, no, obrigado.
     Em seguida, o Van Houten fez um gesto com a garrafa na minha
direo. Eu a segurei.
     -- Hazel -- minha me disse, mas eu desenrosquei a tampa e bebi
um pouco. Aquilo fez meu estmago se sentir como meus pulmes.
     Entreguei a garrafa de volta para o Van Houten, que entornou um
bocado para dentro e falou:
     -- Ento. Omnis cellula e cellula.
     -- Hein?
     -- Seu namorado Waters e eu nos correspondemos um pouquinho, e
em sua ltima...
     -- Pera, voc l cartas de fs agora?
     -- No, ele mandou a carta para a minha casa, e no atravs do meu
editor. E eu no poderia cham-lo de f. Ele me desprezava. Mas, de
qualquer forma, ele insistiu muito no fato de que eu seria absolvido de
meu mau comportamento se comparecesse ao enterro dele e dissesse a
voc o que acontece com a me da Anna. Ento, aqui estou, e eis sua
resposta: Omnis cellula e cellula.
     -- O qu? -- perguntei de novo.
     -- Omnis cellula e cellula -- ele falou mais uma vez. -- Toda clula
procede de outra clula. Toda clula nasce de uma que a antecede, que se
formou a partir de uma anterior. A vida procede da vida. Vida gera vida
gera vida gera vida gera vida.
     Chegamos ao p da ladeira.
     -- T. Ento t -- falei.
     Eu no estava com disposio para aturar aquilo. O Peter Van Houten
no ia desviar todas as atenes para ele no enterro do Gus. Eu no o
deixaria fazer isso.
     -- Obrigada -- falei. -- Bem, acho que j chegamos  base da ladeira.
     -- Voc no quer ouvir uma explicao para isso? -- ele perguntou.
     -- No. Estou satisfeita. O que eu acho  que voc  um alcolatra
pattico que fala coisas difceis para chamar a ateno como se fosse um
garoto de onze anos precoce, e eu sinto muita pena de voc. Mas, pois ,
no, voc no  mais o cara que escreveu Uma aflio imperial, por isso
no poderia escrever a continuao dele mesmo se quisesse. Mas obrigada,
mesmo assim. Tenha uma vida excelente.
     -- Mas...
     -- Obrigada pelo gor -- falei. -- Agora saia do carro.
     Ele estava com aquela expresso de criana sendo repreendida. O
papai havia parado o carro e ns ficamos ali parados abaixo do tmulo do
Gus por um minuto at que o Van Houten abriu a porta e, finalmente em
silncio, saiu.
     Enquanto nos afastvamos com o carro, olhei pela janela traseira e o vi
dar um gole na bebida e levantar a garrafa na minha direo, como se
estivesse brindando a mim. Os olhos dele estavam muito tristes. Tive um
pouco de pena, para ser sincera.

                                     ***

Por fim, chegamos de volta  nossa casa perto das seis, e eu estava exausta.
S queria dormir, mas mame me fez comer um pouco de macarro com
queijo. Pelo menos ela deixou que eu comesse na cama. Dormi algumas
horas com o BiPAP. Acordar foi um horror, porque, por um momento de
desorientao, tive a sensao de que tudo estava bem, mas logo depois
me senti sendo esmagada de novo. Mame me tirou do BiPAP, eu me
conectei a um cilindro porttil e segui aos trancos e barrancos at o meu
banheiro para escovar os dentes.
    Ao me olhar no espelho enquanto escovava os dentes, fiquei pensando
que existiam dois tipos de adultos: os Peter Van Houtens -- criaturas
desprezveis que varriam a Terra  procura de algo a que magoar, e pessoas
como meus pais, que andavam de um lado para outro como zumbis,
fazendo o que quer que tivessem de fazer para continuar andando de um
lado para outro.
    Nenhum desses futuros me pareceu particularmente almejvel. Eu
me sentia como se j tivesse visto tudo o que h de mais puro e bom no
mundo e comeava a suspeitar de que, mesmo se a morte no tivesse
atrapalhado o andar da carruagem, o tipo de amor que eu e o Augustus
compartilhamos no teria durado. Assim a aurora se transforma em dia, o
poeta escreveu. Nada que  dourado fica. Algum bateu na porta do
banheiro.
    -- Est ocupado -- falei.
    -- Hazel -- meu pai disse. -- Posso entrar?
    No respondi, mas depois de um tempo destranquei a porta. E me
sentei no vaso sanitrio com a tampa fechada. Por que o ato de respirar
precisava ser to trabalhoso? Papai se ajoelhou ao meu lado. Ele segurou
minha cabea, puxou-a at encostar no ombro dele, e disse:
    -- Sinto muito pela morte do Gus.
    Eu me senti meio que sufocada pela camisa de malha dele, mas a
sensao de ser segurada com tanta intensidade era boa demais, aninhada
no cheiro familiar do meu pai. Era quase como se ele estivesse com raiva
ou coisa assim, e gostei disso, porque eu tambm estava.
    --  tudo uma grande palhaada -- ele disse. -- A coisa toda. Uma
taxa de sobrevivncia de oitenta por cento e ele est nos vinte por cento?
Palhaada. Ele era um garoto to brilhante!  uma palhaada. Odeio isso.
Mas com certeza foi um privilgio poder amar o Gus, no foi?
    Fiz que sim com a cabea, encostada na camisa dele.
    -- Isso lhe d uma ideia de como me sinto em relao a voc -- ele
disse.
    Meu velho e amado pai. Sempre sabia a coisa certa a dizer.
CAPTULO VINTE E TRS




A        lguns dias depois, me levantei por volta do meio-dia e fui de carro
         at a casa do Isaac. Ele mesmo veio abrir a porta.
         -- Minha me levou o Graham ao cinema -- ele disse.
     -- Ns deveramos fazer alguma coisa -- falei.
     -- Essa alguma coisa pode ser jogar videogames para cegos no sof?
     -- , essa  exatamente a alguma coisa que eu tinha em mente.
     Ento ficamos sentados ali umas duas horas juntos, falando com a
tela, navegando por uma caverna labirntica invisvel sem um lmen de luz
sequer. A parte mais divertida do jogo era, de longe, tentar fazer o
computador estabelecer um dilogo engraado com a gente:
     Eu: ,Encoste na parede da caverna.
     Computador: ,Voc encosta na parede da caverna. Ela est mida.
     Isaac: ,Lamba a parede da caverna.
     Computador: ,No compreendo. Fale de novo?
     Eu: ,D um amasso na parede mida da caverna.
     Computador: ,Voc tenta dar um passo. Voc bate com a cabea.
     Isaac: ,No  d um passo.  D UM AMASSO.
     Computador: ,No compreendo.
      Isaac: ,Cara, eu tenho estado sozinho nesta caverna escura h vrias
semanas e preciso me aliviar. D UM AMASSO NA PAREDE DA
CAVERNA.
     Computador: ,Sua tentativa de dar um pass...
      Eu: ,Pressione a plvis com
     tra a parede da caverna.
     Computador: ,No com...
     Isaac: ,Faa amor com a caverna.
     Computador: ,No com...
     Eu: ,T BEM. Siga pelo ramo esquerdo.
     Computador: ,Voc segue pelo ramo esquerdo. A passagem se
estreita.
     Eu: ,Engatinhe.
     Computador: ,Voc engatinha noventa metros. A passagem se
estreita.
     Eu: ,Rasteje como uma cobra.
     Computador: ,Voc rasteja como uma cobra por trinta metros. Um fio
de gua percorre seu corpo. Voc alcana um monte de pedrinhas que
bloqueiam o caminho.
     Eu: ,Posso dar um amasso na caverna agora?
     Computador: ,Voc no pode dar um passo sem ficar de p primeiro.
     Isaac: ,Eu no gosto de viver num mundo sem o Augustus Waters.
     Computador: ,No compreendo...
     Isaac: ,Eu tambm no. Pausa.

                                     ***

Ele largou o controle no sof, entre ns dois, e perguntou:
     -- Voc sabe se ele sofreu, e tal? -- Acho que fez um esforo enorme
para respirar -- falei -- e acabou ficando inconsciente, mas parece que, ,
no foi muito legal nem nada. Morrer  uma droga.
     --  -- o Isaac falou. E, depois de algum tempo: --  que parece to
impossvel...
     -- Acontece o tempo todo -- falei.
     -- Voc est com raiva -- ele disse.
     -- .
     Ns dois ficamos ali sentados por um bom tempo, numa boa, e eu
fiquei pensando no incio de tudo no Corao Literal de Jesus, quando o
Gus nos disse que tinha medo do esquecimento e eu falei que ele estava
com medo de algo universal e inevitvel, e que, na verdade, o problema
no  o sofrimento nem o esquecimento em si, mas a ausncia imoral de
sentido nisso tudo, o niilismo absolutamente inumano do sofrimento.
Pensei no meu pai me dizendo que o universo quer ser notado. Mas o que
ns queremos  ser notados pelo universo, fazer com que o universo d
alguma bola para o que acontece com a gente -- no a ideia coletiva de
vida senciente, mas cada um de ns, como indivduos.
     -- O Gus amava voc de verdade, sabe -- ele falou.
     -- Sei.
     -- Ele no conseguia parar de falar nisso.
     -- Eu sei.
     -- Era irritante.
     -- Eu no achava irritante -- falei.
     -- Ele chegou a te dar aquela coisa que ele estava escrevendo?
     -- Que coisa?
     -- A continuao, ou sei l o qu, daquele livro que voc gostava. Eu
me virei para o Isaac.
     -- O qu?
     -- Ele disse que estava escrevendo alguma coisa para voc mas que
no era bom escritor.
     -- Quando foi que ele disse isso?
     -- Sei l. Foi, tipo, em algum momento depois da volta de Amsterd.
     -- Em que momento? -- pressionei-o.
     Ser que Gus no teve a chance de completar? Ser que tinha
terminado e deixado no computador ou algo assim?
     -- Humm -- o Isaac suspirou.
     -- Humm. No sei. Ns falamos disso aqui, uma vez. Ele estava aqui,
tipo... , ns mexemos na minha mquina de e-mails e eu tinha acabado
de receber um e-mail da minha av. Posso procurar na mquina se voc...
     -- T, t, cad?

                                    ***

Ele tinha falado daquilo um ms atrs. Um ms! No um bom ms, devo
reconhecer, mas ainda assim um ms. Era tempo suficiente para ter
conseguido escrever pelo menos alguma coisa. Ainda havia algo dele, ou
pelo menos feito por ele, flutuando por a. E eu precisava daquilo.
     -- Vou at a casa dele -- falei para o Isaac.
     Andei apressada at a minivan e arrastei o carrinho do oxignio para o
banco do carona. Liguei o carro. Uma batida de hip-hop comeou a tocar
alto no som e, quando estiquei a mo para mudar de estao, algum
comeou a cantarolar um rap. Em sueco.
     Eu me virei e gritei quando vi o Van Houten no banco de trs.
     -- Peo desculpas por alarm-la -- o Peter Van Houten disse, sua voz
se misturando com o som do rap.
     Ele ainda estava com o terno que tinha usado no enterro, quase uma
semana depois. Seu cheiro era de quem tinha lcool saindo pelos poros
junto com o suor.
     -- Voc pode ficar com o CD -- ele disse. --  o Snook. Na Sucia
ele  um dos maiores....
     -- Ai ai ai ai SAIA DO MEU CARRO.
     Desliguei o rdio.
     -- Este carro  da sua me, se bem entendi -- ele disse. -- Alm
disso, no estava trancado.
     -- Ai, meu Deus! Saia do carro seno vou chamar a polcia. Cara, qual
 o seu problema?
     -- Se pelo menos houvesse s um -- ele divagou. -- S estou aqui
para pedir desculpas. Voc estava certa quando observou, anteriormente,
que sou um homem pattico e dependente do lcool. Uma conhecida
minha s passava algum tempo comigo porque eu a pagava para faz-lo. E
o pior  que ela se demitiu, deixando-me, a alma rara que no consegue
companhia nem mediante suborno.  tudo verdade, Hazel. Tudo isso e
muito mais.
     -- T -- falei.
     Teria sido um discurso mais tocante se ele no tivesse engrolado as
palavras.
     -- Voc me lembra a Anna.
     -- Eu lembro muita gente a muita gente -- respondi. -- Realmente
preciso ir.
    --  s dirigir -- ele disse.
    -- Saia.
    -- No. Voc me lembra a Anna -- ele disse de novo.
    Depois de um segundo, engatei a marcha  r e comecei a andar com
o carro. Eu no estava conseguindo faz-lo sair, e no precisava continuar
tentando. Iria at a casa do Gus e os pais do Gus o fariam ir embora.
    -- Obviamente voc est familiarizada -- o Van Houten disse -- com
Antonietta Meo.
    -- No -- falei.
    Liguei o rdio e o hip-hop sueco tocou alto, mas o Van Houten gritou
mais alto ainda.
    -- Ela poder se tornar, em breve, a santa no mrtir mais jovem a ser
beatificada pela Igreja Catlica. Teve o mesmo cncer que o Sr. Waters,
osteossarcoma. Eles amputaram a perna direita dela. A dor era
excruciante. Enquanto Antonietta Meo estava  beira da morte, na tenra
idade de seis anos, por causa desse cncer agonizante, disse para o pai: ,A
dor  como um tecido. Quanto mais forte, mais valioso. Isso  verdade,
Hazel?
    Eu no estava olhando diretamente para ele, mas para seu reflexo no
espelho.
    -- No -- gritei mais alto que a msica. -- Isso  bobagem.
    -- Mas voc no gostaria que fosse verdade? -- ele gritou em
resposta.
    Eu desliguei o som.
    -- Sinto muito por ter estragado sua viagem. Vocs eram to jovens...
Vocs eram...
     Ele comeou a chorar. Como se tivesse algum direito de chorar pela
morte do Gus. O Van Houten era apenas mais um dos diversos
pranteadores que no o conheciam, mais um lamento que chegou tarde
demais em seu mural.
    -- Voc no estragou nossa viagem, seu filho da me convencido.
Nossa viagem foi maravilhosa.
    -- Estou tentando -- ele disse. -- Estou tentando, juro.
     Foi mais ou menos nessa hora que acabei me dando conta de que o
Peter Van Houten tinha perdido algum da famlia. Pensei na honestidade
com a qual ele havia escrito a respeito de crianas com cncer; no fato de
no ter conseguido falar comigo e s perguntado se eu tinha me vestido
como a Anna de propsito; toda aquela baboseira que ele jogou para cima
de mim e do Augustus; a pergunta dolorosa dele sobre a relao entre a
gravidade da dor e seu valor. Ele chegou o corpo para trs e continuou
sentado, bebendo, um velho que vinha bebendo havia vrios anos.
Lembrei de uma estatstica que preferia no conhecer: metade dos
casamentos terminam no ano que se segue  morte de um filho. Olhei
para trs, para o Van Houten. Eu estava percorrendo a Avenida College, a
encostei atrs de uma fileira de carros estacionados e perguntei.
     -- Voc teve um filho que morreu?
     -- Minha filha -- ele disse. -- Tinha oito anos. Sofreu lindamente.
Nunca ser beatificada.
     -- Ela teve leucemia? -- perguntei.
     Ele fez que sim com a cabea.
     -- Como a Anna -- falei.
     -- Sim, exatamente como a Anna.
     -- Voc era casado?
     -- No. Bem, no quando ela morreu. Eu me tornei uma pessoa
insuportvel muito antes de ns a perdermos. A tristeza no nos muda,
Hazel. Ela nos revela.
     -- Voc morava com ela?
     -- No, no no incio, embora no fim ns a tenhamos levado para
Nova York, onde eu estava morando, para uma srie de torturas
experimentais que aumentaram o sofrimento de seus dias sem aument-los
em nmero.
     Depois de um segundo, eu falei:
     -- Ento  como se voc tivesse dado a ela uma segunda vida na qual
conseguiu chegar  adolescncia.
     -- Suponho que essa seja uma avaliao razovel -- ele disse, e ento
logo acrescentou:
     -- Presumo que voc esteja familiarizada com o exerccio mental de
Philippa Foot intitulado ,dilema do bonde?
     -- E a eu apareo na sua casa, vestida como a menina que voc
esperava que ela viveria para se tornar, e voc fica, tipo, desconcertado.
     -- Em determinada linha, h um bonde desgovernado -- ele disse.
     -- No dou a mnima para o seu exerccio mental idiota -- falei.
     --  o exerccio da Philippa Foot, na verdade.
     -- Bem, nem para o dela.
     -- Ela no entendia por que aquilo estava acontecendo -- ele disse.
-- Tive de contar para ela que iria morrer. A assistente social falou que eu
precisava contar. Precisei lhe dizer que iria morrer, ento falei que ela iria
para o cu. Ela perguntou se eu estaria l, ento respondi que no, no
naquele momento. Mas algum dia, ela quis saber, e prometi que sim,
claro, muito em breve. E falei que naquele nterim haveria uma tima
famlia l em cima que tomaria conta dela. Ela me perguntou quando eu
iria para l, e respondi que seria logo. Vinte e dois anos atrs.
     -- Sinto muito.
     -- Eu tambm.
     Depois de um tempo, perguntei:
     -- O que aconteceu com a me dela?
     Ele sorriu.
     -- Voc ainda est em busca de uma continuao, sua danadinha.
     Sorri tambm.
     -- Voc deveria voltar para casa -- falei para ele. -- Fique sbrio.
Escreva outro livro. Faa aquilo no qual voc  bom. Nem todo mundo
tem essa sorte de ser bom em alguma coisa. Ele ficou olhando fixamente
para mim pelo espelho durante um bom tempo.
     -- Certo -- ele disse. -- Est bem. Voc tem razo. Voc tem razo.
Mas, mesmo ao dizer isso, tirou do bolso a garrafa de usque quase vazia.
Bebeu, recolocou a tampa na garrafa e abriu a porta.
     -- Tchau, Hazel. -- Fique bem, Van Houten.
     Ele se sentou no meio-fio atrs do carro. Enquanto eu o via encolher
pelo espelho retrovisor, ele pegou a garrafa e por um instante pareceu que
iria deix-la no meio-fio. Mas ento tomou outro gole.

                                     ***

Era uma tarde quente em Indianpolis, o ar carregado e esttico como se
estivssemos dentro de uma nuvem. Era o pior tipo de ar para mim, e
tentei me convencer de que era s o ar quando a caminhada da entrada de
veculos at a porta da casa do Gus pareceu infinita. Toquei a campainha e
a me dele abriu a porta.
     -- Ah, Hazel -- ela disse, e me abraou chorando.
     Ela me fez acompanh-la e ao pai do Gus comendo um pouco de
lasanha de berinjela -- acho que muita gente tinha levado comida at l, e
tal.
     -- Como voc est?
     -- Sinto falta dele.
     -- .
     Eu no sabia bem o que dizer. Tudo o que queria era ir l embaixo e
procurar o que quer que ele tivesse escrito para mim. Alm disso, o
silncio naquele ambiente realmente me incomodava. Queria que eles
estivessem conversando um com o outro, se consolando ou de mos dadas
ou sei l. Mas eles s ficavam l sentados, comendo pores muito
pequenas de lasanha, sem nem se dirigir o olhar.
     -- O cu precisava de um anjo -- o pai dele disse depois de um
tempo.
     -- Eu sei -- falei.
     A as irms dele e seus filhos bagunceiros chegaram e invadiram a
cozinha. Eu me levantei e as abracei, e depois fiquei vendo as crianas
correrem pela cozinha com seu excesso extremamente necessrio de
barulho e movimento, molculas excitadas se chocando umas contra as
outras e gritando:
     T com voc no t com voc no estava comigo mas a eu peguei
voc voc no me pegou voc nem chegou a encostar em mim ento estou
pegando voc agora no seu bundo porque agora ns estamos dando um
tempo DANIEL NO CHAME SEU IRMO DE BUNDO Me se eu
no posso dizer essa palavra por que voc acabou de falar bundo bundo
-- e ento, em coro, bundo bundo bundo bundo, e,  mesa, os pais do
Gus estavam agora de mos dadas, o que me fez sentir um pouco melhor.
    -- O Isaac me disse que o Gus estava escrevendo uma coisa, uma
coisa para mim -- falei.
    As crianas ainda estavam cantando o mel do bundo.
    -- Podemos dar uma olhada no computador dele -- a me do Gus
disse.
    -- Ele no usou muito o computador nas ltimas semanas -- falei.
    --  verdade. No tenho nem certeza se o trouxemos aqui para cima.
Ainda est no poro, Mark?
    -- No fao ideia.
    -- Bem -- falei --, ser que posso...
    Fiz um gesto com a cabea na direo do poro.
    -- Ainda no estamos preparados -- o pai dele disse. -- Mas, claro
que sim, Hazel.  claro que voc pode.

                                       ***

Andei at l embaixo, passei pela cama desarrumada, pelas poltronas do
videogame abaixo da TV. O computador dele ainda estava ligado. Cliquei
no mouse para ativ-lo e ento procurei pelos arquivos editados mais
recentemente. Nada no ltimo ms. A coisa mais recente era uma resenha
do livro O olho mais azul, de Toni Morrison.
     Talvez ele tivesse escrito algo  mo. Andei at as prateleiras de livros,
procurando um dirio ou bloco ou caderno. Nada. Folheei o exemplar dele
do Uma aflio imperial. O Gus no havia deixado uma marquinha sequer
no livro. Em seguida andei at a mesa de cabeceira. Mayhem infinito, o
nono volume da srie ,O preo do alvorecer, estava em cima da mesa ao
lado do abajur, a pgina 138 com uma orelha dobrada.
     Ele nem conseguiu chegar ao fim do livro.
     -- Para acabar com o suspense: o Mayhem sobrevive -- falei alto,
caso ele conseguisse me ouvir.
     E a eu deitei na cama desarrumada, me enrolando no edredom como
um casulo, me envolvendo no cheiro dele. Tirei a cnula para poder sentir
melhor aquele cheiro, inspirando e expirando o Gus, o aroma j se
dissipando mesmo enquanto eu ainda estava deitada l, meu peito
queimando at eu no poder diferenciar as dores.
     Eu me sentei na cama depois de um tempo, reinseri minha cnula e
respirei por alguns minutos antes de subir as escadas. S o que fiz foi
balanar a cabea negativamente em resposta aos olhares de expectativa
dos pais dele. As crianas passaram por mim correndo. Uma das irms do
Gus, eu no sabia ainda dizer quem era quem, falou:
     -- Me, voc quer que eu os leve para o parque ou algo assim?
     -- No, no, est tudo bem.
     -- H algum outro lugar no qual o Gus possa ter colocado um bloco
ou caderno? Tipo, ao lado da cama de hospital, quem sabe? A cama j
tinha sido retirada de l, como requisitado pelo hospital.
     -- Hazel -- o pai dele falou --, voc esteve aqui conosco todos os
dias... ele no ficava muito tempo sozinho, querida. No teria tido tempo
de escrever nada. Sei que voc quer... Quero isso tambm. Mas as
mensagens que ele nos deixa agora esto vindo l de cima, Hazel.
     Ele apontou para o teto, como se o Gus estivesse pairando sobre a
casa. Talvez estivesse. No sei. Mas no conseguia sentir a presena dele.
     --  -- falei.
     Prometi visit-los novamente dali a alguns dias.
     Nunca mais senti o cheiro dele de novo.
CAPTULO VINTE E QUATRO




T
        rs dias depois, no terceiro dia DG, o pai do Gus me ligou de
        manh. Eu ainda estava conectada ao BiPAP, por isso no atendi,
        mas ouvi o recado deixado na caixa postal assim que o celular
apitou avisando do recebimento.
     ,Hazel, oi, aqui  o pai do Gus. Eu achei um Moleskine preto no
revisteiro que estava do lado da cama de hospital, acho que prximo o
suficiente para ele alcan-lo. Infelizmente no h nada escrito nele. As
pginas esto todas em branco. Mas as primeiras, acho que umas trs ou
quatro, foram arrancadas. Vasculhamos a casa toda  procura delas, mas
no as encontramos. Por isso no sei o que pensar. Mas talvez fosse a
essas pginas que o Isaac estava se referindo. De qualquer forma, espero
que esteja bem. Voc est em nossas oraes todos os dias, Hazel. Ento,
t. Um beijo. Tchau.
     Trs ou quatro pginas arrancadas de um Moleskine e que no
estavam mais na casa do Augustus Waters. Onde ele as teria deixado para
mim? Presas com fita adesiva nos Ossos Maneiros? No, ele no estava em
condies de ir at l. O Corao Literal de Jesus. Talvez ele tivesse
deixado as pginas l para mim no seu ltimo Dia Bom.
     Por causa disso, sa para ir ao Grupo de Apoio no dia seguinte vinte
minutos mais cedo. Fui dirigindo at a casa do Isaac, ele entrou no carro e
ns seguimos para o Corao Literal de Jesus com as janelas da minivan
abertas, ouvindo o novo lbum do The Hectic Glow, recentemente
disponibilizado na rede. Que o Gus nunca ouviria.
     Pegamos o elevador. Guiei o Isaac at uma cadeira na Roda da
Esperana e depois fui percorrendo vagarosamente todo o Corao Literal.
Olhei em todos os lugares: debaixo das cadeiras, em volta do plpito atrs
do qual eu tinha ficado enquanto lia meu elogio fnebre, debaixo da mesa
de biscoitos, no quadro de avisos cheio de desenhos do amor divino feitos
pelas crianas que frequentavam a escola dominical. Nada. Aquele foi o
nico lugar onde tnhamos estado juntos nos ltimos dias, alm da casa
dele. Ou as pginas no estavam ali ou eu estava esquecendo de procurar
em algum lugar. Talvez ele as tivesse deixado para mim no hospital, mas,
se fosse esse o caso, elas com certeza foram jogadas fora depois da morte
dele.
     Eu estava realmente sem flego quando, por fim, me sentei numa
cadeira ao lado do Isaac, e me dediquei, durante todo o depoimento da
ausncia de bolas do Patrick, a dizer a meus pulmes que eles estavam
bem, que podiam respirar, que havia oxignio suficiente. O lquido deles
havia sido drenado uma semana antes da morte do Gus. Fiquei vendo a
gua cancerosa cor de mbar pingar para fora de mim pelo tubo. E mesmo
assim tinha a sensao de que estavam cheios de novo. Fiquei to
concentrada em dizer a mim mesma para respirar que, num primeiro
momento, no reparei que o Patrick tinha dito o meu nome. Retomei a
ateno num estalo.
     -- Sim? -- perguntei.
     -- Como voc est?
     -- Estou bem, Patrick. Um pouco sem flego.
     -- Gostaria de compartilhar com o grupo uma lembrana que tem do
Augustus?
     -- Eu s queria poder morrer, Patrick. Alguma vez voc j sentiu
vontade de simplesmente morrer?
     -- J -- o Patrick disse, sem fazer a pausa costumeira. -- J,  claro.
Ento por que voc no morre?
     Pensei naquilo. Minha resposta, retirada de um estoque antigo, era
que eu queria continuar viva pelos meus pais, porque eles ficariam
arrasados e sem filhos depois de mim, e aquilo ainda era meio verdade,
mas no era bem isso, exatamente.
     -- No sei.
     -- Porque voc tem esperana de melhorar?
     -- No -- falei. -- No, no  isso. Eu realmente no sei. Isaac? --
passei a bola.
     Estava cansada de falar.
     O Isaac comeou a falar do amor verdadeiro. Eu no poderia dizer a
eles o que tinha em mente porque soava brega, mas o que eu estava
pensando era no universo querendo ser notado e em como eu havia
reparado nele da melhor forma possvel. Eu me sentia em dvida com o
universo, uma dvida que s a minha ateno poderia saldar, e, alm disso,
me sentia em dvida com todo mundo que deixou de ser uma pessoa e com
todo mundo que ainda no tinha chegado a ser uma pessoa. Tudo o que
meu pai tinha me dito, basicamente.
     Fiquei em silncio at o fim da reunio do Grupo de Apoio, o Patrick
me dedicou uma orao especial, o nome do Gus foi adicionado  longa
lista de mortos -- quatorze para cada um de ns -- todos prometemos
viver o melhor da nossa vida hoje, e a eu levei o Isaac para o carro.

                                    ***

Quando cheguei de volta  minha casa, mame e papai estavam  mesa de
jantar, cada um com seu laptop, e assim que entrei pela porta mame
fechou a tampa do dela.
     -- O que tem no computador?
     -- S algumas receitas antioxidantes. Preparada para o BiPAP e para o
America's Next Top Model? -- ela perguntou.
     -- S vou me deitar um minuto.
     -- Voc est bem?
     -- Estou, s um pouco cansada.
     -- Bem, voc precisa comer antes de...
     -- Me, eu no estou com a menor fome.
     Dei um passo na direo da porta, mas ela me parou.
     -- Hazel, voc precisa comer. S um pouco de...
     -- No. Estou indo deitar.
     -- No -- mame falou. -- Voc no vai. Olhei para o meu pai, que
s deu de ombros.
     --  a minha vida -- falei.
     -- Voc no vai ficar com fome at morrer s porque o Augustus se
foi. Voc vai jantar.
      Fiquei muito irritada, por algum motivo.
     -- Eu no consigo comer, me. No consigo. T?
     Tentei passar por ela, mas a mame me segurou pelos ombros e disse:
     -- Hazel, voc vai jantar. Voc precisa se manter saudvel.
     -- NO! -- gritei. -- No vou jantar e no posso me manter saudvel
porque no sou saudvel. Estou morrendo, me. Vou morrer e deixar voc
aqui sozinha, e voc no vai mais ter uma ,eu para pairar em torno, e voc
no vai mais ser me, e eu sinto muito, mas no h nada que eu possa
fazer a respeito, t?!
     Eu me arrependi de ter dito aquilo assim que fechei a boca. -- Voc
ouviu o que eu disse.
     -- O qu?
     -- Voc ouviu quando eu disse isso ao seu pai? -- Ela arregalou os
olhos. -- Voc escutou? -- Eu fiz que sim. -- Ai, meu Deus, Hazel. Sinto
muito. Eu estava errada, querida. Aquilo no era verdade. Eu falei num
momento de desespero. No  algo em que eu acredite. -- ela disse e se
sentou, e eu me sentei junto.
     Fiquei pensando que deveria simplesmente ter vomitado algum
macarro por ela, em vez de ter ficado to irritada.
     -- Em que voc acredita, ento? -- perguntei.
      -- Enquanto uma de ns estiver viva, eu serei sua me -- ela falou.
-- Mesmo se voc morrer, eu...
     -- Quando -- falei.
     Ela assentiu com a cabea.
     -- Mesmo quando voc morrer, eu ainda serei sua me, Hazel. No
vou deixar de ser sua me. Voc deixou de amar o Gus?
     Balancei a cabea negativamente.
     -- Bem, ento como eu poderia deixar de amar voc?
      -- T -- falei. Meu pai comeou a chorar.
     -- Eu quero que vocs vivam a vida de vocs -- continuei. -- Eu fico
com medo de vocs no terem uma vida para viver, de ficarem sentados
aqui o dia todo sem um ,eu para cuidar, olhando para as paredes,
querendo dar o fora.
     Depois de um minuto, a mame disse:
     -- Eu estou fazendo um curso. A distncia, da Universidade de
Indiana. Para obter um diploma de mestrado em servio social. Na
verdade, eu no estava lendo receitas de antioxidantes; estava fazendo um
trabalho do curso.
     -- Srio?
     -- No quero que pense que estou imaginando um mundo sem voc.
Mas se conseguir o mestrado poderei ajudar famlias que estejam em
momentos difceis ou liderar grupos que lidam com as doenas dos
familiares deles ou...
     -- Pera, voc vai virar um Patrick?
     -- Bem, no exatamente. Existem vrios tipos de trabalho de
assistncia social.
     Papai falou:
     -- Ns dois ficamos preocupados achando que voc poderia se sentir
abandonada.  importante que voc saiba que sempre estaremos aqui para
voc, Hazel. Sua me no vai a lugar algum.
     -- No, isso  timo. Isso  fantstico! -- Eu estava sorrindo de
verdade. -- A mame vai virar um Patrick. Ela vai ser um timo Patrick!
Ela vai ser to melhor nisso que o Patrick!
     -- Obrigada, Hazel. Isso significa muito para mim.
     Eu balancei a cabea. E comecei a chorar. No consegui conter a
felicidade que estava sentindo, chorando lgrimas verdadeiras de
felicidade pela primeira vez em sei l quanto tempo, imaginando minha
me como um Patrick. Aquilo me fez pensar na me da Anna. Ela tambm
teria dado uma tima assistente social. Depois de um tempo, ligamos a
TV e assistimos ao ANTM. Mas dei uma pausa no programa cinco
segundos aps o incio porque tinha vrias perguntas a fazer para a mame.
     -- Quanto falta para voc terminar o curso?
     -- Se eu for a Bloomington e passar uma semana l nesse vero, pode
ser que consiga terminar em dezembro.
     -- H quanto tempo exatamente voc vem escondendo isso de mim?
     -- H um ano.
     -- Me.
     -- Eu no queria magoar voc, Hazel. Incrvel.
     -- Ento, quando voc est esperando por mim do lado de fora do
MCC ou do Grupo de Apoio ou sei l o qu, voc est sempre...
     -- Estou. Fazendo trabalhos ou lendo.
     -- Isso  to maravilhoso! Quando eu morrer, quero que voc saiba
que estarei suspirando para voc l do cu cada vez que pedir a algum
que compartilhe seus sentimentos.
     Meu pai riu.
     -- E eu vou estar com voc, filha -- ele me garantiu.
     Por fim, assistimos ao ANTM. O papai fez um esforo enorme para
no morrer de tdio e toda hora confundia quem era quem entre as
garotas, e perguntava:
     -- Ns gostamos dessa?
     -- No, no. Ns odiamos a Anastasia. Ns gostamos da Antonia, a
outra loira -- a mame explicou.
     -- Elas todas so altas e horrveis -- papai retrucou. -- Perdo por
no conseguir distingui-las.
     Papai esticou o brao por cima do meu colo para pegar a mo da
mame.
     -- Vocs acham que vo continuar juntos se eu morrer? -- perguntei.
-- Hazel, o qu? Querida. -- A mame procurou o controle remoto e deu
uma pausa na TV de novo. -- O que a preocupa?
     --  s que, vocs acham que vo continuar juntos?
     -- Sim,  claro.  claro -- o papai disse. -- Sua me e eu nos
amamos, e se perdermos voc, vamos enfrentar isso juntos.
     -- Jure por Deus -- falei.
     -- Eu juro por Deus -- ele disse.
     Olhei para a mame.
     -- Juro por Deus -- ela concordou. -- Mas por que  que voc est
preocupada com isso?
    -- S no quero estragar a vida de vocs nem nada.
    A mame se inclinou para a frente e encostou o rosto no meu cabelo
bagunado, me beijando no alto da cabea.
    Falei para o papai:
    -- No quero que voc se torne um alcolatra desempregado e
pattico ou coisa assim.
    Minha me sorriu.
    -- Seu pai no  o Peter Van Houten, Hazel. Voc, mais que qualquer
pessoa, sabe que  possvel conviver com a dor.
    -- , t -- falei, e mame me abraou, e eu deixei que ela fizesse isso,
mesmo, no fundo, no querendo.
    -- T, voc pode dar play agora -- falei.
    A Anastasia foi eliminada. Ela fez um escndalo. Foi incrvel. Comi
um pouco no jantar, farfalle com molho pesto, e consegui fazer com que a
comida continuasse dentro de mim.
CAPTULO VINTE E CINCO




A        cordei na manh seguinte em pnico porque tinha sonhado que
         estava sozinha, dentro de um lago enorme, sem um barco.
         Levantei no susto, puxando o BiPAP com fora para a frente, e
senti a mo da mame em mim.
     -- Oi, voc est bem?
     Meu corao estava disparado, mas fiz que sim com a cabea. Mame
falou:
     -- A Kaitlyn est ao telefone e quer falar com voc.
     Apontei para o BiPAP. Ela me ajudou a tir-lo e me conectou ao
Felipe. S ento peguei o celular da mo da mame e disse:
     -- Oi, Kaitlyn.
     -- S liguei para saber como est tudo -- ela disse. -- Para ver como
voc est indo.
     -- Ah, obrigada. Estou indo bem.
     -- Voc simplesmente teve um azar enorme, amada. Isso  to
desarrazoado!
     -- Talvez -- falei.
     Eu no pensava muito mais na minha sorte ou no meu azar. Na
verdade, no queria falar com a Kaitlyn sobre nada, mas ela insistia em
puxar assunto.
     -- E ento, como foi? -- ela perguntou.
     -- Como foi a morte do meu namorado? Humm, uma droga.
     -- No -- ela falou. -- Estar apaixonada.
     -- Ah -- falei. -- Ah. Foi... foi legal passar um tempo com algum
to interessante. Ns ramos muito diferentes, e discordvamos em muitas
coisas, mas ele era sempre to interessante, sabe?
      -- Ai de mim, no sei. Os garotos que eu conheo so extremamente
desinteressantes.
     -- Ele no era perfeito nem nada. Ele no era um prncipe encantado
de conto de fadas, e tal. Tentava ser assim s vezes, mas eu gostava mais
dele quando essas coisas desapareciam.
     -- Voc tem, tipo, um lbum com as fotos e as cartas que ele
escreveu?
     -- Tenho algumas fotos, mas ele nunca chegou a me escrever
nenhuma carta. Exceto, bem, h algumas pginas faltando no caderninho
dele que podem ter sido algo para mim, mas acho que ele as jogou fora ou
elas se perderam ou coisa assim.
      -- Talvez ele tenha mandado essas pginas pelo correio para voc --
ela disse.
     -- No, elas j teriam sido entregues aqui.
     -- Ento talvez no tenham sido escritas para voc -- ela falou. --
Talvez... Quer dizer, no quero deixar voc deprimida nem nada, mas
talvez ele as tenha escrito para outra pessoa e colocado no correio...
     -- VAN HOUTEN! -- gritei.
     -- Voc est bem? Isso foi uma tosse?
     -- Kaitlyn, eu te amo. Voc  um gnio. Tenho que ir agora.
     Desliguei o telefone, rolei para o lado, peguei o laptop, apertei o boto
de ligar e ento escrevi um e-mail endereado a Lidewij Vliegenthart.

    Lidewij,
    Acredito que o Augustus Waters tenha enviado algumas pginas do
caderninho dele para o Peter Van Houten logo antes de ele (o Augustus)
morrer.  muito importante para mim que algum leia essas pginas. Eu
quero l-las, claro, mas talvez elas no tenham sido escritas para mim. De
qualquer forma tm de ser lidas. Precisam ser lidas.
    Voc poderia me ajudar com isso?

    Hazel Grace Lancaster

    Ela respondeu no fim daquela tarde.
    Querida Hazel,

     Eu no sabia que o Augustus tinha morrido. Fiquei muito triste ao
saber do acontecido. Ele era um jovem muito carismtico. Sinto tanto.
Estou to triste. No falei com o Peter desde que me demiti, naquele dia
em que nos conhecemos. Est muito tarde aqui agora, mas irei at a casa
dele amanh cedo a fim de procurar essa carta e for-lo a l-la. As
manhs costumavam ser a melhor hora para falar com ele. Sua amiga,
    Lidewij Vliegenthart

     PS: Levarei meu namorado comigo, para o caso de termos de conter o
Peter fisicamente.

                                     ***

Fiquei me perguntando por que ele teria escrito para o Van Houten
naqueles ltimos dias em vez de para mim, dito que ele s seria absolvido
se me desse a minha continuao. Talvez as pginas do caderninho s
repetissem seu pedido ao Van Houten. Fazia sentido, o Gus usando sua
terminalidade para realizar meu sonho: a continuao da histria era um
algo muito pequeno pelo qual morrer, mas foi o maior que restou  sua
disposio. Atualizei meus e-mails sem parar aquela noite, dormi algumas
horas, e ento comecei a atualizar de novo l pelas cinco da manh. Mas
no chegou nada.
     Tentei ver TV para me distrair, mas minha cabea ficava viajando de
volta a Amsterd, imaginando a Lidewij Vliegenthart e o namorado
percorrendo a cidade de bicicleta numa louca misso  procura da ltima
correspondncia de um garoto morto. Como seria divertido ir sacudindo na
traseira da bicicleta da Lidewij Vliegenthart pelas ruas de paraleleppedo,
seu cabelo vermelho e ondulado sendo soprado em meu rosto, o cheiro dos
canais e da fumaa dos cigarros, todas aquelas pessoas sentadas do lado de
fora dos cafs bebendo cerveja, falando suas letras ,R e ,G de um jeito
que eu jamais aprenderia...
     Eu sentia falta do futuro.  claro que eu sabia, muito mesmo antes da
recorrncia dele, que nunca envelheceria ao lado do Augustus Waters.
Mas ao pensar na Lidewij e em seu namorado, eu me senti roubada. Era
muito provvel que eu nunca mais fosse ver o oceano de uma altura de
trinta mil ps de novo, uma distncia to grande que no d nem para
distinguir as ondas, nem nenhum barco, de um jeito que faz o oceano
parecer um enorme e infinito monlito. Eu poderia imagin-lo. Eu poderia
me lembrar dele. Mas no poderia v-lo de novo, e me ocorreu que a
ambio voraz dos seres humanos nunca  saciada quando os sonhos so
realizados, porque h sempre a sensao de que tudo poderia ter sido feito
melhor e ser feito outra vez.
     E mesmo se voc conseguir chegar aos noventa anos, deve dar essa
mesma sensao -- embora eu inveje as pessoas que tm a oportunidade
de comprovar isso. Mas, pensando bem, eu j tinha vivido o dobro do
tempo que a filha do Van Houten. O que ele no teria dado para ter uma
filha morta aos dezesseis anos...
     De repente, a mame estava de p entre mim e a TV, as mos
cruzadas nas costas.
     -- Hazel -- ela disse.
     Seu tom de voz era to grave que achei que algo estava errado.
     -- Sim?
     -- Voc sabe que dia  hoje?
     -- No  meu aniversrio, ?
     Ela riu.
     -- Ainda no. Hoje  dia quatorze de julho, Hazel.
     --  o seu aniversrio?
     -- No... --  o aniversrio do Harry Houdini?
     -- No...
     -- Cansei de tentar adivinhar, srio.
     --  O DIA EM QUE SE COMEMORA A QUEDA DA
BASTILHA!
     Ela levou os braos  frente do corpo, revelando duas bandeirinhas de
plstico da Frana e agitando-as entusiasticamente.
     -- Isso parece coisa inventada. Tipo o Dia da Conscincia do Clera.
     -- Garanto a voc, Hazel: o dia da Queda da Bastilha no  uma
inveno. Voc sabia que h exatamente duzentos e vinte e trs anos o
povo da Frana invadiu a priso da Bastilha para se armar e lutar por sua
liberdade?
     -- Uau -- falei. -- Ns deveramos mesmo comemorar esta data to
importante.
     -- Acontece que eu acabei de combinar com seu pai um piquenique
no Holliday Park.
     Ela nunca se cansava de tentar, a minha me. Empurrei o sof com a
mo e me levantei. Juntas reunimos alguns ingredientes para sanduches e
achamos uma cesta de piquenique empoeirada no armrio do corredor.

                                    ***

O dia estava, tipo, lindo, finalmente vero de verdade em Indianpolis,
quente e mido -- o tipo de clima que fazia voc se lembrar, depois de um
longo inverno, que ainda que o mundo no tivesse sido feito para os seres
humanos, ns tnhamos sido feitos para o mundo. O papai estava
esperando por ns, de terno bege, de p na vaga para pessoas com
deficincia, digitando em seu smartphone. Ele acenou para ns enquanto
estacionvamos e depois me abraou.
     -- Que dia! -- ele disse. -- Se morssemos na Califrnia, todos os
dias seriam assim.
     -- , mas a voc no daria valor a eles -- minha me falou.
     Ela estava errada, mas eu no a corrigi.
     Acabamos colocando nossa toalha ao lado das Runas, o estranho
retngulo de runas romanas plantado no meio de um campo em
Indianpolis. No so runas de verdade: so, tipo, uma recriao
escultural de runas construda oitenta anos atrs, mas tinham sido to
malcuidadas que acabaram meio que virando runas de verdade por
acidente. O Van Houten iria gostar das Runas. O Gus tambm.
     Ento nos sentamos  sombra das Runas e fizemos uma ,boquinha.
     -- Voc quer passar filtro solar? -- a mame perguntou.
     -- No, obrigada.
     Dava para ouvir o vento balanando as folhas, e naquele vento
viajavam os gritos das crianas no playground, a distncia, descobrindo
como continuar vivas, como percorrer um mundo que no foi feito para
elas ao percorrer um playground que foi.
     O papai me viu observando-as e perguntou:
     -- Voc sente saudade de correr de um lado para outro desse jeito?
     -- Acho que sim, s vezes.
     Mas no era nisso que eu estava pensando. S estava tentando reparar
em todos os detalhes: a luz nas Runas arruinadas, a criancinha que mal
conseguia andar descobrindo um graveto no canto do playground, minha
infatigvel me ziguezagueando a mostarda no sanduche de peru dela,
meu pai dando batidinhas no smartphone no bolso e resistindo  tentao
de dar uma espiada, um cara jogando um frisbee que seu cachorro ficava
correndo para alcanar e depois levar de volta para ele.
     Quem sou eu para dizer que essas coisas podem no durar para
sempre? Quem  o Peter Van Houten para afirmar como verdade a
conjectura de que nossa labuta  temporria? Tudo o que eu sei sobre o
paraso e tudo o que eu sei sobre a morte est naquele parque: um
universo elegante em movimento constante, pululando com runas
arruinadas e crianas estridentes. Meu pai comeou a balanar a mo na
frente do meu rosto.
     -- Sintonize, Hazel. Voc est a?
     -- Foi mal, , o qu?
     -- A mame sugeriu que fssemos ver o Gus.
     -- Ah. T -- falei.

                                    ***

Ento, depois do nosso almoo no parque, fomos de carro at o Cemitrio
Crown Hill, o ltimo e derradeiro local de descanso de trs vice-
presidentes, de um presidente, e do Augustus Waters. Subimos a ladeira e
estacionamos. Os carros passavam atrs de ns na Rua 38. Foi fcil achar
o tmulo do Gus: era o mais novo. A terra ainda estava amontoada. Nada
de lpide por enquanto.
     No senti como se ele estivesse ali nem nada, mas, mesmo assim,
peguei uma das bandeirinhas ridculas da mame e enfiei-a no cho, ao p
do tmulo. Talvez quem passasse por ali pensasse que o Gus tinha sido
um integrante da legio estrangeira francesa ou algum mercenrio heroico.

                                     ***

A Lidewij finalmente escreveu logo depois das seis da tarde, enquanto eu
estava no sof assistindo ao mesmo tempo  televiso e a alguns vdeos no
meu laptop. Imediatamente pude ver que havia quatro arquivos anexados
ao e-mail e quis abri-los primeiro, mas resisti  tentao e li a mensagem.

    Querida Hazel,

     O Peter estava muito bbado quando chegamos  casa dele esta
manh, mas, de alguma forma, isso acabou tornando o nosso trabalho mais
fcil. Bas (meu namorado) o distraiu enquanto eu vasculhava o saco de lixo
no qual ele guarda as cartas dos fs, mas a eu me dei conta de que o
Augustus sabia o endereo do Peter. Havia uma enorme pilha de cartas na
mesa de jantar, onde logo encontrei a do Augustus. Abri o envelope e vi
que estava endereada ao Peter, por isso pedi a ele que a lesse.
     Ele se recusou.
     Fiquei com muita raiva naquela hora, Hazel, mas no gritei com o
Peter. Em vez disso, falei que ele devia  filha morta a leitura da carta
escrita por um garoto morto. Entreguei a carta ao Peter, ele leu tudo e
disse -- e aqui o cito fielmente, palavra por palavra: ,Mande a carta para a
menina e diga a ela que no tenho nada a acrescentar.
     Eu no li a carta, embora meu olhar tenha capturado algumas frases
enquanto escaneava as pginas. Eu as anexei a este e-mail e depois vou
envi-las pelo correio para a sua casa; seu endereo ainda  o mesmo?
    Que Deus te abenoe e te guarde, Hazel.
    Sua amiga,
    Lidewij Vliegenthart

    Cliquei e abri os quatro arquivos anexados. A letra dele estava
confusa, inclinada, o tamanho variando, a cor da caneta mudando. Ele
tinha escrito a carta durante vrios dias, em graus de conscincia variados.

     Van Houten,
     Sou uma pessoa boa, mas um escritor de merda. Voc  uma pessoa
de merda, mas um bom escritor. Ns formaramos uma bela equipe. No
quero lhe pedir nenhum favor, mas, se tiver tempo -- e pelo que vi, voc
tem tempo de sobra --, fiquei me perguntando se poderia escrever um
elogio fnebre para a Hazel. Tenho algumas anotaes e tudo mais, mas se
voc pudesse transform-las num texto completo e coerente, e tal... Ou
ento s me dizer o que eu deveria escrever de forma diferente.
     O bom da Hazel  o seguinte: quase todo mundo  obcecado por
deixar uma marca no mundo. Transmitir um legado. Sobreviver  morte.
Todos queremos ser lembrados. Eu tambm.
      isso o que me incomoda mais, ser mais uma vtima esquecida na
guerra milenar e inglria contra a doena.
     Eu quero deixar uma marca.
     Mas, Van Houten: as marcas que os seres humanos deixam so, com
frequncia, cicatrizes. Voc constri um shopping center medonho ou d
um golpe de Estado ou tenta se tornar um astro do rock e pensa: ,Eles vo
se lembrar de mim agora, mas: (a) eles no se lembram de voc, e (b)
tudo o que voc deixa para trs so mais cicatrizes. Seu golpe de Estado se
transforma numa ditadura. Seu shopping center acaba dando prejuzo.
     (T, talvez eu no seja um escritor to de merda assim. Mas no
consigo organizar minhas ideias, Van Houten. Meus pensamentos so
estrelas que eu no consigo arrumar em constelaes.)
     Ns somos como um bando de ces mijando em hidrantes. Ns
envenenamos as guas subterrneas com nosso mijo txico, marcando tudo
como MEU numa tentativa ridcula de sobreviver  morte. Eu no consigo
parar de mijar em hidrantes. Sei que  tolice e intil -- epicamente intil
em meu estado atual --, mas sou um animal como qualquer outro.
     A Hazel  diferente. Ela anda suavemente, meu velho. Ela anda
suavemente sobre a Terra. A Hazel sabe qual  a verdade:  to provvel
que ns consigamos ferir o universo quanto  provvel que ns o
ajudemos, e  improvvel que faamos qualquer uma dessas duas coisas.
     As pessoas vo dizer que  triste o fato de ela deixar uma cicatriz
menor, que menos pessoas se lembrem dela, que ela tenha sido muito
amada mas no por muita gente. Mas isso no  triste, Van Houten. 
triunfante.  heroico. No  esse o verdadeiro herosmo? Como dizem os
mdicos: em primeiro lugar, no cause dano ou mal a algum.
     Os verdadeiros heris, no fim das contas, no so as pessoas que
realizam certas coisas; os verdadeiros heris so as que REPARAM nas
coisas. O cara que inventou a vacina contra varola no inventou nada, na
verdade. Ele s reparou que as pessoas que tinham varola bovina no
pegavam varola.
     Depois que a minha tomografia acendeu como uma rvore de natal,
eu entrei furtivamente na UTI e vi a Hazel quando ainda estava
inconsciente. Entrei andando atrs de uma enfermeira de crach e
consegui me sentar ao lado da Hazel por, tipo, uns dez minutos antes de
ser pego. Eu realmente achei que ela fosse morrer antes que eu pudesse
lhe contar que tambm ia morrer. Foi brutal: o arengar mecanizado
incessante da terapia intensiva. Havia uma gua cancerosa escura
pingando do peito dela. Os olhos fechados. Entubada. Mas a mo dela
ainda era a mo dela, ainda quente, as unhas pintadas de um azul-escuro
quase preto, e eu simplesmente segurei sua mo e tentei imaginar o
mundo sem ns, e por mais ou menos um segundo fui uma pessoa boa o
suficiente para torcer que ela morresse e nunca ficasse sabendo que eu
tambm ia morrer. Mas a eu quis mais tempo para que pudssemos nos
apaixonar. Creio que meu desejo foi realizado. Eu deixei a minha cicatriz.
     Um enfermeiro chegou e me disse que eu precisava me retirar, que
visitas no eram permitidas, e eu perguntei se ela estava melhorando. O
cara disse: ,Ela ainda est fazendo gua. Bno do deserto, maldio do
oceano.
    O que mais? Ela  to linda! No me canso de olhar para ela. No me
preocupo se ela  mais inteligente que eu: sei que .  engraada sem
nunca ser m. Eu a amo. Sou muito sortudo por am-la, Van Houten. No
d para escolher se voc vai ou no vai se ferir neste mundo, meu velho,
mas  possvel escolher quem vai feri-lo. Eu aceito as minhas escolhas.
Espero que a Hazel aceite as dela.
    Eu aceito, Augustus.
    Eu aceito.




                                                              FIM
